A nova tarifa imposta por Donald Trump aos produtos brasileiros deixou de ser apenas um impasse comercial. O episódio ultrapassou a esfera diplomática, entrou no debate eleitoral e passou a produzir desgaste simultâneo para governo e oposição.
Em Brasília, a avaliação nos bastidores é de que ninguém saiu vencedor. A oposição tenta atribuir ao governo Lula a responsabilidade pelo agravamento da relação com Washington. Já o Palácio do Planalto sustenta que a medida faz parte da estratégia política de Trump para pressionar um governo que mantém posições divergentes da Casa Branca.
O efeito “Tariflávio”
No meio desse embate, quem acabou pagando uma conta política inesperada foi o senador Flávio Bolsonaro.
As viagens do parlamentar aos Estados Unidos e sua participação em reuniões para discutir o adiamento da tarifa produziram um efeito contrário ao esperado. Nas redes sociais, consolidou-se o apelido “Tariflávio”, em referência direta ao impacto da crise comercial, em paralelo ao rótulo “Taxad”, associado ao ministro da Fazenda, Fernando Haddad.
A ironia ganhou força porque parte do entorno bolsonarista chegou a enxergar a pressão americana como um instrumento político contra o governo Lula e o Supremo Tribunal Federal (STF). Quando os efeitos econômicos passaram a atingir empresas, exportações e empregos, a narrativa mudou, mas o desgaste permaneceu.
Para Flávio, que figura entre os nomes cotados pelo PL para a sucessão presidencial, a crise abre um novo flanco de desgaste. A imagem de interlocutor junto ao governo Trump passou a ser explorada também pelos adversários, que o associam diretamente aos efeitos do tarifaço.
Planalto enfrenta críticas
No Palácio do Planalto, o problema é diferente, mas igualmente sensível.
A incapacidade de reverter a decisão por meio da negociação direta reforçou críticas à condução da política externa. Nos bastidores, interlocutores do governo admitem preocupação com o endurecimento do discurso americano, especialmente após declarações do secretário de Estado, Marco Rubio, que responsabilizou Lula pelo agravamento da relação bilateral e elevou o tom ideológico do confronto entre Washington e Brasília.
A guerra da narrativa
O episódio evidencia que a disputa entre Brasil e Estados Unidos já não se limita às mesas de negociação. Ela também se transformou em combustível para a campanha presidencial de 2026.
Se antes a guerra era tarifária, agora também é uma disputa de narrativas. E, nesse terreno, tanto o Planalto quanto a oposição descobriram que a conta política pode chegar antes mesmo da conta econômica.