Joesley Batista tenta vender uma fatia bilionária da mina de Corumbá (MS) para a Vale, em negociação que vem à tona nesta sexta-feira (17) e já contamina a política interna da mineradora às vésperas da assembleia de acionistas de 22 de julho. A operação, avaliada entre R$ 2 bilhões e R$ 4 bilhões, não avança porque a diretoria da Vale considera o negócio ruim.
A negociação bilionária que ninguém admite
A disputa gira em torno de uma mina de minério de ferro estratégica no Sistema Centro-Oeste, comprada pelo grupo J&F por US$ 1,2 bilhão em 2022. Nos bastidores, executivos da Vale relatam que o empresário buscou monetizar parte do ativo e, para isso, contratou o banco Citi.
O plano, segundo fontes ouvidas por O Globo e reproduzidas em análises de Malu Gaspar, é vender uma participação relevante sem abrir mão do controle. “De acordo com essas informações, Joesley queria repassar à Vale 45% da mina que custou US$ 1,2 bilhão em 2022 por R$ 4 bilhões”, relatam fontes da Vale à colunista. Em alternativa, entrou na mesa a hipótese de uma fatia menor, próxima de 30%, por R$ 2 bilhões.
O desenho agradaria à J&F, que levantaria caixa bilionário e manteria o comando da operação. Para a Vale, significaria retomar posição relevante em Corumbá, ampliando presença logística e produtiva na região. Só que o preço pedido e as condições financeiras esbarram no crivo da diretoria.
“O negócio acabou não indo adiante porque foi considerado ruim pela diretoria da mineradora”, afirmam as mesmas fontes. A avaliação interna é que a taxa de retorno da mina, mesmo com potencial de expansão, não compensa o desembolso nas condições atuais.
E-mail vazado expõe bastidor e força recuo
A negociação corre em sigilo até maio, quando conselheiros da Vale embarcam para Corumbá após um jantar com os irmãos Batista no Rio. A programação inclui visita às minas do Sistema Centro-Oeste, articulada pelo então chairman Daniel Stieler, segundo relatos internos.
A viagem, descrita inicialmente como institucional, ganha outra dimensão quando um dos conselheiros, Manoel Lino Oliveira, conhecido como Ollie, relata o roteiro em e-mail aos colegas Stieler e ao CEO Gustavo Pimenta. No texto, revelado pelo colunista Lauro Jardim, Ollie admite que chega cético à operação, mas muda de opinião após a visita.
O conselheiro destaca o “empreendedorismo fora do normal” dos irmãos Batista e o “apetite para riscos muito além de nós”. Ressalta ainda que o grupo obteve licenças para produzir até 26 milhões de toneladas de minério de ferro e investiu pesado na logística fluvial da região.
O e-mail, enviado de forma confidencial, vaza e ganha publicidade. “Depois que a visita foi revelada aos outros conselheiros num e-mail confidencial cujo teor foi publicado pelo colunista Lauro Jardim”, escreve Malu Gaspar, a direção da Vale se vê pressionada a explicar encontros, viagens e conversas com um dos empresários mais conhecidos — e controversos — do país.
Em resposta, a Vale divulga comunicado negando que vá recomprar Corumbá. A J&F também nega ter tentado a operação, embora ambas confirmem a visita dos executivos e a contratação do Citi para sondar interessados em uma participação minoritária na controladora do Sistema Centro-Oeste, a LHG Mining.
J&F busca caixa; Vale segura o cofre
Nos bastidores, interlocutores dos dois lados descrevem uma equação delicada. A J&F, dona da JBS e de um portfólio que vai de alimentos a serviços financeiros, testa o mercado para transformar em dinheiro um ativo comprado há pouco tempo. A venda parcial da mina de Corumbá permitiria capturar valorização, reduzir exposição a risco mineral e abrir espaço para outros investimentos ou reorganização financeira.
Para a Vale, que ainda lida com pressões de governança e de reparação de desastres passados, assumir um cheque de até R$ 4 bilhões em um ativo que vendeu poucos anos atrás exige justificativa robusta. A avaliação técnica do comitê executivo aponta que o retorno projetado não bate com o valor pedido por Joesley.
Há ainda um componente político. O CEO Gustavo Pimenta, que hoje rejeita a compra, foi quem vendeu Corumbá em 2022, quando ocupava o cargo de diretor financeiro. A volta ao ativo, a um preço mais alto e em meio a divisões no conselho, poderia reforçar críticas à estratégia da administração.
A crise interna se agrava após a Previ, fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil e um dos principais acionistas da Vale, decidir destituir Daniel Stieler da presidência do conselho e indicar Ollie para o posto. A disputa pelo comando do colegiado se mistura agora ao debate sobre a relação da empresa com o grupo de Joesley.
Assembleia em julho deve cobrar explicações
O episódio chega à assembleia de acionistas de 22 de julho como munição para minoritários e investidores institucionais. O encontro, que já decide a sucessão no conselho, tende a virar palco para questionamentos sobre transparência, governança e critérios de alocação de capital da Vale.
A negativa pública de ambas as partes não encerra o caso. A confirmação, por fontes internas, de que valores e percentuais circularam em mesas de negociação alimenta dúvidas sobre o estágio real das conversas e sobre a situação financeira da J&F. A pergunta que ecoa no mercado é por que o grupo se dispõe a abrir mão de até 45% de uma mina recém adquirida.
Enquanto a venda não avança, a configuração do setor mineral no Mato Grosso do Sul permanece intacta. A J&F segue como controladora do Sistema Centro-Oeste, e a Vale continua de fora de Corumbá, avaliando outras alternativas de expansão. O Citi mantém o mandato para estruturar um processo competitivo, mas a presença da Vale na disputa, neste momento, parece improvável.
O episódio reforça a imagem de um mercado em que operações bilionárias ainda prosperam em zonas de sombra, entre comunicados oficiais genéricos e vazamentos seletivos de e-mails e memorandos internos. O próximo capítulo se escreve em 22 de julho, quando os acionistas da Vale terão a chance de cobrar, em público, as respostas que até agora circulam apenas nos bastidores.