Por que cada vez mais adultos estão aprendendo a gostar da própria companhia?

Em uma rotina marcada por excesso de estímulos, redes sociais e compromissos, aproveitar a própria companhia se tornou uma habilidade cada vez mais valorizada
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Em meio à correria do dia a dia, ao barulho das cidades, às cobranças profissionais e à necessidade constante de estar conectado, encontrar um momento de silêncio e estar consigo mesmo pode parecer simples. Mas, para muitos adultos, esse ainda é um grande desafio.

Durante muito tempo, ficar sozinho foi associado a tristeza, abandono ou falta de companhia. Hoje, porém, especialistas apontam para uma nova forma de enxergar esse comportamento: a solitude, capacidade de aproveitar a própria presença de maneira saudável.

Diferente da solidão, que costuma estar ligada ao sofrimento e à sensação de desconexão, a solitude representa uma escolha. É aquele momento em que a pessoa decide desacelerar, refletir, descansar ou realizar atividades sem depender da companhia de outras pessoas.

Solitude não significa isolamento, explica psicóloga
Para entender essa diferença, a psicóloga Ana Luísa Bolívar explica que a solitude está relacionada a uma experiência positiva de estar sozinho.

“A solitude é aquele momento em que você escolhe ficar sozinho, curtindo sua própria companhia, mas de uma forma positiva, prazerosa, onde não te traz uma sensação de abandono nem de sofrimento. Pelo contrário, é aquele momento onde você consegue exercer a sua plena companhia, como se fosse um tempo de qualidade com você mesmo.”, explica

Segundo a especialista, esses momentos podem acontecer de diferentes formas, dependendo dos interesses de cada pessoa. Ler um livro, praticar uma atividade física, caminhar ou simplesmente aproveitar alguns minutos de silêncio são exemplos de situações em que o indivíduo consegue se reconectar consigo mesmo.

A psicóloga destaca ainda que a solitude pode trazer benefícios para o bem-estar, já que permite uma pausa em uma rotina marcada por excesso de informações e estímulos.

Aprender a fazer coisas sozinho foi uma transformação para Franciele

A técnica de enfermagem Franciele Ramos, de 23 anos, viveu essa mudança na prática. Há cerca de um ano, após o fim de um relacionamento, ela começou a enxergar os momentos sozinha de uma maneira diferente.

Antes, a falta de companhia era um motivo para deixar algumas atividades de lado. Hoje, ela conta que aprendeu a aproveitar esses momentos e passou a fazer programas que antes dependiam da presença de outras pessoas.

“Gosto de fazer tudo sozinha: de ir ao cinema, à academia, que inclusive aprendi a ir sem os amigos, pois quando eles não iam eu deixava de ir e não gostava de ir só. Agora faço sozinha, gosto muito.”, conta

Franciele Ramos, de 23 anos, aprendeu a aproveitar a própria companhia após uma mudança de comportamento e passou a realizar atividades sozinha, como ir ao cinema e à academia. | Foto: Pedro Corsini/NC News

Para Franciele, esse processo mudou a forma como ela se relaciona consigo mesma. A técnica de enfermagem acredita que depender sempre da presença de alguém pode impedir que a pessoa valorize a própria companhia.

“Isso me mudou muito. Depender de outras pessoas para fazer as coisas que a gente gosta acaba que a gente não valoriza a nossa própria companhia. Foi um processo até aprender a gostar da sua companhia.”, afirma

 

Vida adulta aumenta o desafio de encontrar tempo para si

Na fase adulta, esse processo pode ser ainda mais difícil. A rotina costuma ser preenchida por trabalho, responsabilidades, compromissos familiares e preocupações financeiras.

Além disso, existe uma pressão social para estar sempre acompanhado e disponível. As redes sociais, por exemplo, mostram constantemente momentos de encontros, viagens e eventos, criando a sensação de que estar sozinho significa estar perdendo alguma coisa.

Mas, para especialistas, a solitude não representa afastamento das pessoas. Pelo contrário: quando existe equilíbrio, ela pode ajudar no autoconhecimento e até melhorar a qualidade das relações.

Isso acontece porque uma pessoa que aprende a estar bem consigo mesma deixa de buscar no outro a única fonte de satisfação ou preenchimento emocional.

 

Quando ficar sozinho deixa de ser saudável?

Apesar dos benefícios, a psicóloga alerta que é importante observar quando o tempo sozinho deixa de ser uma escolha e passa a representar isolamento.

Ana Luísa Bolívar explica que a solidão está relacionada a outro sentimento: a falta de conexão e pertencimento.

“Já a solidão é aquele sentimento onde te traz angústia, onde te traz uma certa desconexão do mundo, das pessoas. Quem já teve aquele momento onde estava rodeado de pessoas e, mesmo assim, estava se sentindo sozinho?”, explica

Segundo ela, o alerta acontece quando a pessoa começa a evitar encontros, relações e situações importantes como uma forma de fugir de sentimentos difíceis.

“A gente precisa tomar muito cuidado com isso, porque a gente começa a se isolar de pessoas, de momentos que são importantes para a gente também. Porque nós somos seres sociais.”, complementa

A especialista reforça que o equilíbrio é fundamental: ter momentos sozinho pode ser saudável, mas manter vínculos e conexões também faz parte das necessidades humanas.

 

Aprender a própria companhia é uma construção

A solitude não acontece de uma hora para outra. Para muitas pessoas, aprender a aproveitar a própria companhia é um processo que envolve autoconhecimento e mudança de comportamento.

Pequenas atitudes, como fazer uma refeição sozinho, caminhar sem distrações, praticar um hobby ou reservar alguns minutos longe do celular, podem ser formas de começar.

Em uma sociedade que parece estar sempre com pressa, conseguir estar presente consigo mesmo se tornou mais do que um momento de descanso: virou uma forma de cuidado. Afinal, estar sozinho não significa estar vazio , muitas vezes, pode ser uma oportunidade de se reconectar.

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