Lula e Flávio Bolsonaro chegam ao início oficial da campanha presidencial com seus palanques montados nos oito maiores colégios eleitorais do país, que somam mais de 100 milhões de eleitores. A disputa se concentra sobretudo no Sudeste, onde o petista tenta crescer, e no Nordeste, alvo da ofensiva do senador do PL.
Sudeste vira prioridade de Lula; Tarcísio ancora Flávio em SP
Em São Paulo, maior colégio eleitoral do país, com 31,2 milhões de eleitores, Lula aposta em uma frente ampla comandada por Fernando Haddad na disputa pelo governo estadual. O ex-ministro da Fazenda tenta levar a eleição ao segundo turno e arrastar votos adicionais para o presidente no estado historicamente difícil para o PT.
A chapa petista paulista se apoia em ex-ministros conhecidos do eleitor. Márcio França, do PSB, é candidato a vice-governador. Simone Tebet, também do PSB, e Marina Silva, da Rede, disputam o Senado. A campanha de Lula vende esse arranjo como continuidade da coligação que o levou de volta ao Planalto. No lançamento da candidatura de Haddad, o presidente atacou os adversários ao afirmar que a campanha da oposição será baseada em mentiras porque não possuem “biografia”.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, entra em São Paulo sustentado pelo governador Tarcísio de Freitas, favorito à reeleição e principal ativo político do bolsonarismo no estado. O palanque do senador conta ainda com Guilherme Derrite, ex-secretário de Segurança Pública, e André de Paula, do PL, na disputa pelo Senado. Tarcísio declara apoio explícito ao presidenciável, mas o Republicanos permanece neutro na eleição nacional, o que limita o alcance formal dessa aliança.
Minas sem palanque ideal expõe fragilidade dos dois lados
Em Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral, com 16,7 milhões de eleitores, nenhum dos dois candidatos consegue montar o cenário dos sonhos. Lula tenta primeiro atrair Rodrigo Pacheco, do PSB, para disputar o governo, de olho no eleitor de centro, mas o ex-presidente do Senado decide deixar a política. Na sequência, o PT mineiro testa o nome do empresário Josué Gomes da Silva, sem sucesso.
Diante dos impasses, os petistas lançam o ex-prefeito de Belo Horizonte Patrus Ananias ao governo, com Jarbas Soares Júnior, do PSB, como vice. Para o Senado, o partido escala a ex-prefeita de Contagem, Marília Campos. É um palanque orgânico, com forte presença petista e sinalização moderada, mas distante do desenho amplo que Lula idealiza para um estado considerado termômetro nacional.
Do lado de Flávio Bolsonaro, Minas também registra tropeços. O plano inicial era ter o senador Cleitinho, do Republicanos, como candidato ao governo, ancorando o bolsonarismo no estado. Cleitinho enfrenta uma sequência de idas e vindas, fica sem o aval do partido e abre espaço para o PL lançar Flávio Roscoe ao governo, com o ex-deputado Charlles Evangelista de vice. O resultado é um palanque fragmentado, disputando espaço com o chamado “plano B” do Republicanos, que confirma a candidatura de Cleitinho ao Executivo mineiro.
Nordeste vira alvo de Flávio; Lula defende reduto histórico
O Nordeste, onde Lula obtém 69,34% dos votos válidos na última disputa presidencial, entra no centro da estratégia de Flávio Bolsonaro. Para tentar reduzir a vantagem histórica do PT, o senador escolhe o deputado Alfredo Gaspar, do PL de Alagoas, como vice. A presença de um nome nordestino na chapa busca sinalizar compromisso com a região e quebrar resistências a Bolsonaro pai e filho.
O cálculo é claro: qualquer ponto percentual que Flávio arranque do petista em estados como Bahia, Pernambuco e Ceará pesa no resultado nacional. Ao mesmo tempo, o entorno de Lula trabalha para preservar a hegemonia construída ao longo de sucessivos pleitos. Governadores aliados e estruturas locais do PT são acionados para manter a mobilização alta em um território visto como decisivo para a reeleição do presidente.
Nesse xadrez, a Bahia, com quase 12 milhões de eleitores, segue majoritariamente alinhada a Lula, embora o governador Jerônimo Rodrigues enfrente um adversário competitivo na disputa estadual. Em Pernambuco e no Ceará, o PT e partidos aliados tentam repetir palanques robustos em torno de candidaturas situadas no campo de centro-esquerda, enquanto o PL explora a fatia do eleitorado conservador que rompe com o lulismo em temas de costumes e segurança pública.
Neutralidade de siglas e ausências na TV redesenham a campanha
A neutralidade de legendas como Republicanos, Podemos e da federação que reúne União Brasil e PP ajuda Lula em alguns estados, sobretudo Minas e Rio de Janeiro, onde o bolsonarismo antes dominava parte do tabuleiro. Sem embarque nacional claro com Flávio, essas siglas abrem espaço para composições locais que ampliam o tempo de TV e o arco de apoios do presidente.
No Rio, reduto político da família Bolsonaro, o senador enfrenta dificuldades para consolidar um palanque competitivo. O PL planeja inicialmente uma chapa robusta, com Cláudio Castro e Márcio Canella na corrida ao Senado, mas recuos, investigações policiais e a saída de aliados empurram o partido para uma solução caseira. A campanha de Lula aposta no ex-prefeito Eduardo Paes para o governo, com Benedita da Silva ao Senado, construindo um palanque amplo num território simbolicamente importante para o bolsonarismo.
A disputa regional se cruza com a estratégia de exposição na mídia. As entrevistas especiais do g1 e da GloboNews, destinadas aos cinco presidenciáveis mais bem colocados nas pesquisas, ocorrem sem a presença de Lula e de Flávio Bolsonaro. A campanha petista comunica previamente que o presidente não participará do programa marcado. A equipe do senador do PL, por sua vez, não responde no prazo, e a emissora cancela a entrevista.
As ausências alimentam críticas sobre a disposição dos líderes da corrida em se submeter a sabatinas longas e imprevisíveis. Aliados de Lula argumentam que o presidente prioriza atividades de rua e agendas de governo. Integrantes do entorno de Flávio veem risco elevado em entrevistas ao vivo, com espaço para temas delicados da família Bolsonaro e de aliados.
Polarização regional e futuro da disputa
A configuração dos palanques nos oito principais colégios eleitorais aprofunda a polarização regional da eleição. Lula entra oficialmente na campanha mais forte no Nordeste e com bases consolidadas em parte do Sudeste, mas ainda precisa reduzir resistências em São Paulo e destravar apoios em Minas. Flávio Bolsonaro tenta compensar desvantagens estruturais com a força de Tarcísio em São Paulo e com um vice nordestino, mirando uma virada em estados onde o PT mantém capilaridade histórica.
O impacto concreto dessa engenharia se mede em tempo de televisão, estrutura de campanha, captação de recursos e capacidade de mobilizar cabos eleitorais locais. Setores ligados a políticas sociais e ao funcionalismo tendem a gravitar mais em torno de Lula, enquanto empresariado, agronegócio e grupos conservadores encontram em Flávio um referencial mais alinhado a suas pautas.
Nas próximas semanas, os dois campos devem intensificar viagens ao Sudeste e ao Nordeste, testar mensagens distintas para o eleitorado urbano e do interior e negociar novas adesões partidárias. O desempenho em debates e a eventual revisão da estratégia de evitar entrevistas longas na TV podem redefinir a narrativa da campanha. Se a correlação de forças nos grandes colégios permanecer apertada, a decisão tende a nascer da combinação entre a vantagem petista no Nordeste e o peso do voto paulista e mineiro no segundo turno.
Quem ganha com a definição dos palanques nos maiores colégios?
A configuração atual dos palanques em São Paulo, Minas, Rio, Bahia, Paraná, Rio Grande do Sul, Pernambuco e Ceará favorece Lula no Nordeste e Flávio Bolsonaro em São Paulo, mantendo a disputa aberta no Sudeste. Lula ganha estrutura onde já é forte, Flávio consolida apoios conservadores, e partidos médios negociam caro sua neutralidade.
Por que Lula e Flávio Bolsonaro faltam às entrevistas do g1 e GloboNews?
A ausência de Lula e Flávio Bolsonaro nas entrevistas especiais do g1 e da GloboNews decorre de decisão estratégica de campanha, com o petista comunicando que não iria e o PL não respondendo no prazo. As equipes calculam riscos de exposição ao vivo, preferem controlar a agenda e apostam mais em eventos regionais e redes sociais.