Os Estados Unidos voltaram a bombardear alvos ligados ao Irã neste domingo (19), aprofundando a escalada militar que já mobiliza governos, forças armadas e mercados em todo o mundo. A nova ofensiva acontece poucos dias depois da morte de dois militares americanos em um ataque na Jordânia e do colapso de um cessar-fogo provisório que havia sido firmado há cerca de um mês.
Na prática, a trégua durou apenas algumas semanas. Desde então, Washington acelerou operações aéreas e navais contra instalações iranianas, enquanto Teerã passou a ampliar os contra-ataques contra bases e aliados dos EUA na região.
Morte de militares americanos mudou o tom da crise
O governo americano trata o ataque na Jordânia como um ponto de virada. Segundo o Comando Central dos EUA, os bombardeios atuais têm como alvo estruturas militares, radares de vigilância costeira e sistemas de defesa aérea do Irã, inclusive em áreas próximas ao Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais importantes do planeta.
Em comunicado, os militares americanos afirmaram que as operações buscam reduzir a capacidade do Irã de ameaçar a navegação comercial e punir rapidamente forças da Guarda Revolucionária responsáveis pelos ataques contra tropas americanas.
A morte dos dois soldados, e o desaparecimento de um terceiro militar, aumentou a pressão política em Washington por uma resposta mais dura. O secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, afirmou que o episódio “fortalece a determinação” do país.
Oito ataques seguidos
Com a ofensiva deste domingo, os EUA chegam à oitava operação consecutiva contra alvos iranianos desde o rompimento do cessar-fogo. O foco declarado são instalações militares, sistemas de vigilância costeira e estruturas de defesa antiaérea.
O Comando Central informou que a ação mais recente atingiu equipamentos ligados à vigilância marítima e à defesa aérea iraniana.
Do lado iraniano, autoridades tentam minimizar os danos. Agências estatais relataram ataques próximos a Sirik e Shadegan, no sul do país, e disseram que não houve vítimas nem destruição significativa. A Organização de Energia Atômica do Irã também denunciou um bombardeio contra um canteiro de usina nuclear em construção em Darkhovin, mas sem detalhar quando o ataque teria ocorrido.
Irã responde com drones e mísseis
Enquanto os EUA intensificam os bombardeios, o Irã passou a ampliar as ações militares em outras frentes. A televisão estatal iraniana informou que drones do país atacaram equipamentos e posições americanas no Kuwait, incluindo o acampamento de Al-Adiri e a Base Aérea Ali Al Salem.
Kuwait e Bahrein disseram ter interceptado mísseis e drones iranianos entre sábado e domingo, sem registro de vítimas. Embora Teerã não tenha reivindicado oficialmente essas ações, os episódios aumentam a sensação de que o conflito pode se espalhar pelo Golfo.
A Jordânia, onde ocorreu o ataque que matou os militares americanos, também vive momentos de tensão. A embaixada dos EUA informou a evacuação do aeroporto internacional e do porto de Aqaba por causa de uma “ameaça específica e crível”, mas autoridades jordanianas negaram ter ordenado qualquer evacuação.
Disputa chega ao Estreito de Ormuz
A crise agora se desloca rapidamente para o mar. Os Estados Unidos afirmam estar impondo um bloqueio naval ao Irã, enquanto Teerã acusa embarcações de violarem regras de navegação no Estreito de Ormuz.
A Guarda Revolucionária informou neste domingo que quatro embarcações tentaram cruzar o estreito por uma “rota insegura”, supostamente com apoio americano. Segundo os iranianos, duas recuaram após advertências e outras duas se envolveram em um “acidente”, sem mais detalhes.
A falta de informações independentes aumenta o temor de um incidente que afete diretamente o fluxo de petróleo.
Petróleo e economia mundial no radar
O Estreito de Ormuz é responsável pela passagem de cerca de um quinto da oferta global de petróleo. Por isso, cada novo ataque na região repercute imediatamente nos mercados de energia.
Companhias de navegação e seguradoras tendem a elevar custos e exigir rotas alternativas quando o risco militar aumenta, o que pode encarecer o transporte internacional e pressionar preços de combustíveis e inflação em diversos países.
Segundo o Ministério da Saúde do Irã, 50 pessoas morreram e mais de 500 ficaram feridas em ataques americanos nas últimas três semanas. O Comando Central dos EUA diz que 16 militares americanos morreram desde o início da guerra e mais de 420 ficaram feridos.
Diplomacia perde espaço
O colapso do cessar-fogo firmado há apenas um mês expôs o esgotamento das tentativas de mediação entre Washington e Teerã. O acordo pretendia reduzir ataques diretos e indiretos e abrir espaço para negociações mais amplas, mas fracassou rapidamente.
Para países árabes aliados dos EUA, como Jordânia, Kuwait e Bahrein, a escalada aumenta a exposição a ataques de mísseis e drones iranianos ou de grupos alinhados a Teerã.
No Irã, a combinação de bombardeios, bloqueio naval e insegurança no Estreito de Ormuz ameaça a economia do país e pode afetar receitas, subsídios e programas sociais.
Governos europeus e asiáticos acompanham a crise com preocupação e discutem possíveis iniciativas de mediação, mas a intensidade atual dos combates reduz o espaço político para um novo cessar-fogo.
O que pode acontecer agora?
Sem sinais claros de recuo, o cenário mais provável é de continuidade das ofensivas americanas e dos contra-ataques iranianos nas próximas semanas. O risco de um confronto regional mais amplo permanece elevado, especialmente se houver novos ataques contra bases americanas ou interrupções no tráfego marítimo do Golfo.
A principal dúvida entre diplomatas e militares é se ainda existe margem para reconstruir um canal mínimo de diálogo entre EUA e Irã ou se o Oriente Médio entrou em uma fase de confronto prolongado, com impacto crescente sobre a segurança internacional e a economia mundial.
ENTENDA O CONTEXTO
A atual escalada começou após um ataque na Jordânia que matou dois militares americanos. Os EUA responderam com uma série de bombardeios contra alvos iranianos, e o Irã passou a ampliar ataques com drones e mísseis contra bases e aliados americanos no Golfo. O rompimento de um cessar-fogo provisório eliminou o principal canal de contenção da crise. Agora, o foco da disputa também se desloca para o Estreito de Ormuz, rota estratégica para o petróleo mundial, aumentando o risco de impactos econômicos globais.