A vereadora paulistana Zoe Martínez (PL), candidata à Câmara dos Deputados, vê seu patrimônio declarado triplicar em dois anos e enfrenta agora a saída de dois auxiliares centrais. O aumento de 226,16% nos bens, que chegam a R$ 2.108.170,56, provoca desgaste político em pleno período eleitoral.
O caso ganha força em São Paulo depois que o crescimento patrimonial vem a público e, na sequência, o chefe de gabinete Lucas Silveira e a coordenadora Giovanna Najar pedem demissão. As exonerações aparecem no Diário Oficial dias após a divulgação dos números, alimentando a percepção de crise interna no gabinete.
Salto de R$ 646 mil para R$ 2,1 milhões
Os dados registrados na Justiça Eleitoral mostram que, dois anos atrás, Zoe declara patrimônio de R$ 646.360,78. O valor reúne basicamente depósitos em conta corrente, aplicações no Nubank e pequenas quantias em contas no exterior, cerca de R$ 6,8 mil em dólar e R$ 35 em euro.
Na declaração mais recente, o cenário muda de escala e de perfil. O total informado à Justiça chega a R$ 2.108.170,56, um acréscimo de R$ 1,46 milhão no período. O salto corresponde a um crescimento de 226,16% no patrimônio da parlamentar, hoje figura conhecida da direita paulistana e aposta do PL para ampliar a bancada federal.
O núcleo do novo patrimônio está em aplicações financeiras de maior sofisticação. Fundos de Longo Prazo e Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC) concentram R$ 1.701.751,67. Fundos de investimento imobiliário somam R$ 909.534,13. Aplicações em renda fixa acrescentam R$ 289.202,79. O restante aparece distribuído em depósitos bancários e quotas de capital.
Explicações, silêncio e demissões em série
Diante da repercussão, Zoe atribui o aumento à sua vida empresarial e à rentabilidade dos investimentos. Afirma que os recursos têm origem em dividendos e rendimentos de aplicações vinculadas à empresa da qual é sócia. “Sou sócia da empresa desde antes da eleição [de 2024]”, diz a vereadora. “Esse valor é uma aplicação financeira e também gera rendimentos.”
A parlamentar atua no ramo de comunicação e marketing, atividade que mantém antes de conquistar o mandato na Câmara Municipal. A ligação com o setor ajuda a explicar, segundo ela, a capacidade de investir montantes mais altos em produtos financeiros que exigem maior fôlego de capital.
O discurso, porém, não encerra as dúvidas. Portais que revelam o crescimento patrimonial informam ter buscado Zoe em diferentes canais, sem resposta até a publicação das reportagens. O silêncio prolongado abre espaço para interpretações concorrentes e torna o caso combustível político imediato para adversários.
Enquanto o debate se espalha, a engrenagem interna da vereadora se desfaz em pontos sensíveis. O chefe de gabinete Lucas Silveira e a coordenadora Giovanna Najar, dois dos nomes mais próximos na rotina política de Zoe, deixam os cargos logo depois da repercussão. As demissões são formalizadas no Diário Oficial do município, o que confirma a ruptura em momento estratégico da corrida eleitoral.
Transparência em xeque em plena campanha
O impacto do caso vai além da matemática dos investimentos. Em um ambiente em que a fiscalização sobre bens de agentes públicos se torna tema central, um aumento de 226,16% em tão pouco tempo produz ruído na percepção de transparência e de ética. A vereadora, naturalizada brasileira e em ascensão desde a eleição municipal, passa a ser cobrada por explicações detalhadas sobre origem e tributação dos recursos.
Órgãos de controle tendem a olhar declarações dessa escala com lupa, especialmente durante campanhas. Mesmo quando o dinheiro tem origem lícita, o padrão de crescimento e a escolha de instrumentos financeiros sofisticados costumam acionar alertas. O patrimônio pulverizado em FIDC, fundos imobiliários e renda fixa entra no radar de quem acompanha movimentações de agentes públicos.
No front político, o episódio se converte em munição. Rivais podem pressionar por investigações formais, audiências e pedidos de esclarecimento, buscando associar o nome de Zoe a suspeitas de enriquecimento meteórico. A própria ausência de resposta direta à imprensa já é explorada como sinal de desconforto e falta de disposição para abrir números e contratos.
A base da vereadora, por outro lado, tenta enquadrar o debate como consequência natural de sucesso empresarial e capacidade de investimento. A trajetória em comunicação e marketing é apresentada como justificativa para rendimentos elevados em pouco tempo. A narrativa aposta em um eleitorado que vê com bons olhos políticos com histórico de atuação no setor privado.
Risco de desgaste prolongado
O desfecho ainda é incerto, mas o roteiro tende a se alongar. A saída abrupta do chefe de gabinete e da coordenadora impõe à campanha a necessidade de remontar a estrutura em meio à exposição pública. Sem uma equipe orgânica e alinhada, a resposta à crise se torna mais lenta e fragmentada.
Se Zoe não apresentar documentos e dados específicos que sustentem a versão de rendimentos de mercado — contratos da empresa, comprovantes de dividendos, históricos de aplicações — o tema pode dominar a disputa, eclipsando propostas e atuação parlamentar. Também pode respingar em figuras do PL, forçadas a defender ou se distanciar da candidata em um cenário ainda em formação.
Os próximos dias devem trazer novos movimentos de investigação e de exploração política do caso. A maneira como a vereadora organiza a comunicação, recompõe a equipe e decide se expor ou não ao escrutínio público define o tamanho do desgaste. Em um ano eleitoral marcado por desconfiança e cobrança por integridade, a capacidade de explicar R$ 1,46 milhão de crescimento patrimonial pode ser decisiva para o futuro de Zoe Martínez em Brasília.
Zoe Martínez pode ser investigada pelo aumento de patrimônio?
O aumento de 226,16% no patrimônio declarado por Zoe Martínez, que salta de R$ 646.360,78 para R$ 2.108.170,56 em dois anos, pode motivar análises de rotina de órgãos de controle e ser aproveitado por adversários para pedir apurações formais, mas até agora o que existe é pressão política e questionamento público.
O que significam os fundos e aplicações usados por Zoe Martínez?
Os R$ 1.701.751,67 de Zoe Martínez em Fundos de Longo Prazo e FIDC, somados a R$ 909.534,13 em fundos imobiliários e R$ 289.202,79 em renda fixa, representam investimentos de maior risco e potencial rendimento, usados por investidores para turbinar ganhos, mas também exigem capital elevado e acompanhamento técnico constante.