Um temporal com ventos que chegam a 120,4 km/h atinge o Rio Grande do Sul, deixa uma pessoa morta, provoca um tornado e derruba estruturas públicas e privadas em várias regiões.
A população encara destelhamentos, queda de árvores, interrupção de serviços essenciais e impacto direto na mobilidade. As equipes de Defesa Civil, prefeituras e forças de segurança correm para conter os danos, enquanto os ventos seguem fortes mesmo com o afastamento da principal linha de instabilidade.
Temporal extremo derruba árvores, telhados e transporte público
O cenário mais grave se concentra em Porto Alegre e na Região Metropolitana, mas o rastro de destruição se espalha por diversas cidades. A frente fria associada a um ciclone extratropical no oceano forma uma linha de tempestades que cruza o estado com força incomum.
Na Capital, a maior rajada registrada até as 21h atinge 120,4 km/h. Em Canoas, os ventos chegam a 113 km/h; no Parque Eldorado, a 107 km/h; em Arroio Grande, a 106,4 km/h; em Charqueadas, a 104 km/h; e em Pelotas, a 88,9 km/h. As rajadas arrancam telhados de casas e prédios, derrubam tapumes de colégios e espalham destroços por ruas e avenidas.
O sistema de trens urbanos Trensurb, que liga Porto Alegre a cidades da Região Metropolitana, é paralisado por segurança após a queda de uma árvore sobre a rede aérea de energia ao norte da Estação Sapucaia, em Sapucaia do Sul. Com isso, todas as estações são fechadas. Os trens só voltam a circular às 5h, quando, segundo a empresa, “os trens voltaram a circular normalmente em todas as estações de Mercado a Novo Hamburgo”. Passageiros que dependem do serviço enfrentam madrugada de incerteza, lotação em ônibus e longos deslocamentos alternativos.
Tornado em Pedro Osório e morte em rodovia de Montenegro
No Sul do estado, a violência do temporal ganha outra face. A Defesa Civil confirma a formação de um tornado na zona rural de Pedro Osório, na localidade de Matarazzo. O fenômeno destelha casas, danifica estruturas e espalha destroços pelo campo, em mais um episódio de tempo severo em intervalo curto de dias na região.
Em Montenegro, no Vale do Caí, o impacto é trágico. Um motociclista de 33 anos morre por volta das 22h, quando uma árvore cai sobre ele na RS-124, na altura do quilômetro 41. A cena expõe a vulnerabilidade de quem circula em rodovias cercadas por vegetação durante rajadas tão intensas. O Comando de Polícia Rodoviária da Brigada Militar atende a ocorrência e controla o trânsito na área, onde outras árvores também ameaçam ceder.
O setor de segurança pública também sofre com os ventos. Em Pelotas, parte do muro do pátio do presídio desaba sob a força das rajadas. Escombros se espalham pela área externa, exigindo trabalho imediato de remoção por equipes da prefeitura e da Defesa Civil. Em nota, a Polícia Penal afirma que “a segurança do local foi reforçada pelas forças policiais e uma equipe de engenharia da Secretaria de Sistemas Penal e Socioeducativo será enviada ao local para avaliar a situação”. O reforço de efetivo tenta impedir qualquer brecha para fugas enquanto técnicos medem o risco de novos colapsos.
Água comprometida em 43 bairros e 121 pessoas em abrigos
Em Porto Alegre, o temporal não afeta apenas telhados e fachadas. A falta de energia em estações do Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae) compromete o abastecimento em ao menos 43 bairros, que registram falta d’água ou baixa pressão. A interrupção leva moradores a estocar o que resta em caixas d’água e improvisar rotinas enquanto a energia não é restabelecida e os sistemas não voltam a operar plenamente.
O levantamento da Defesa Civil estadual aponta que, até as 21h, ao menos 121 pessoas estão fora de casa e acolhidas em abrigos em oito municípios. Os registros incluem Cachoeira do Sul, Uruguaiana, Lajeado, Encantado, São Borja, Alvorada e Nova Santa Rita. O órgão resume o quadro ao informar que “ao menos 121 pessoas estavam fora de casa e acolhidas em abrigos no estado até 21h de quinta-feira”. As famílias relatam perdas de móveis, eletrodomésticos e estruturas inteiras comprometidas por quedas de árvores e destelhamentos.
O boletim da Defesa Civil contabiliza apenas os casos já oficializados. Até as 18h, oito municípios reportam danos, com alagamentos, prejuízos em áreas rurais e estruturas públicas comprometidas. Em Quaraí, no Oeste, o volume de chuva chama atenção: 40,2 milímetros em 12 horas e outros 40,2 milímetros nas últimas seis horas, marcando um dos maiores acumulados do estado no período e saturando o solo, o que aumenta o risco de novos deslizamentos e quedas de árvores.
Alertas vermelhos e ventos ainda persistentes
O avanço da frente fria e a formação do ciclone extratropical pegam o estado sob atenção meteorológica, mas a intensidade das rajadas surpreende moradores em várias cidades. Na Região Metropolitana, por volta de 20h15, celulares disparam um alerta vermelho da Defesa Civil, avisando sobre tempestades com ventos acima de 90 km/h. O recado chega quando muitos já presenciam janelas vibrando, postes balançando e árvores cedendo.
Passado o núcleo mais intenso da tempestade, o risco ainda não termina. A Defesa Civil reforça que “a linha de instabilidade já se afasta do estado, mas mantém ventos persistentes”. As rajadas seguem capazes de derrubar galhos, agravar danos em estruturas fragilizadas e provocar novas interrupções de energia. Equipes de prefeituras e do estado percorrem bairros para desobstruir ruas, retirar árvores caídas e isolar áreas com risco de queda.
Em Esteio, uma estrutura montada no Parque de Exposições Assis Brasil, onde ocorre a Expointer, desaba em meio aos ventos. Técnicos avaliam a resistência de outros equipamentos no local, que recebe grande fluxo de público em períodos de feira. Em outras cidades, como Lajeado, Encantado e São Borja, áreas rurais registram perdas em galpões, estufas e cercas, o que afeta diretamente produtores que já lidam com sucessivos eventos extremos.
A tendência para as próximas horas é de gradual redução da chuva forte, mas com manutenção de rajadas em boa parte do território gaúcho. O governo contabiliza estragos e calcula o custo de reconstrução de telhados, muros e redes danificadas. Municípios avaliam decretar situação de emergência, enquanto cresce a demanda por assistência social, recomposição de moradias e revisão de protocolos de segurança para rodovias e áreas de grande circulação em dias de vento extremo.
As autoridades recomendam que a população evite deslocamentos desnecessários, especialmente em vias cercadas por árvores altas, e mantenha atenção aos novos avisos da Defesa Civil. A morte na RS-124 e o colapso de estruturas como o muro do presídio de Pelotas funcionam como alerta duro sobre o peso dos ventos no cotidiano gaúcho. A expectativa é que, com o ar mais frio avançando, o padrão de tempestades severas recue, mas a memória dos estragos recentes deve pressionar por investimentos em prevenção, manejo de arborização urbana e adaptação da infraestrutura a um clima cada vez mais instável.