Decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, descreve o uso de dois postos de combustíveis ligados à família do senador Weverton Rocha para movimentações milionárias suspeitas de lavagem de dinheiro. Segundo o documento da PET 16.435, as contas dos postos alimentam a compra de propriedades rurais e o repasse de valores a empresas do grupo familiar.
Postos em “situação crítica” e repasses de R$ 7 milhões
O foco da apuração recai sobre os postos PETRO SÃO FRANCISCO COMBUSTÍVEIS LTDA. e PETRO SÃO JOSÉ LTDA. – FILIAL, ambos no Maranhão. De acordo com a decisão, a Polícia Federal aponta que “suas contas teriam sido utilizadas para aquisição de propriedades rurais, pagamento de terrenos e maquinário agrícola, bem como para realização de repasses à DJ AGROPECUÁRIA e à ROCHA HOLDING”.
A representação policial, acolhida por Mendonça para autorizar medidas de busca e apreensão e quebra de sigilo de dados telefônicos, identifica a filha do senador, Anna Catarina Viana Rocha, como peça central do arranjo financeiro. “Anna Catarina é citada como responsável pela gestão operacional e financeira dos dois postos”, registra o documento.
Segundo a PET 16.435, Anna teria encaminhado contratos de mútuo logo após duas transferências expressivas saírem da PETRO SÃO FRANCISCO: R$ 5.000.000,00 para a DJ AGROPECUÁRIA COMÉRCIO E PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS LTDA. e R$ 2.000.000,00 para a ROCHA HOLDING PATRIMONIAL LTDA. A PF vê nesses contratos uma possível tentativa de dar aparência de legalidade a valores cuja origem ainda é apurada.
Depósitos em espécie e transferências à conta do senador
A decisão destaca um episódio específico, usado pelos investigadores como exemplo da dinâmica suspeita. “Anna teria organizado depósitos em dinheiro nas contas dos postos em 24/4/2023, seguidos de transferências à conta pessoal de Weverton”, diz o texto. A menção a depósitos em espécie, fracionados e rapidamente redistribuídos, reforça a hipótese de ocultação de origem dos recursos.
Apesar do fluxo milionário, as mensagens analisadas pela PF mostram um discurso interno de crise. Os postos são descritos em diálogos como empreendimentos em “situação financeira crítica”, “apesar da circulação milionária”, conforme transcreve a decisão. Para os investigadores, essa contradição indica que as bombas de combustível podem servir, em tese, mais como canal financeiro do que como negócio lucrativo.
O inquérito nasce de elementos extraídos do aparelho celular atribuído a Weverton, cruzados com dados da Operação Sem Desconto. A PF trabalha com a hipótese de que o dinheiro que alimenta esse circuito venha de corrupção passiva ligada a descontos associativos sobre benefícios do INSS. A decisão enfatiza que essa é uma linha de investigação ainda em apuração, não um crime comprovado.
Rede familiar e empresas rurais no centro da apuração
No organograma traçado pela PF e reproduzido por Mendonça, a família do senador aparece distribuída por diferentes frentes de atuação. Anna cuidaria da “gestão operacional e financeira” dos postos; a esposa, Samya, surgiria vinculada à ROCHA HOLDING; uma irmã administraria propriedades rurais e empresas de radiodifusão; outra irmã seria possível canal de passagem de recursos. O senador é descrito como o beneficiário político e econômico em potencial.
A DJ AGROPECUÁRIA e a ROCHA HOLDING ocupam posição relevante nessa malha financeira. Segundo a decisão, a partir de determinado momento os fluxos entre os núcleos da suposta lavagem passam a circular “de forma mais visível” por contas dessas empresas. O caminho do dinheiro, porém, não se dá em linha reta. Valores entram pelas contas dos postos, migram para as empresas rurais ou patrimoniais, são compensados com contratos de mútuo e, em alguns casos, retornam a contas pessoais.
A autoridade policial descreve uma “dinâmica financeira não linear”, em que recursos são fragmentados e deslocados por várias pessoas jurídicas, contas familiares, operadores financeiros, pagamentos a terceiros e bens registrados em nome de interpostas pessoas. Em tese, esse padrão dificultaria o rastreamento da origem e do beneficiário final.
Do caixa dos postos a fazendas e maquinário
Segundo o documento, os investigadores veem nos dois postos uma espécie de ponto de partida para a conversão de dinheiro vivo em patrimônio rural. As contas bancárias das empresas de combustíveis aparecem associadas a pagamentos de terrenos, propriedades rurais e maquinário agrícola, além de repasses para a DJ AGROPECUÁRIA e a ROCHA HOLDING.
A decisão relata que, a partir da análise de mensagens e extratos, a PF identifica uma rotina de circulação de numerário em espécie, pagamentos de despesas pessoais e familiares, investimentos em imóveis urbanos e rurais, veículos, aeronaves e empresas de comunicação. Parte desses ativos ficaria em nome de terceiros ou de empresas ligadas a aliados políticos e a operadores financeiros.
De acordo com Mendonça, o material apresentado indica, em tese, a existência de uma estrutura complexa que combina negócios de combustíveis, fazendas, holdings patrimoniais e contratos públicos municipais. A representação cita também empresas da construção civil e agentes políticos locais, mas o conteúdo detalhado dessas frentes não aparece integralmente no trecho divulgado.
Medidas do STF, limites da decisão e próximos passos
A PF pediu, e o ministro autorizou, medidas de busca e apreensão e afastamento de sigilo de dados telefônicos de investigados ligados a esse circuito financeiro, inclusive operadores que não pertencem ao núcleo familiar de Weverton. A decisão restringe o uso de informações, destaca o caráter provisório da análise e ressalta que não há juízo de culpa neste momento.
No trecho divulgado, Mendonça insiste na separação entre hipóteses investigativas e prova consolidada. O ministro afirma que o exame é preliminar e serve apenas para verificar se há elementos suficientes para aprofundar as diligências. O documento lembra que a investigação mira uma possível organização de lavagem de capitais, mas que todos os citados permanecem sob a presunção de inocência.
O gabinete do senador não se manifesta na decisão. As defesas de Weverton Rocha, de Anna Catarina e das empresas citadas ainda não têm posição registrada no processo analisado. A reportagem busca contato com os envolvidos. O espaço segue aberto para manifestações de todos os mencionados, que poderão apresentar sua versão dos fatos.
Nos próximos dias, a PF deve se debruçar sobre os extratos completos das contas dos postos, da DJ AGROPECUÁRIA e da ROCHA HOLDING, além de contratos de mútuo e registros imobiliários de fazendas e terrenos. O avanço da apuração pode ampliar o foco para contratos municipais, empresas de comunicação e outras pessoas jurídicas citadas na representação, com potencial de impacto jurídico e político para o senador e seu entorno, caso as suspeitas se confirmem em fases posteriores do processo penal.
O que a decisão do STF diz sobre os postos ligados a Weverton?
A decisão da PET 16.435, assinada por André Mendonça, afirma que as contas dos postos PETRO SÃO FRANCISCO e PETRO SÃO JOSÉ teriam sido usadas para comprar propriedades rurais, pagar terrenos e maquinário agrícola e repassar R$ 5 milhões à DJ AGROPECUÁRIA e R$ 2 milhões à ROCHA HOLDING, em contexto de suspeita de lavagem.
Qual é o papel de Anna Catarina na investigação sobre lavagem?
O documento do STF aponta que Anna Catarina Viana Rocha exerce a gestão operacional e financeira dos postos PETRO SÃO FRANCISCO e PETRO SÃO JOSÉ e que ela encaminhou contratos de mútuo após transferências de R$ 5 milhões e R$ 2 milhões, além de ter organizado depósitos em espécie seguidos de transferências à conta pessoal do senador, em episódio citado pela PF como exemplo da dinâmica suspeita.