“Direita está totalmente dividida”, diz Palocci sobre eleições 2026

Ex-ministro Antônio Palocci comenta a disputa política enquanto seu ex-advogado lidera a campanha de Flávio Bolsonaro.
Redação NC News
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Antônio Palocci reaparece no debate político ao analisar a disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, enquanto seu ex-advogado Tracy Reinaldet assume o comando jurídico da campanha do senador.

Palocci volta ao centro do debate ao falar da direita

O ex-ministro da Fazenda retorna à cena em conversa com economistas dos Estados Unidos, revelada em entrevista à jornalista Bela Megale, da Globo. Na fala, Palocci aponta a divisão interna como principal fragilidade da direita na corrida presidencial.

Segundo ele, o campo conservador até acumula apoio social amplo, mas corre o risco de desperdiçar essa vantagem por falta de unidade. “A chance de a direita perder a eleição embute o fato de ela estar totalmente dividida”, afirma, ao analisar o embate entre Lula e Flávio Bolsonaro.

Palocci diz que investidores estrangeiros tentam entender por que a direita, considerada majoritária, não transforma esse capital político em vitórias claras nas urnas. O ex-ministro sustenta que, sem uma candidatura única ou um projeto minimamente coeso, o voto conservador tende a se diluir.

Lula 4, polarização e o peso do cenário internacional

Embora tenha rompido com o PT e se tornado um dos principais desafetos de Lula após a Operação Lava Jato, Palocci faz uma leitura positiva de um eventual quarto mandato do petista. Ele argumenta que o presidente governa agora sem a “pressão da reeleição”.

“Será a hora de Lula escrever o epílogo de sua história política. Não terá a pressão da reeleição, que prejudica qualquer governo… Lula é muito intuitivo, jamais despreza os fatos”, diz o ex-ministro, ao projetar um governo mais focado em legado que em sobrevivência eleitoral.

Palocci avalia que Lula já percebe o novo tabuleiro global, que ele resume ao embate “Trump x Xi Jinping, EUA x China”. O ex-ministro sustenta que o Brasil pode tirar proveito dessa disputa, apoiado em três frentes: agronegócio competitivo, transição energética e recursos estratégicos, como terras raras, além do avanço em inteligência artificial.

Questionado sobre a hipótese de Lula vencer no primeiro turno, Palocci descarta o cenário. “Esse é um desejo antigo do PT. Mas ficará na lista dos sonhos”, afirma. A leitura reforça a expectativa de uma eleição longa, disputada voto a voto, sob forte polarização.

Fiscal, pobres e as duas “Faria Limas”

No diagnóstico do ex-ministro, a radicalização da campanha distorce o debate sobre as contas públicas. “Numa eleição tão polarizada, o debate das grandes questões fica totalmente prejudicado… Há diversas maneiras de resolver o fiscal sem mirar nos poucos direitos dos mais pobres”, afirma.

Palocci tenta se posicionar como alguém capaz de conversar com o mercado e com a base popular de Lula. Ele diz que o presidente sabe que o ajuste fiscal é inadiável, mas que não precisa recair sobre quem já tem pouco. Aposta em soluções graduais, ancoradas em crescimento econômico e melhor gestão de gastos.

Ao falar diretamente ao mercado financeiro, personificado na Avenida Faria Lima, em São Paulo, Palocci desenha dois perfis de investidores. “Existem duas Faria Limas: a daqueles que vivem nas planilhas e reclamam o tempo todo porque não têm nenhuma noção da complexidade do país e da vida do povo, e a daqueles que já entenderam isso e estão caminhando muito bem, desviando das pedras e se protegendo das chuvas. E ganhando muito.”

Na parte final da conversa, ao ser questionado se Lula pode perder a eleição, ele recorre à ironia e à música. “Sempre pode. ‘La política é móbile’. Mas como dizia o grande (cantor e compositor) Accioly Neto: Amanhã pode acontecer muita coisa, inclusive nada.” A frase resume a aposta de Palocci na imprevisibilidade do voto, mesmo em cenário aparentemente polarizado.

Ex-advogado de Palocci assume jurídico de Flávio Bolsonaro

Enquanto o ex-ministro reaparece como analista, seu ex-advogado entra em cena em outra trincheira da mesma disputa. Tracy Joseph Reinaldet dos Santos, criminalista especializado em direito penal eleitoral e radicado em Curitiba, assume a coordenação jurídica da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro, do PL.

Reinaldet ganhou relevância nacional ao representar Palocci na Lava Jato, ocasião em que formalizou a delação premiada do ex-ministro em 2018. Depois, passa a atuar para Jair Bolsonaro a partir de 2022, com procuração do ex-presidente. Agora, cruza de vez os caminhos ao comandar a estratégia jurídica do filho, candidato ao Planalto.

Caberá a ele centralizar todos os temas legais da campanha de Flávio Bolsonaro. A função inclui responder a ações na Justiça Eleitoral, orientar diretórios estaduais, revisar discursos e materiais de propaganda e preparar a defesa para eventuais contestações do registro de candidatura ou de inserções de rádio e TV.

A escolha de um advogado com histórico na Lava Jato e trânsito entre Palocci e o bolsonarismo indica o grau de tensão esperado nos tribunais. Em uma eleição marcada por narrativas de perseguição e vitimização de ambos os lados, o flanco jurídico deixa de ser retaguarda e vira frente de batalha.

Eleições se judicializam enquanto Palocci testa nova narrativa

A presença de Palocci no noticiário reacende resistências dentro do PT, onde seu nome ainda é associado à delação e ao rompimento traumático com Lula. Ao mesmo tempo, sua análise crítica da direita e elogiosa ao atual presidente oferece munição para o discurso governista em busca de eleitores moderados.

No campo bolsonarista, a contratação de Reinaldet sinaliza uma campanha preparada para travar guerras simultâneas nas ruas e nos tribunais. A expectativa é de aumento de ações por propaganda irregular, fake news, abuso de poder econômico e contestação de pesquisas, em um ambiente em que cada voto pode ser disputado na Justiça.

O silêncio do advogado, que não responde a pedidos de entrevista, alimenta especulações sobre o desenho final dessa estratégia. As próximas semanas tendem a ser marcadas por movimentos cruzados: Palocci ajustando sua narrativa sobre Lula e a direita; Flávio Bolsonaro blindando juridicamente sua campanha; e o eleitor tentando decifrar o que é análise sincera e o que é peça de um jogo maior.

Em um país acostumado a decisões eleitorais influenciadas por tribunais, delações e operações policiais, o reencontro entre Palocci e seu ex-advogado, agora em lados formais distintos, ajuda a explicar por que o direito eleitoral se torna peça central do tabuleiro político. A disputa nas urnas caminha para dividir espaço, voto a voto, com a disputa nas cortes.

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