As bolsas asiáticas afundam em forte baixa nesta sexta-feira, 17, puxadas por uma liquidação concentrada em ações de chips e de inteligência artificial. O movimento atinge alguns dos principais nomes globais do setor de semicondutores e acende o alerta para uma correção mais ampla em tecnologia.
Liquidação espalha pessimismo de Taiwan ao Japão
O epicentro da turbulência está em Taiwan. O índice Taiex despenca 6,47%, a 42.671,27 pontos, em um dos piores pregões do ano. O tombo vem um dia depois de a TSMC, maior fabricante de semicondutores por contrato do mundo, anunciar que pretende investir US$ 100 bilhões para ampliar sua capacidade de produção nos Estados Unidos.
O anúncio, que em outro momento poderia ser interpretado como sinal de confiança no futuro da demanda, hoje vira combustível para o receio de exagero. A ação da companhia não acompanha a ambição do plano. “A ação da TSMC caiu 7,29%”, num ajuste que reflete dúvidas sobre retorno e timing de um projeto dessa escala.
Em Tóquio, o clima não é muito diferente. O Nikkei recua 4,03%, a 64.141,12 pontos, com perdas concentradas justamente nas empresas mais expostas ao ciclo de semicondutores. A Tokyo Electron, fabricante de equipamentos para produção de chips, desliza 8,17%. A Advantest, que produz máquinas de teste para semicondutores, cai 7,20%.
O baque mais profundo na praça japonesa, porém, recai sobre a SoftBank. O conglomerado, conhecido pelos grandes aportes em empresas de tecnologia e inteligência artificial, desaba 9,01%. “A SoftBank, que tem enormes investimentos em IA, desabou 9,01%”, sintetiza um operador em Tóquio, resumindo o humor entre investidores com o setor.
Temor de bolha em IA e chips ganha força
A correção de hoje não surge do nada. “Ações relacionadas à IA estão sob pressão há meses, em meio a temores de que as cotações tenham avançado demais e de que a demanda voraz por memória e processadores possa não se sustentar caso a tecnologia não entregue o nível de lucro e produtividade prometido”, observa um relatório de uma casa de análise asiática.
Em outras palavras, parte do mercado começa a questionar se o entusiasmo com a inteligência artificial, especialmente generativa, não virou euforia. As projeções de ganhos de produtividade, novas receitas e margens mais robustas estão no foco de gestores e analistas, que hoje cobram resultados concretos após meses de alta quase contínua.
O plano da TSMC de aplicar US$ 100 bilhões em fábricas nos Estados Unidos, em vez de aliviar temores de oferta, amplia a sensação de que o setor pode estar investindo antes de ter clareza sobre o ritmo real da demanda nos próximos anos. O recado do pregão parece direto: dinheiro barato ficou para trás, e projetos bilionários passam a ser examinados com mais ceticismo.
China, Hong Kong e Austrália também entram na correnteza
Na China continental, o movimento não poupa os principais índices. O Xangai Composto cai 3,05%, a 3.764,15 pontos. O Shenzhen Composto recua 5,25%, a 2.434,08 pontos, na maior queda diária desde abril do ano passado. A correção atinge empresas ligadas à cadeia de semicondutores e companhias de tecnologia que surfaram a onda de IA.
Em Hong Kong, o Hang Seng perde 1,78%, a 24.562,24 pontos. A bolsa, que vinha oscilando entre sinais tímidos de recuperação e novas ondas de aversão a risco, volta a sentir a pressão de investidores estrangeiros reduzindo exposição a tecnologia chinesa e asiática em geral.
Na Oceania, o clima de aversão a risco também aparece. Em Sydney, o índice S&P/ASX 200 cede 0,50%, a 8.796,70 pontos, seguindo o sinal negativo de Wall Street e da Ásia. Ainda que a queda seja menor que a registrada em Taiwan e Japão, o movimento indica que o desconforto com o setor de tecnologia e chips já atravessa fronteiras.
O único grande mercado da região que fica de fora da turbulência é a Coreia do Sul, cuja bolsa não opera hoje por causa de um feriado nacional. Mesmo assim, analistas já antecipam que o índice local, fortemente exposto a gigantes de chips e eletrônicos, tende a ajustar preços quando o pregão reabrir.
Influência de Nova York e impacto global
O humor azedo não nasce apenas na Ásia. A liquidação de hoje segue a baixa generalizada das bolsas de Nova York na véspera, em um movimento também liderado por ações de tecnologia. A correlação entre Wall Street e os mercados asiáticos, especialmente em papéis de IA e semicondutores, fica cada vez mais evidente.
Para investidores globais, o recuo coordenado de hoje funciona como sinal de que o ajuste pode não se limitar a um ou outro mercado. Fundos internacionais, com posições relevantes em TSMC, SoftBank e empresas japonesas e chinesas de tecnologia, revisam alocações e refazem contas sobre o preço considerado razoável para esses ativos.
Quem perde na largada são os acionistas dessas companhias e os fundos mais expostos ao segmento de IA e semicondutores, que veem parte dos ganhos recentes evaporar em um único pregão. Investidores que entraram nas altas mais recentes sentem com mais força o impacto do ajuste.
Há, porém, quem veja na correção uma oportunidade. Gestores com caixa disponível começam a mapear empresas com fundamentos sólidos que, na avaliação deles, ficaram baratas em meio ao pânico. A discussão, agora, gira em torno de até onde vai o movimento de venda e em que momento o mercado volta a separar promessas frágeis de projetos mais consistentes.
O que esperar para os próximos meses
A sessão de hoje deixa como herança um recado claro: o mercado de IA e semicondutores entra em uma fase de prova real. Resultados trimestrais e projeções de lucro ganham peso ainda maior na precificação dessas ações. Discursos grandiosos sobre revolução tecnológica passam a valer menos do que métricas de rentabilidade, geração de caixa e eficiência operacional.
Analistas esperam mais volatilidade nos próximos meses. Empresas podem rever cronogramas de investimento, desacelerar projetos mais agressivos ou redirecionar recursos para áreas com retorno mais previsível. O plano de US$ 100 bilhões da TSMC nos Estados Unidos, por exemplo, tende a ser acompanhado de perto por reguladores, clientes e investidores, atentos a qualquer sinal de atraso ou mudança de rota.
Para além da Ásia, o ajuste tem potencial de influenciar decisões de alocação no mundo inteiro, inclusive no Brasil. Fundos locais que investem em tecnologia global e ETFs atrelados a índices estrangeiros sentem, com algum atraso, o impacto da correção. A forma como o setor de IA vai atravessar essa fase de teste pode determinar o apetite dos investidores por risco tecnológico no curto e médio prazo.
No fim da sessão, a sensação dominante entre operadores e gestores é de cautela. A pergunta que fica é se o pregão de hoje marca apenas uma realização mais forte após meses de rali ou o início de um ciclo mais prolongado de reprecificação das grandes histórias de inteligência artificial em todo o mundo.