Armínio Fraga alerta risco real de recessão no Brasil em 2024

Economista destaca sinais preocupantes para a economia brasileira e critica políticas fiscais atuais.
Redação NC News
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O economista Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central, afirma que o Brasil está “à beira de uma recessão” e responsabiliza a política econômica do governo Lula pelo avanço do risco fiscal. Em entrevista à revista Veja, ele aponta inadimplência crescente das famílias, dificuldades de empresas e do próprio governo para rolar dívidas como sinais claros de deterioração.

Alerta em meio a endividamento e gasto em alta

As declarações caem em um momento em que famílias, empresas e o Tesouro convivem com juros elevados e crédito mais escasso. Para Fraga, esse cenário deixa a economia vulnerável a uma virada brusca, com queda de atividade, mais desemprego e piora rápida das contas públicas.

O economista critica o aumento do gasto público e o enfraquecimento das regras fiscais em vigor. Ele sustenta que a expansão da despesa “não vem acompanhada de contrapartidas em eficiência e responsabilidade”, o que, segundo ele, alimenta a desconfiança de investidores e encarece o financiamento do governo.

Na entrevista, Fraga liga o quadro atual à estratégia política do Planalto. Ao comentar as promessas e medidas de impacto orçamentário em ano eleitoral, ele afirma que o país corre o risco de repetir erros recentes, em que “pacotes de bondades” ajudaram a garantir votos, mas deixaram uma herança pesada para a economia.

“Lula chutou o pau da barraca logo de cara”

Armínio Fraga presidiu o Banco Central entre 1999 e 2003, em meio à transição do Plano Real e à consolidação do regime de metas de inflação. Hoje, fala como economista de mercado, mas também como figura histórica da política econômica recente.

Ao avaliar o terceiro mandato de Lula, ele é duro: “Lula chutou o pau da barraca logo de cara”, diz, ao criticar a guinada nos gastos e o que vê como desrespeito às próprias regras do arcabouço fiscal. Para ele, o governo insiste em se apresentar como austero, mas pratica o oposto.

Fraga cita um dado emblemático de longo prazo: “Há quem diga que o Brasil já tem austeridade fiscal demais, mas que austeridade é essa que fez o gasto público sair de um quarto do PIB para um terço nos últimos quarenta anos? Não houve austeridade nenhuma”. Na avaliação dele, o país vive um ciclo em que a despesa cresce sem reformas que sustentem esse movimento.

Dívida encurtada e crédito travado

O economista também acende o alerta para o modo como o governo vem se financiando. Com juros altos e incerteza maior, o Tesouro emite títulos com prazos mais curtos, movimento que, para Fraga, indica aperto nas condições de crédito soberano.

“Muitas empresas que se endividaram utilizaram instrumentos de securitização e hoje têm dificuldades de rolar suas dívidas. O próprio governo está encurtando o perfil de sua dívida, o que é um sinal claríssimo de que a situação está difícil”, afirma. Ele reconhece que o custo de emissões longas, corrigidas pela inflação mais um prêmio elevado, é politicamente indigesto, mas adverte: ao focar em prazos curtos, o governo “aumenta o risco de sua própria rolagem”.

A leitura de Fraga é de que a economia se aproxima de uma zona de perigo. Famílias pressionadas por juros altos e queda de renda atrasam contas. Empresas mais alavancadas enfrentam portas fechadas no mercado de capitais. O setor público, por sua vez, empilha dívida de vencimento mais imediato. Em combinação, esses fatores, segundo ele, formam o prelúdio de recessões.

Paralelo incômodo com o governo Dilma

Armínio Fraga traça um paralelo direto entre o momento atual e o ciclo que antecede a crise fiscal do governo Dilma Rousseff. “Sei que é difícil para o presidente aceitar, mas há uma certa semelhança com o governo de Dilma Rousseff, quando foi feito um grande esforço para vencer a eleição, estourando as contas de uma maneira espetacular. Não tem como tapar o sol com a peneira”, afirma.

Na visão dele, a combinação de gastos elevados, contabilidade criativa e resistência a ajustes costuma terminar em choque de confiança. Quando os investidores duvidam da trajetória da dívida, exigem juros maiores ou fogem dos títulos públicos e de ativos brasileiros. O resultado, diz, é câmbio mais volátil, crédito mais caro e retração de investimentos produtivos.

Fraga se define como “órfão” do PSDB clássico, legenda que, em sua leitura, defendia responsabilidade fiscal e reformas estruturais. Ao lamentar a falta de um centro político articulado em torno de uma agenda de equilíbrio de contas, ele sugere que o debate econômico fica preso a disputas imediatistas, nas quais prevalecem soluções fáceis e de curto prazo.

Quem paga a conta e o que vem pela frente

O alerta do ex-presidente do Banco Central mira não apenas o governo, mas também o custo social de uma eventual recessão. Se o cenário traçado por ele se confirmar, a primeira vítima tende a ser o mercado de trabalho. Com atividade em desaceleração, empresas adiam contratações, cortam turnos, suspendem projetos e, em casos mais extremos, demitem.

Famílias já endividadas sentirão a pressão. A inadimplência, que Fraga aponta como um dos sinais de alerta, tende a subir ainda mais em períodos de queda de renda e crédito restrito. Setores dependentes de financiamento – como construção, indústria de bens duráveis e varejo de maior valor agregado – podem ser especialmente atingidos.

Do lado do Estado, um quadro de baixa confiança e juros altos limita a capacidade de reação. Em momentos de crise, governos costumam gastar mais para sustentar a atividade, mas, segundo Fraga, o Brasil já entra nesse possível ciclo com a dívida pressionada e pouco espaço para políticas anticíclicas robustas.

A Gazeta do Povo informa que procurou a equipe de Lula para comentar as críticas e o diagnóstico de Armínio Fraga, mas não obteve resposta até o momento. O silêncio do governo deixa em aberto a reação oficial às comparações com o governo Dilma e às acusações de que o Planalto estaria repetindo a fórmula de “estourar as contas” em nome da reeleição.

O próximo movimento dependerá tanto da política quanto do mercado. Se o governo sinalizar compromisso mais firme com metas fiscais e reformas, pode reduzir a tensão e alongar prazos da dívida. Caso insista em ampliar gastos sem um plano crível de ajuste, o país pode ver acelerar o cenário descrito por Fraga: crédito mais caro, investimento em queda e um ciclo recessivo difícil de reverter.

Quem é Armínio Fraga?

Armínio Fraga é economista, conhecido por ter presidido o Banco Central do Brasil e por atuar no mercado financeiro e no debate sobre política econômica.

Quando Armínio Fraga foi presidente do Banco Central?

Armínio Fraga comandou o Banco Central entre 1999 e 2003, período marcado pela consolidação do Plano Real e pelo uso de metas de inflação.

Qual a opinião de Armínio Fraga sobre a situação econômica atual do Brasil?

Ele avalia que o Brasil está à beira de uma recessão, com inadimplência em alta, dificuldades para rolar dívidas e deterioração das contas públicas.

Qual foi a crítica de Armínio Fraga ao governo Lula?

Fraga afirma que “Lula chutou o pau da barraca”, aumentou gastos, enfraqueceu a disciplina fiscal e repete o padrão de estourar contas em ano eleitoral.

Qual a relação de Armínio Fraga com o Plano Real?

Ele integra a geração de economistas ligada à implementação e à consolidação do Plano Real, tendo conduzido o Banco Central na fase de estabilização da moeda.


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