A corrida eleitoral de 2026 não está movimentando apenas os bastidores de Brasília. Cada vez mais celebridades conhecidas da televisão, da música, do esporte e das redes sociais decidiram trocar os holofotes pela política e disputar votos dos brasileiros.
Entre os nomes que já anunciaram filiação partidária ou pré-candidatura estão apresentadores de TV, cantores sertanejos e gospel, influenciadores digitais, socialites e ex-jogadores de futebol. Alguns pretendem concorrer a vagas na Câmara dos Deputados, enquanto outros miram assembleias legislativas estaduais.
O que muitas vezes parece apenas uma aventura pessoal para ganhar holofotes é, na verdade, uma das estratégias financeiras e políticas pelos grandes partidos brasileiros. O verdadeiro e principal objetivo é usar a popularidade gigantesca do famoso para resolver um problema matemático das legendas: atingir o chamado “quociente eleitoral”.
Silvia Abravanel e Rachel Sheherazade entram na disputa
O PSD reuniu alguns dos nomes mais conhecidos da lista. A apresentadora Silvia Abravanel, filha de Silvio Santos, filiou-se à legenda e deve disputar uma cadeira na Câmara Federal. Ela afirma que pretende defender pautas ligadas às pessoas com deficiência e ao combate à obesidade.

Outro nome do partido é a jornalista Rachel Sheherazade, que oficializou sua pré-candidatura a deputada federal por São Paulo após mais de duas décadas de atuação na imprensa.
Sikêra e Val Marchiori são candidatos pelo Republicanos
O Republicanos confirmou a pré-candidatura da empresária e socialite Val Marchiori para deputada federal. Segundo ela, a decisão de ingressar na política foi influenciada pela experiência de enfrentar um câncer.

Pelo mesmo partido, o apresentador Sikêra Júnior anunciou que deixará a televisão para concorrer a uma vaga na Câmara dos Deputados por São Paulo.
Ex-jogadores e artistas também apostam na política
No Rio de Janeiro, o PSDB atraiu três personalidades conhecidas nacionalmente. A atriz e influenciadora Antonia Fontenelle anunciou pré-candidatura a deputada federal. Já a cantora gospel Cristina Mel se filiou ao partido, mas ainda não confirmou se disputará um cargo em outubro.

No MDB, o ex-atacante Luís Fabiano, ídolo do São Paulo Futebol Clube, também ingressou na política. Apesar da filiação, o partido ainda não definiu se ele disputará algum cargo.
“Caneta Azul” e Inês Brasil querem votos
Entre os nomes mais populares das redes sociais está o cantor Manoel Gomes, conhecido pelo hit viral Caneta Azul. Ele lançou pré-candidatura a deputado federal pelo Avante.
Nos últimos dias, Manoel voltou aos holofotes após conceder entrevista em que afirmou que aprenderia sobre a atividade parlamentar ao longo da trajetória política.
Outra figura conhecida da internet que decidiu entrar na disputa é Inês Brasil. A cantora e influenciadora filiou-se ao PSB e confirmou que pretende concorrer ao cargo de deputada estadual no Rio de Janeiro.
Outro reforço tucano é o ex-jogador Edmundo, ídolo do Vasco da Gama, que declarou interesse em representar pautas ligadas ao clube e ao esporte.

Como funciona a fábrica de “puxadores de voto”
No Brasil, a eleição para os cargos de deputados e vereadores funciona pelo sistema proporcional. Isso significa que, quando você digita o número na urna eletrônica, o seu voto vai primeiramente para o partido (ou federação), e não apenas para o candidato escolhido.
Segundo o cientista político Leandro Consentino, professor do Insper, a prática está diretamente ligada ao funcionamento do sistema proporcional adotado nas eleições para deputado federal, deputado estadual e vereador.
“Nesse sistema, o eleitor vota primeiro no partido ou federação. A quantidade de votos conquistada define quantas cadeiras aquela legenda terá direito”, explica.
É exatamente nesse cenário que as celebridades entram como uma verdadeira “tábua de salvação” para as siglas. Entenda os três pilares que sustentam essa estratégia implacável:
- O Puxador de Votos: O famoso recebe uma avalanche de votos que ajuda o partido a atingir ou multiplicar o número mínimo exigido pela Justiça Eleitoral para garantir o direito a cadeiras no parlamento.
- O Efeito Carona: Ao receber centenas de milhares de votos além do que realmente precisa para se eleger, o famoso não senta sozinho no plenário. A sobra dos seus votos “arrasta” para o poder outros candidatos do mesmo partido que tiveram votações inexpressivas e que seriam totalmente desconhecidos do grande público.
- Campanha de baixo custo: Construir o nome e a imagem de um candidato tradicional partindo do zero custa cifras milionárias em marqueteiros, cabos eleitorais e tempo de televisão. Uma celebridade, por outro lado, já entrega visibilidade gratuita, engajamento orgânico massivo nas redes sociais e atenção imediata da imprensa nacional.
O alvo fácil: o voto de protesto e a simpatia
Para os caciques políticos, o famoso é a isca para conseguir votos para o partido.. Com seus rostos conhecidos e carismáticos, eles conseguem atrair a atenção de eleitores desiludidos com o sistema corrupto ou daqueles que sequer acompanham o noticiário diário.
O formato ajuda a capturar a atenção de pessoas que decidem o voto na urna baseadas apenas em afinidade, simpatia ou protesto cego. Eles entregam uma vitória fácil para o partido sem a necessidade de debater propostas complexas com a população.
Consentino destaca que a estratégia não é novidade e pode envolver artistas, esportistas, influenciadores ou políticos já consolidados.
O especialista pondera, no entanto, que cabe ao eleitor analisar os motivos de sua escolha.
“A questão é entender se essas pessoas são vistas como representantes legítimos dos interesses do eleitor ou se recebem votos apenas por serem conhecidas. Essa reflexão é importante no momento da decisão”, conclui.