Um corpo feminino foi encontrado nesta sexta-feira (17), em uma área de mata em Angra dos Reis (RJ), durante as buscas pela cozinheira Berenice Ramos de Aguiar, desaparecida desde o fim de junho no litoral de São Paulo. A principal suspeita no caso, a patroa da vítima, está presa temporariamente, e a polícia trata a investigação como possível homicídio.
Corpo em área íngreme e suspeita focada na patroa
O corpo apareceu na localidade de Serra d’Água, às margens da Estrada de Lídice, em uma encosta íngreme e de difícil acesso. A vítima está presa a uma árvore, o que obriga o Corpo de Bombeiros a usar técnicas de rapel para a remoção. Até o início da noite, o resgate ainda mobiliza equipes no terreno acidentado.
Investigadores da Polícia Civil de São Paulo e o Grupo de Pronta Resposta do 3º Batalhão de Ações Especiais de Polícia (BAEP) participam da operação. O delegado André Luiz Matera Costilhas afirmou que a principal linha de trabalho é de que o corpo seja o da cozinheira desaparecida em Ubatuba. “A principal linha de trabalho da polícia é que o corpo seja o da cozinheira”, diz.
A confirmação da identidade depende de exames periciais, que só começam depois que o cadáver deixa a mata. A expectativa é de que laudos iniciais saiam nos próximos dias, incluindo análise de arcada dentária, impressões digitais e, se necessário, teste de DNA.
Desaparecimento em Ubatuba e contradições no depoimento
Berenice Ramos de Aguiar, de 60 anos, desapareceu em 30 de junho, no bairro Ubatumirim, em Ubatuba, litoral norte de São Paulo. Ela trabalhava como cozinheira para a empresária Eliane Alves dos Santos, de 46 anos, que virou o centro das suspeitas da polícia.
Na versão apresentada inicialmente, Eliane disse que deixou a funcionária em um ponto de ônibus após um acerto trabalhista de R$ 2,6 mil e sustentou que Berenice iria para um serviço na Praia das Toninhas, também em Ubatuba. A narrativa, porém, começa a ruir à medida que avançam as diligências e a análise de imagens.
Câmeras de segurança e registros de radares mostraram a caminhonete da empresária seguindo pela Estrada do Pasto Grande, em direção a Paraty (RJ), e não para o trajeto apontado pela patroa em depoimento. O deslocamento coloca o veículo na rota que leva ao trecho de mata em Angra dos Reis onde o corpo é encontrado hoje.
As contradições se somam a outro elemento decisivo: a perícia encontrou vestígios de sangue no banco do carona da caminhonete de Eliane, após indicação de cães farejadores. A equipe usou luminol, reagente químico que faz manchas de sangue invisíveis brilharem em tom azul, e detecta concentração maior justamente na área onde, em tese, viajaria o passageiro.
Vestígios de sangue, armas apreendidas e prisão temporária
Os laudos completos sobre o material recolhido no veículo ainda não ficaram prontos, mas os resultados preliminares bastam para reforçar a suspeita de crime violento. Durante o cumprimento de mandados de busca, os investigadores também encontraram a caminhonete com sinais de reparos que, segundo a polícia, são compatíveis com danos provocados por disparos de arma de fogo. Três armas registradas e dois celulares são apreendidos na casa da empresária.
Diante do conjunto de indícios e das incoerências do depoimento, a Justiça decretou, em 10 de julho, a prisão temporária de Eliane por suspeita de envolvimento no desaparecimento da cozinheira. Desde então, ela permanece detida enquanto o inquérito avança. A defesa informa que só vai se manifestar após ter acesso integral ao processo.
Em paralelo, a família de Berenice tenta reconstruir os últimos passos da trabalhadora. Um áudio gravado pelo filho da cozinheira, José Carlos de Faria, dirigido à patroa, expõe a tensão dos primeiros dias após o sumiço. “O que aconteceu? Porque minha mãe sumiu”, questiona ele. Eliane responde: “Ela não chegou ainda? Ela saiu daqui falando que ia para Toninhas. Ela tinha um trabalho lá”.
Cooperação entre estados e impacto nas cidades
A partir da descoberta de sangue no veículo e do mapeamento eletrônico do trajeto da caminhonete, a investigação cruza fronteiras. A polícia paulista acionou autoridades do Rio de Janeiro e abre frente de buscas na região de Serra d’Água, em Angra dos Reis. A cooperação entre forças de segurança dos dois estados se torna peça central para localizar o corpo na área de mata.
O avanço do caso tem impacto direto nas comunidades envolvidas. Em Ubatuba, onde Berenice é vista pela última vez, o episódio alimenta a sensação de vulnerabilidade entre trabalhadores que dependem de acordos informais e relações de confiança com empregadores. Em Angra dos Reis, moradores acompanham a movimentação policial em uma estrada usada tanto por turistas quanto por população local.
O caso também escancara, mais uma vez, a importância de técnicas forenses modernas, como o uso do luminol, a leitura de dados de radares e câmeras e a análise detalhada de trajetos de veículos. Essas ferramentas permitem à polícia contestar narrativas e reconstituir deslocamentos com precisão, especialmente em investigações interestaduais, que exigem coordenação mais complexa.
O que muda com o achado do corpo
A localização do cadáver hoje representa um ponto de virada na investigação. Até então, a polícia trabalha apenas com o desaparecimento de Berenice e indícios materiais na caminhonete e na casa da principal suspeita. Com o corpo em mãos, se a identidade for confirmada, o inquérito passa a lidar com um possível homicídio consumado, não só com um sumiço a esclarecer.
Para a família, o encontro do corpo, ainda que doloroso, pode abrir caminho para respostas mais objetivas sobre o que ocorreu entre o dia 30 de junho, quando a cozinheira é vista pela última vez, e a chegada da caminhonete da patroa à região de fronteira entre São Paulo e Rio de Janeiro. Também cria as condições para um eventual julgamento penal, com base em laudos periciais e na reconstrução dos últimos movimentos das duas mulheres.
A empresária, por sua vez, enfrenta um cenário jurídico mais pesado. Se os laudos confirmarem que o sangue na caminhonete é de Berenice e que o corpo encontrado hoje pertence à cozinheira, a investigação tende a avançar para um pedido de indiciamento por homicídio. O Ministério Público, munido das provas técnicas, poderá avaliar a apresentação de denúncia formal à Justiça.
O debate público ao redor do caso já extrapola os limites de Ubatuba e Angra e alcança temas como violência contra mulheres em contextos de trabalho doméstico e informal, fiscalização de vínculos empregatícios e proteção a trabalhadores em situação de vulnerabilidade.
Próximos passos da investigação
Nas próximas horas, o foco das autoridades está na remoção segura do corpo da encosta e na preservação máxima de vestígios, como fibras de roupa, marcas de amarração e eventuais projéteis. Exames tanatológicos, que analisam causa e circunstâncias da morte, devem indicar se houve disparos de arma de fogo, agressão física ou outra forma de violência, além de estimar o intervalo entre o desaparecimento e a morte.
Paralelamente, a polícia de São Paulo continua a ouvir testemunhas e a cruzar depoimentos com dados objetivos de deslocamento e comunicação, como registros de celulares. O prazo da prisão temporária de Eliane impõe um relógio à investigação e deve forçar decisões rápidas sobre eventual pedido de prorrogação ou conversão em prisão preventiva.
Enquanto o laudo de identificação não sai, uma pergunta ecoa entre familiares, investigadores e moradores das duas cidades: que sequência de decisões e conflitos levou uma cozinheira de 60 anos, em busca de trabalho no litoral, a terminar como um corpo pendendo de uma árvore em uma encosta de mata fechada entre São Paulo e Rio?