A relação entre Giorgia Meloni e Donald Trump, que começou cercada de sintonia política e promessas de uma parceria estratégica, terminou em uma troca pública de críticas, insultos e divergências sobre segurança, comércio e diplomacia. O rompimento, consolidado entre o fim de fevereiro e julho deste ano, obrigou a primeira-ministra italiana a rever sua estratégia internacional justamente quando o país já começa a olhar para as eleições parlamentares de 2027.
Da parceria política ao rompimento
Durante anos, Meloni enxergou Trump como uma referência da direita conservadora. Ainda em 2019, quando seu partido tinha pouca expressão, ela participou da CPAC, principal evento do movimento conservador nos Estados Unidos, onde o então presidente americano era a grande estrela.
Quando Trump voltou à Casa Branca, em novembro de 2024, o cenário parecia favorável para uma aproximação inédita entre Roma e Washington. Meloni, que completava dois anos como primeira-ministra, era vista como uma das líderes europeias mais alinhadas ao republicano.
Essa proximidade ficou evidente logo no início de 2025. Ela foi a única chefe de governo da Europa presente na posse de Trump e, poucos meses depois, foi recebida na Casa Branca. Na ocasião, o presidente americano fez elogios públicos, chamou Meloni de “uma das verdadeiras líderes mundiais” e exaltou o trabalho desenvolvido pelo governo italiano.
Naquele momento, tudo indicava que Itália e Estados Unidos viveriam uma relação privilegiada.
Mas a lua de mel durou pouco.
A guerra contra o Irã mudou tudo
Ao longo de 2025, começaram a surgir diferenças sobre tarifas comerciais e o aumento dos investimentos em defesa. Ainda assim, a relação seguia funcionando.
A ruptura definitiva veio no fim de fevereiro de 2026, quando Estados Unidos e Israel lançaram ataques contra o Irã.
O conflito provocou uma disparada no preço da energia, afetando diretamente a economia italiana, ainda em recuperação. Diante desse cenário, Meloni optou por um caminho diferente do esperado por Trump.
A primeira-ministra recusou o pedido para que bases militares localizadas na Sicília fossem utilizadas pelas forças americanas e passou a defender uma posição mais cautelosa, tentando equilibrar o compromisso da Itália com seus aliados e a necessidade de proteger consumidores e empresas do país.
A decisão irritou Washington e marcou o início do afastamento entre os dois governos.
O papa entrou na crise
Enquanto a guerra se intensificava, outro fator aumentou a tensão.
Do Vaticano, o papa Leão XIV passou a fazer sucessivos apelos pelo fim do conflito. As manifestações desagradaram Trump, que respondeu com ataques públicos ao pontífice.
Na Itália, onde a figura do papa tem enorme peso político e simbólico, as declarações foram recebidas com desconforto.
Meloni evitou romper imediatamente com o presidente americano, mas considerou inaceitáveis as críticas dirigidas ao líder da Igreja Católica. A partir desse momento, ficou claro que manter um alinhamento automático com Trump poderia custar caro dentro do próprio eleitorado italiano.
Um referendo acendeu o sinal de alerta
Pouco depois da crise internacional, Meloni enfrentou dificuldades também no cenário interno.
Um referendo sobre mudanças no Judiciário, visto pelo governo como uma forma de fortalecer sua agenda política, acabou sendo interpretado como um recado de parte dos eleitores.
Para muitos analistas, o resultado refletiu um desgaste crescente da primeira-ministra.
“O referendo foi entendido como uma manifestação de descontentamento em relação a uma líder considerada muito próxima de Trump”, avalia Leo Goretti, especialista em política externa italiana e vice-reitor da Rome Business School.
Segundo ele, o governo percebeu que a proximidade com o presidente americano poderia se transformar em um problema eleitoral.
A briga saiu dos bastidores
Depois disso, Meloni começou a mudar o discurso.
Ela endureceu as críticas às tarifas impostas pelos Estados Unidos, reduziu a sintonia com Washington e voltou a se aproximar das principais lideranças da União Europeia.
Trump reagiu como costuma fazer.
Durante a reunião do G7, realizada na França, em junho de 2026, afirmou que Meloni teria implorado por uma fotografia ao seu lado.
A primeira-ministra respondeu imediatamente nas redes sociais, classificando a declaração como uma história inventada.
Dias depois, antes da cúpula da Otan, Trump voltou a atacá-la, sugerindo que precisaria se proteger da suposta perseguição promovida pela líder italiana.
O que antes era uma aliança ideológica transformou-se em uma disputa pública acompanhada por governos de todo o mundo.
A tentativa de mudar a narrativa
Questionada sobre o rompimento, Meloni afirmou que não se arrepende da aproximação inicial.
Segundo ela, o relacionamento com Trump fazia parte de uma estratégia baseada na defesa da unidade do Ocidente, e não de um alinhamento incondicional.
A oposição, porém, tem outra leitura.
A líder do Partido Democrático, Elly Schlein, afirma que a primeira-ministra cometeu uma série de erros na política externa e acusa o governo de ter apostado excessivamente na relação com Washington, isolando a Itália em momentos decisivos.
Para Leo Goretti, a chegada de Trump também reduziu a presença internacional de Meloni.
Na avaliação do especialista, a Itália precisa manter relações fortes tanto com os Estados Unidos quanto com a União Europeia, além de preservar uma política externa baseada no multilateralismo, justamente os pilares que passaram a ser tensionados durante o governo republicano.
A nova estratégia da Itália
Com a relação com Trump praticamente encerrada, Roma começou a redesenhar sua política externa.
O governo passou a investir em uma aproximação maior com países considerados potências médias, como Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Catar, além de reforçar os laços com parceiros tradicionais, entre eles Canadá, Austrália e Japão.
O objetivo é diversificar alianças, reduzir a dependência da política americana e garantir maior segurança para o abastecimento de energia e o comércio internacional.
Ao mesmo tempo, a decisão de impedir o uso de bases militares italianas na campanha contra o Irã também ampliou a margem de negociação da Itália com países do Norte da África e do Oriente Médio.
Pressão cresce antes das eleições
No cenário interno, Meloni também enfrenta novos desafios.
Além da oposição liderada por Elly Schlein, ela passou a disputar espaço com o partido do ex-general Roberto Vannacci, que tenta conquistar o eleitorado da direita com um discurso ainda mais duro sobre imigração e soberania nacional.
Até 2027, a estratégia da primeira-ministra deverá seguir em duas frentes.
No exterior, buscar uma imagem de liderança mais independente e pragmática.
No cenário doméstico, aumentar o tom crítico contra a burocracia da União Europeia, defendendo maior autonomia italiana em temas como imigração, política fiscal e energia.
Especialistas acreditam que Meloni deverá alternar discursos mais duros para agradar sua base eleitoral com negociações discretas em Bruxelas para garantir recursos e maior flexibilidade nas regras do bloco.
O futuro político de Meloni
O Vaticano também permanece como peça importante nesse novo tabuleiro político.
Ao defender o papa Leão XIV sem romper imediatamente com Washington, Meloni tenta preservar o apoio de setores católicos que continuam sendo fundamentais para sua sustentação política.
Agora, a grande aposta do governo é transformar a Itália em uma ponte entre a União Europeia, o Mediterrâneo e países do Oriente Médio e da Ásia, reduzindo a dependência da Casa Branca.
Se essa estratégia ajudar a estabilizar a economia e evitar novos choques no setor de energia, Meloni poderá apresentar o rompimento com Trump como um gesto de independência política.
Mas, se o país continuar enfrentando dificuldades econômicas e perda de influência internacional, a mudança de rumo poderá ser lembrada como um erro de cálculo de uma líder que apostou em um aliado e precisou se afastar dele quando o custo político ficou alto.
Com as eleições parlamentares de 2027 no horizonte, a dúvida permanece: Meloni conseguirá transformar essa crise em uma oportunidade para reposicionar a Itália no cenário internacional ou a ruptura com Trump ficará marcada apenas como mais um capítulo da instabilidade política que há décadas acompanha o país?