Cerca de 40% dos adultos brasileiros vivem hoje com alterações no colesterol, e apenas 25% estão em tratamento. O desequilíbrio, quase sempre silencioso, aumenta o risco de infarto e AVC e acende o alerta entre cardiologistas e nutrólogos.
Problema silencioso, impacto enorme
Os novos dados divulgados pela Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (SOCESP) reforçam um cenário preocupante para a saúde pública. Em números simples, de cada quatro brasileiros com colesterol alterado, só um recebe acompanhamento adequado.
Doenças cardiovasculares seguem na liderança das causas de morte no país. O colesterol alto funciona como combustível para esse quadro, sobretudo quando o LDL, o chamado “colesterol ruim”, permanece elevado por anos sem diagnóstico.
O nutrólogo Durval Ribas Filho, presidente da Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN), lembra que demonizar a substância é um erro. “O colesterol não é apenas um vilão. É um lipídio essencial para o funcionamento correto do organismo. Mas, quando atinge níveis elevados, pode se tornar um problema sério de saúde. Precisamos dele, porém em equilíbrio”, afirma.
Para que serve o colesterol e quando ele começa a fazer mal
No corpo, o colesterol participa da estrutura das células do coração, intestino, músculos, pele, fígado, nervos e cérebro. Também ajuda a produzir hormônios e ácidos biliares, fundamentais para a digestão das gorduras. Em outras palavras, ninguém vive sem colesterol.
O problema aparece quando a balança interna se desequilibra. O HDL, conhecido como “bom colesterol”, remove o excesso de gordura da circulação e protege os vasos. O LDL faz o oposto: favorece o acúmulo de placas de gordura nas artérias, processo que pode levar ao entupimento de vasos no coração e no cérebro.
Essas placas crescem lentamente, sem dor e sem sinais externos. Em algum momento, podem se romper e formar coágulos que bloqueiam a passagem do sangue. O resultado é o que se vê nos prontos-socorros: infartos e acidentes vasculares cerebrais muitas vezes em pessoas que se julgavam saudáveis.
Genética, estilo de vida e o peso dos hábitos
O desequilíbrio do colesterol tem múltiplas causas. Fatores genéticos, como a hipercolesterolemia familiar, fazem com que o organismo produza mais colesterol do que o normal, mesmo em pessoas magras e ativas. Nesses casos, o uso de remédios costuma ser inevitável.
Há ainda o peso do estilo de vida. Alimentação rica em gordura saturada e trans, excesso de açúcar e ultraprocessados, sedentarismo, obesidade e envelhecimento empurram as taxas para cima. Doenças como diabetes e hipotireoidismo também desorganizam esse equilíbrio.
Parte do colesterol vem da comida, mas o fígado responde por boa parte da produção interna. Quando a dieta é desequilibrada e o corpo acumula gordura, a fábrica hepática tende a trabalhar em ritmo acelerado, o que aumenta o LDL circulante.
Diagnóstico simples, controle possível
Apesar da gravidade das consequências, identificar o problema é simples. Um exame de sangue incluído no check-up de rotina revela os valores de colesterol total, HDL, LDL e VLDL, além de triglicérides. Não há dor, nem preparo complexo, nem internação.
Durval Ribas Filho insiste na importância do diagnóstico precoce. “Quanto mais cedo se detecta que as taxas não são as recomendadas, maiores são as chances de tratamento”, diz o médico. O desafio, segundo ele, é fazer o brasileiro chegar ao laboratório antes do primeiro evento cardiovascular.
Quando o resultado aponta risco, o tratamento começa pelo terreno mais acessível: mudanças no estilo de vida. A recomendação inclui aumentar o consumo de fibras solúveis — presentes em aveia, frutas e legumes —, além de verduras, legumes em geral e gorduras chamadas “boas”, como azeite de oliva extravirgem, abacate, nozes, castanhas e sementes de chia e linhaça.
O papel da alimentação, do exercício e dos remédios
Peixes ricos em ômega 3, como salmão, atum e sardinha, entram na lista de aliados. Eles ajudam a melhorar o perfil de gorduras no sangue e a reduzir inflamações associadas à formação de placas nas artérias. Em paralelo, médicos recomendam cortar ou reduzir ao máximo embutidos, frituras, fast-food, biscoitos recheados, salgadinhos e outros ultraprocessados.
Controlar açúcar e carboidratos refinados também é essencial. O excesso desses alimentos favorece o ganho de peso e aumenta a produção de triglicérides e VLDL, outra fração de gordura ligada ao risco cardiovascular.
Atividade física regular entra como segundo pilar do tratamento. Caminhadas rápidas, corridas leves, bicicleta e musculação ajudam a reduzir a gordura abdominal, melhorar a sensibilidade à insulina e elevar os níveis de HDL. A combinação de dieta ajustada e exercícios costuma ser suficiente para muitas pessoas com elevação leve a moderada.
Quando as mudanças de hábito não bastam, especialmente em pacientes com forte componente genético ou com comorbidades, o médico avalia o uso de remédios. “A dieta é um dos fatores modificáveis, considerando que a hipercolesterolemia é multifatorial. Quando apenas a mudança de hábitos não é suficiente, especialmente nos casos de predisposição genética ou outras comorbidades, o uso de medicamentos pode ser indicado, após uma criteriosa avaliação clínica e exames laboratoriais”, ressalta Ribas Filho.
Desafio para o sistema de saúde e próximos passos
O retrato atual — com 40% dos adultos com colesterol alterado e só 25% tratados — pressiona tanto o SUS quanto a rede privada. Cada infarto evitável que chega à UTI representa um custo alto, além do impacto na vida do paciente e da família.
Especialistas veem nessa estatística um chamado para reforçar políticas públicas de rastreamento, com inclusão de dosagens de colesterol em consultas de rotina e campanhas de conscientização mais agressivas. A integração entre atenção básica, nutrologia e cardiologia é apontada como caminho para melhorar os índices de controle.
O cenário também movimenta setores ligados à alimentação saudável, academias e indústria farmacêutica, que tendem a ver aumento na procura por serviços e produtos voltados ao controle do colesterol. A principal aposta, porém, continua na combinação de diagnóstico precoce e informação clara.
Se o país conseguir ampliar o acesso a exames, orientar melhor a população e garantir tratamento contínuo, especialistas projetam queda progressiva nas mortes por causas cardiovasculares nas próximas décadas. Se nada mudar, a conta de internações, cirurgias e reabilitações tende a crescer, alongando a fila de um sistema de saúde já sobrecarregado.