Caso em Betim revela crise na Marinha após denúncias de falhas com militares doentes

Prisão de sargento reformado revela lacunas nos cuidados da Marinha com saúde mental de militares.
Redação NC News
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

O sargento reformado da Marinha do Brasil Guilherme Augusto Rodrigues Martins, 33, é preso em flagrante na última terça-feira, 14, acusado de matar a tiros o vizinho Carlos Alberto dos Santos, 61, em um condomínio na zona rural de Betim, na Grande BH. No dia seguinte, 15 de julho, a Justiça converte a prisão em preventiva e determina a transferência do militar para um presídio da corporação no Rio de Janeiro.

Crime após dois anos de brigas entre vizinhos

O conflito entre os dois começa bem antes dos disparos. Segundo a família de Carlos Alberto, o aposentado registra cinco boletins de ocorrência contra o vizinho ao longo de cerca de dois anos, sempre por ameaças e desentendimentos no condomínio, área de chácaras na região rural de Betim.

No dia do crime, câmeras de segurança registram o momento em que Carlos chega de carro ao condomínio. O veículo para, ele abre a porta e desce. Em seguida, Guilherme se aproxima da janela, os dois iniciam uma briga física e desaparecem do alcance da câmera. Logo depois, moradores ouvem uma sequência de tiros.

Relatos de familiares indicam ao menos cinco disparos. Carlos é atingido no abdômen, socorrido pelos parentes e levado ao Hospital Regional de Betim. Morre pouco depois. O corpo segue para o Instituto Médico-Legal da cidade e é velado e sepultado no dia seguinte.

A Polícia Militar prende Guilherme ainda no condomínio. Aos policiais, ele afirma ter agido em legítima defesa. “O suspeito alegou que agiu em legítima defesa e que a vítima havia invadido sua casa portando uma faca”, informa a PM. Imagens e depoimentos colhidos pela investigação passam a contrariar essa versão.

Arma irregular, munição e versão contestada

Na abordagem, Guilherme entrega aos militares um revólver calibre .22 com numeração raspada, além de 31 munições do mesmo calibre. Ele apresenta um ferimento superficial na mão direita e atribui o corte a uma agressão da vítima durante a briga.

Em depoimento, o sargento reformado dá versões diferentes sobre a dinâmica do confronto e diz não saber onde estão os estojos das munições disparadas. A Polícia Civil realiza perícia na cena do crime, coleta vestígios e imagens e lavra o Auto de Prisão em Flagrante na 2ª Central Estadual do Plantão Digital. O inquérito segue em andamento.

A esposa de Carlos relata à polícia que as desavenças com o vizinho se arrastam há anos e que Guilherme também mantém conflitos com outros moradores da região. O histórico de atritos, somado aos boletins de ocorrência e às imagens de segurança, reforça a suspeita de homicídio motivado por rivalidade antiga, não por uma reação imediata à invasão de domicílio.

Interdição judicial e histórico de surto homicida

O caso ganha contornos mais complexos quando vem à tona a situação psiquiátrica de Guilherme. Em 2021, a 1ª Vara de Família, Sucessões e Ausência de Betim o declara judicialmente interditado, após laudo pericial concluir que ele sofre de síndrome de burnout, psicose não orgânica, transtorno obsessivo-compulsivo e esquizofrenia paranoide.

A decisão judicial, da qual o portal teve acesso, registra um episódio anterior de violência extrema. “O militar sofreu um surto psicótico, com alucinações e delírios, e cometeu um homicídio contra um desconhecido, fato que resultou em uma prisão por cinco anos”, afirma o documento. O laudo descreve ainda internação em hospital psiquiátrico após o crime.

Na mesma sentença, o juiz considera que Guilherme tem incapacidade parcial para administrar a própria vida civil e exige acompanhamento permanente e tratamento contínuo. A mãe é nomeada curadora e passa a responder por decisões patrimoniais e financeiras. O estudo social incluído no processo reforça a dependência. “A mãe é a principal responsável pelos cuidados com o filho, descrito como uma pessoa ‘limitada, introvertida e dependente'”, registra o relatório.

Militar afastado por doença só em 2024

Apesar da interdição em 2021, Guilherme segue vinculado à Marinha. Dados do Portal da Transparência do governo federal indicam que ele só é transferido para a reserva em 18 de junho de 2024, por motivo de doença, com o posto de terceiro-sargento reformado.

A permanência na ativa por quase três anos após a decisão judicial levanta dúvidas sobre o fluxo de informação entre a Justiça, a área de saúde e o comando militar. Protocolos de avaliação médica de militares, especialmente em casos de transtornos mentais graves, entram na linha de tiro de especialistas e de entidades de direitos humanos.

Questionamentos recaem também sobre o controle de armas em mãos de pessoas com histórico psiquiátrico severo e interdição judicial. O fato de um militar reformado interditado ter acesso a um revólver com numeração suprimida, além de 31 munições, expõe uma zona cinzenta entre a legislação, a fiscalização e a prática cotidiana em áreas rurais e condomínios fechados.

Reação da Marinha e pressão por mudanças

Em nota, a Marinha do Brasil adota tom de distanciamento institucional, mas não ignora a gravidade do caso. “A Marinha do Brasil lamenta o ocorrido, se solidariza com os familiares da vítima e repudia condutas e atos ilegais que atentem contra a vida, a honra e os princípios militares”, afirma o comunicado.

Na audiência de custódia realizada em 15 de julho, a defesa pede a liberdade do sargento e sugere que ele responda ao processo em tratamento psiquiátrico fora da prisão. O pedido é negado. “A Justiça aceitou o pedido da defesa e da Marinha para que ele fique preso em presídio da instituição no Rio de Janeiro”, registra o jornal Estado de Minas ao relatar a decisão. A controvérsia agora migra para a esfera penal: peritos forenses devem avaliar se, no momento dos disparos, Guilherme tem capacidade de entender o caráter ilícito do ato e se pode ser responsabilizado criminalmente.

O caso acende um alerta dentro e fora dos quartéis. No meio militar, amplia a pressão por protocolos mais rígidos de acompanhamento psicológico, especialmente em concursos, promoções e concessão de armas a praças e oficiais. A própria busca por carreira estável na Marinha, alimentada por anúncios de concurso, promessa de salário atraente e benefícios, enfrenta um debate incômodo sobre suporte em saúde mental aos aprovados.

Entre vizinhos e moradores da região rural de Betim, a sensação é de que a escalada de conflitos poderia ter sido contida antes da tragédia. Instrumentos de mediação comunitária, uma atuação mais presente do poder público e o cumprimento rigoroso de decisões de interdição aparecem como peças faltantes na prevenção de episódios semelhantes.

Investigação, perícia psiquiátrica e debate ampliado

Enquanto a Polícia Civil aprofunda as diligências e cruza imagens, laudos e depoimentos, o processo criminal avança sob a sombra do histórico psiquiátrico do acusado. A tendência é que o Judiciário determine nova perícia para definir se Guilherme é imputável, semi-imputável ou inimputável.

Independentemente da conclusão, o caso já entra no radar de discussões sobre políticas públicas. Forças Armadas, sistema de Justiça e rede de saúde mental são empurrados a rever rotinas de comunicação, tratamento e monitoramento de pessoas com transtornos graves, sobretudo quando há episódios anteriores de violência.

Em Betim, uma família enterra um pai de 61 anos morto com cinco tiros. No Rio, um sargento reformado da Marinha espera, atrás das grades, por exames e decisões que vão definir se responderá por mais um homicídio — e até que ponto suas doenças e o sistema que falhou em contê-las dividem a responsabilidade pelo que aconteceu.

 

Carregar Comentários