Excomungado pelo Vaticano desde o dia 2 desse mês, o padre Françoá Rodrigues Figueiredo Costa, de Brasília, desafia a decisão, rejeita a pena e anuncia que continuará celebrando missas. O caso envolve a Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX), ordenações de 4 bispos sem autorização papal e abre uma crise aberta entre o sacerdote e a hierarquia católica no país.
Ruptura pública em Brasília
A excomunhão se tornou pública quando a Arquidiocese de Brasília divulgou, na última sexta-feira, 11, uma nota pastoral que enquadra formalmente o padre em situação de cisma. O documento liga diretamente sua pena ao decreto no dia 2, pelo qual o Vaticano declara cismáticos e excomungados os responsáveis pelas ordenações episcopais de 1.º de julho, feitas pela FSSPX sem o aval do papa.
Desde 5 de abril de 2025, Françoá se considera aderente à Fraternidade. Com o novo decreto, passa a ser listado entre os excomungados. A Arquidiocese endurece o tom e alerta que “os atos ministeriais do sacerdote consideram-se, a partir da excomunhão, ilícitos”, e que confissões e matrimônios por ele celebrados são nulos.
O impacto é imediato sobre fiéis ligados à chamada Capela Santo Atanásio, em Brasília, identificada como espaço de atuação do grupo. Na mesma nota, a arquidiocese afirma que “os fiéis que frequentam regularmente ou exclusivamente as atividades vinculadas à Fraternidade são considerados, igualmente, cismáticos e excomungados”. Recomenda ainda que as celebrações no local sejam “terminantemente evitadas”.
Carta aberta e ataque ao alto clero
A resposta de Françoá vem em 16 de julho, em uma carta aberta de oito páginas dirigida aos católicos de Brasília. Ali, o sacerdote de 22 anos de ministério declara a excomunhão inválida, acusa corrupção doutrinária no alto clero e se apresenta como defensor da tradição católica contra a hierarquia atual.
Ele afirma que, ao longo da trajetória, enfrenta bispos, padres e leigos “para defender a fé católica” e associa a pena recebida à resistência a práticas e decisões pastorais da Arquidiocese de Brasília. No texto, relata ter sido afastado da Paróquia Senhor Bom Jesus, em 2024, depois de colocar traduções em latim dentro do Missal Romano. Diz que trabalhava havia quatro anos na arquidiocese e que chegou a representar todos os padres da Ceilândia em temas pastorais.
O estopim simbólico do conflito, segundo o próprio padre, ocorre em setembro de 2022, quando ele denuncia em vídeo o que chama de “rituais de macumba” em um templo católico na Paróquia de Sobradinho e na Catedral de Brasília. O material ganha repercussão, mas é retirado do ar por determinação da arquidiocese. “O que na época eu fiz, pois talvez eu acreditasse na obediência cega que eles tanto apregoam”, escreve.
Na mesma carta, ele resgata casos de abusos sexuais envolvendo sacerdotes no Brasil e no exterior, para sustentar que a cúpula se cala diante de escândalos morais, mas age com dureza contra críticos litúrgicos e doutrinais. O texto cita santos como Santo Atanásio e Santa Joana D’Arc como modelos de resistência à hierarquia em momentos de crise, sugerindo paralelo com a própria situação.
Rejeição ao Concílio Vaticano II e alinhamento à FSSPX
O fio condutor teológico da carta é a rejeição ao Concílio Vaticano II, realizado na década de 1960, base das reformas litúrgicas e pastorais da Igreja contemporânea. Nesse ponto, Françoá se alinha integralmente à FSSPX, fundada em 1970 pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre e hoje referência mundial do catolicismo tradicionalista.
“Não podemos aceitar os erros do Concílio Vaticano II, entre eles, a liberdade religiosa, o ecumenismo, o humanismo horizontal, a reforma da Missa, a colegial-sinodalidade”, escreve o padre. A crítica sintetiza a agenda da Fraternidade, que defende um modelo de Igreja mais fechado, liturgia em latim, missa com o celebrante voltado para o altar e um ideal de sociedade explicitamente católica.
No decreto de 2 de julho, o Vaticano classifica a nomeação dos 4 bispos pela FSSPX como “ato de natureza cismática”. Determina que sacramentos de penitência e matrimônio administrados pelos sacerdotes ligados ao grupo, incluindo Françoá, são inválidos, e estende a excomunhão a leigos que aderirem formalmente à Fraternidade.
Trata-se do primeiro cisma reconhecido pela Igreja em quase quatro décadas, novamente envolvendo a FSSPX. A decisão coloca em xeque a presença do grupo em diversos países e acirra o debate sobre o peso dos movimentos tradicionalistas dentro do catolicismo.
Impacto sobre os fiéis e disputa por autoridade
Na prática, a excomunhão de Françoá representa uma ruptura total entre ele e a Arquidiocese de Brasília. O padre perde qualquer faculdade ministerial reconhecida pela Igreja oficial. Casamentos que ele assiste e confissões que ouve deixam de ter validade sacramental, segundo o decreto romano e a nota pastoral local.
O efeito mais sensível recai sobre os fiéis que o seguem. Quem frequenta regularmente a Capela Santo Atanásio ou outras estruturas ligadas à FSSPX passa a ser considerado, também, em situação de cisma e excomunhão. Na vida cotidiana, isso significa ficar impedido de receber os sacramentos em paróquias da Igreja Católica em plena comunhão com Roma.
Ao mesmo tempo, o caso oferece respaldo público aos bispos e padres que tentam conter a expansão de grupos tradicionalistas à margem da hierarquia. A arquidiocese ganha um instrumento formal para desautorizar celebrações, negar uso de templos e alertar comunidades sobre o caráter cismático dessas iniciativas.
Dentro do universo de apoio ao padre, porém, a excomunhão reforça a narrativa de perseguição. Para esse segmento, a pena confirma a ideia de uma Igreja oficial afastada da tradição e dominada por relativismo doutrinário. Ao insistir em celebrar, Françoá alimenta uma espécie de “Igreja paralela”, sem laços jurídicos com Roma, mas sustentada por convicções teológicas rígidas.
Um cisma com rosto brasileiro
O imbróglio em Brasília passa a ser visto como o capítulo mais visível, no Brasil, do cisma mundial em torno da FSSPX. Até aqui, o país convivia com grupos tradicionais em tensão com a hierarquia, mas sem uma ruptura tão explícita, documentada por decreto de cisma e nota pastoral.
A partir de agora, o caso de Françoá tende a servir de referência para novos conflitos envolvendo padres, comunidades e movimentos que rejeitam o Concílio Vaticano II. A arquidiocese já sinaliza maior vigilância sobre celebrações vinculadas à Fraternidade, enquanto o padre promete intensificar a agenda de missas e formações fora da estrutura oficial.
No horizonte, a Igreja brasileira é empurrada para um debate incômodo: até onde vai a liberdade de crítica interna e em que momento ela se converte, para Roma, em heresia, cisma e excomunhão. A resposta, por enquanto, se escreve no altar disputado de Brasília.