Na casa da jovem Ana, de 10 anos, em Campo Grande, o silêncio deixado pela perda da avó deu lugar a uma companhia inusitada: um galo preto chamado Alcione. O que começou como a adoção de um simples pintinho se transformou em uma poderosa história sobre saúde mental, luto e afeto na infância.
A chegada do animal aconteceu após Ana se encantar por ele na mini fazenda de sua escola. Com a permissão da mãe, a veterinária Luana da Silva, o filhote foi levado para casa. Fã de música popular brasileira, a garota batizou a então “fêmea” de Alcione. Semanas depois, um sonoro cocoricó na cozinha revelou a verdadeira identidade do bicho.
Um aliado improvável na dor
O galo chegou à família no período mais difícil da vida de Ana: logo após a morte de sua avó, dona Adélia, com quem a menina tinha uma ligação muito forte e de quem herdou o amor incondicional pelos bichos.
A rotina de atenção exigida pelo filhote — entre alimentação, limpeza e brincadeiras — manteve a garota em movimento, preenchendo o vazio da ausência com um novo propósito. O vínculo cresceu de forma rápida, e o afeto pelo animal funcionou como uma ponte para que Ana voltasse a sorrir e a lidar com a saudade.
Laudo oficial e rotina de “rei”
A melhora da menina foi tão expressiva que, hoje, Alcione é reconhecido oficialmente por laudo médico como o animal de suporte emocional de Ana. Ele foge de todos os estereótipos de uma ave de quintal e possui uma rotina adaptada e curiosa:
- Dorme ao lado da garota e a segue por todos os cômodos da casa;
- Anda de carro e já foi até tema de festa de aniversário com bolo e decoração;
- Comunica-se bicando a tela do celular quando está com sede;
- Possui um cardápio exigente, com preferência por iogurte de morango e sementes sem casca.
A convivência com os outros animais da casa — os gatos Bigodita e Morcego — é totalmente pacífica. A mãe da garota se diverte com o comportamento folgado do mascote, que exige atenção constante e age quase como um cão de colo.
“No começo, pensei que ele fosse me ajudar com os insetos, comer baratas, besouros… me enganei! Hoje, ele é o rei e principal atração dessa casa. Nós somos apenas meros mortais”, brinca a mãe, Luana.
Além de arrancar sorrisos, o caso de Ana e Alcione joga luz sobre um debate importante para especialistas: a força do vínculo terapêutico infantil. A história prova que o apoio emocional em momentos críticos pode surgir das espécies mais inesperadas, ajudando a redesenhar a forma como enxergamos o tratamento da saúde mental das crianças.