Corrida dos Bichos: filme brasileiro com Rodrigo Santoro e Anitta estreia no Prime Video

Longa dirigido por Fernando Meirelles imagina um Rio de Janeiro devastado e transforma o antigo jogo do bicho em uma disputa mortal
Redação NC News
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O filme brasileiro “Corrida dos Bichos” estreia nesta sexta-feira no Prime Video e leva ao streaming um Rio de Janeiro em ruínas, governado por uma elite que transforma o tradicional jogo do bicho em competição mortal. A produção usa a distopia para mirar diretamente desigualdade, violência e a espetacularização do sofrimento no Brasil de hoje.

Dirigido por Fernando Meirelles, Ernesto Solis e Rodrigo Pesavento, o longa combina ação e drama para questionar os limites do entretenimento e expor como estruturas de poder se mantêm ao custo de vidas descartáveis.

Rio em ruínas, jogo do bicho mortal e elite em transe

Na trama, o Rio de Janeiro surge como uma cidade colapsada, onde a corrida inspirada no jogo do bicho vira o centro da economia, do entretenimento e do controle social. Corredores representam animais, apostadores milionários formam uma cúpula intocável e a população assiste ao espetáculo de sangue como se fosse única chance de ascensão.

Bruno Gagliasso interpreta Leon, um vilão que simboliza essa elite intoxicada por poder. Ele é um dos jogadores que comandam os “bichos” e sonha com lugar fixo na cúpula que decide cada disputa. O ator admite o impacto do que vê em cena. “É assustador”, resume, ao reconhecer a proximidade entre a ficção e um futuro que soa perigosamente próximo.

João Guilherme vive Jonas, jovem corredor que enxerga na prova uma saída da miséria. Ele funciona como espelho de milhares de brasileiros que apostam tudo em uma chance improvável. “Ver essa dinâmica do entretenimento e do limite do entretenimento, que é pauta o tempo todo, é muito interessante. Qual o limite do entretenimento?”, provoca o ator, ao lembrar que a elite do filme sente prazer explícito na exploração.

Personagens feridos que ajudam a manter o sistema

Isis Valverde interpreta Nadine, talvez a personagem mais ambígua do longa. Ela ascende naquele mundo hostil, mas paga com o corpo e com a consciência, sofrendo abusos e, no fim, ajudando a manter o mesmo sistema que a destruiu. É a face mais desconfortável da distopia: a vítima que vira engrenagem.

A atriz destaca como a lógica da violência atravessa a personagem e transborda para fora da tela. “Quantas vezes vemos pessoas reproduzindo estruturas que um dia também as machucaram? Não porque sejam más, mas porque esse sistema acaba naturalizando determinadas violências e fazendo parecer que esse é o único caminho possível para conquistar espaço”, afirma.

O roteiro insiste nesse ciclo. Quem apanha, se tiver oportunidade, passa a bater. Quem sofre humilhação, um dia se vinga imitando o opressor. Em vez de conforto, “Corrida dos Bichos” oferece ao espectador um espelho pouco lisonjeiro de um país acostumado a transformar tragédia em consumo.

Alegoria do presente e civilização ameaçada

O conceito do filme nasce da cabeça de Ernesto Solis há quase 20 anos, quando a ideia de uma cidade dominada por um jogo letal parecia exercício de imaginação. Ele hoje assume surpresa com a atualidade do próprio pesadelo. “Quando criei a história há quase 20 anos não queria fazer uma previsão do futuro, queria fazer uma alegoria do nosso presente. Mas não imaginei que faria uma alegoria tão do presente 20 anos depois”, diz o diretor e roteirista.

Fernando Meirelles enxerga na tela um retrato ampliado de uma sociedade em desintegração, que não se limita ao Brasil. Declaradamente pessimista, ele não suaviza o diagnóstico. “A nossa civilização está altamente ameaçada. Esse filme não fala diretamente sobre isso, mas também fala. Fala de uma sociedade que se desmonta e vira uma outra coisa que não sabemos o que vai ser”, afirma.

A distopia, aqui, não é exercício de fuga. A ruína do Rio dialoga com crises concretas de violência urbana, desigualdade extrema e descrença institucional. O que muda é o volume. O filme só aumenta o som de fenômenos que já estão em curso, de bailes transmitidos ao vivo a reality shows que exploram o sofrimento como entretenimento.

Três olhares para dar conta da ação e do drama

“Corrida dos Bichos” é também um projeto industrialmente ambicioso. A divisão da direção em três frentes responde a um cronograma apertado e ao tamanho da empreitada. Solis assina o conceito e a visão geral da história, Pesavento concentra-se nas sequências de ação e Meirelles assume as cenas mais intimistas, focadas em relações de poder e dilemas morais.

Meirelles descreve a engrenagem do set como uma corrida paralela à do enredo. “Foi muito bom ter três diretores, porque é um projeto muito grande. A gente teve um tempo pequeno de preparação e um tempo muito pequeno para filmar. Enquanto um estava filmando, o outro podia estar preparando o dia seguinte. Se não fossem três diretores, talvez a gente não conseguisse ter cumprido o cronograma”, conta.

O resultado surge em cenas de ação que mantêm o espectador orientado no espaço, com dublês, corredores e atletas desenhando a geografia da arena, sem perder de vista os rostos marcados pelo medo. A câmera corre, mas não abandona as consequências de cada queda, cada corpo descartado.

Impacto cultural e debate sobre limites do entretenimento

A estreia no Prime Video coloca “Corrida dos Bichos” diretamente no centro do consumo audiovisual brasileiro, com potencial de alcançar milhões de espectadores já neste fim de semana. Jovens, fãs de ação e público interessado em temas sociais encontram no filme um híbrido raro: entretenimento pensado para incomodar.

Na prática, o longa pressiona a indústria a revisar escolhas. A aposta num Rio devastado e na transformação de um jogo popular em corrida letal amplia a crítica à espetacularização da violência e à naturalização da desigualdade. O filme mostra, sem rodeios, uma elite que se diverte enquanto pessoas literalmente correm e morrem para seu deleite.

Setores que evitam tratar de desigualdade e abuso tendem a reagir mal a esse confronto direto. O desconforto, no entanto, é parte do projeto. Ao deformar o Brasil em chave distópica, a produção convida o público a enxergar o que muitas vezes se tornou paisagem: a normalização do sofrimento diário, transformado em dado estatístico ou produto cultural.

Próximos passos: festivais, debates e possível continuação

As primeiras reações à estreia indicam interesse pela mistura de espetáculo e crítica social, impulsionado pelo elenco de peso e pela assinatura de Meirelles ao lado de Solis e Pesavento. A expectativa é que o filme circule por festivais e mesas de debate, tanto em cursos de cinema quanto em áreas como sociologia e comunicação.

A obra já nasce candidata a estudo de caso sobre como o audiovisual trata a violência no Brasil, e pode influenciar futuros projetos a encarar temas espinhosos sem abrir mão da tensão narrativa. Se o público corresponder com audiência robusta no streaming, a equipe sinaliza disposição para continuar a história e expandir o universo de “Corrida dos Bichos”.

Ernesto Solis admite vontade de levar a corrida para outros cenários do país, inclusive Salvador, e garante que ainda há muito a ser contado nesse mundo em escombros. O desempenho do filme nos próximos dias definirá se essa distopia brasileira ganha fôlego para novas voltas na pista.

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