No Brasil, cerca de 1,2 milhão de famílias são formadas por pais que vivem sem cônjuge e criam os filhos. Os dados do IBGE mostram que esse tipo de arranjo familiar ainda representa uma parcela pequena dos lares brasileiros, mas vem crescendo nos últimos anos. A realidade é bem diferente da vivida pelas mães solo, que ainda são maioria nesse cenário.
Neste domingo (09), quando o país celebra o Dia dos Pais, a história de Adriano Marcos ajuda a mostrar o que existe por trás desses números. Aos 52 anos, o fotógrafo mora em Jandira, na Grande São Paulo, e vive a paternidade solo desde 2020, quando perdeu a esposa, Cíntia, após complicações de uma cirurgia.
O casal teve quatro filhos. Dois, porém, morreram: um após um aborto espontâneo e outro ainda no nascimento. Hoje, Adriano cria Arthur, de 21 anos, que tem diagnóstico de autismo nível 1 de suporte, e Ana Luísa, de 8 anos.
Desde a morte da esposa, ele precisou reorganizar completamente a rotina da família. A rede de apoio das avós — a mãe dele e a mãe de Cíntia, dona Antônia — é fundamental, mas boa parte das responsabilidades do dia a dia ficou concentrada nas mãos do fotógrafo.
Antes do nascimento dos filhos, Adriano e Cíntia já haviam combinado dividir as tarefas domésticas para evitar a sobrecarga de um dos dois. Com a perda da mulher, porém, ele passou a cuidar sozinho de tarefas que antes eram compartilhadas: lavar e dobrar roupas, organizar a casa, acompanhar os filhos e administrar as necessidades da família.

A experiência também fez Adriano perceber que ainda existe surpresa quando um homem assume integralmente os cuidados com os próprios filhos. Ele conta que, principalmente quando se trata de Ana Luísa, algumas pessoas ainda questionam a capacidade masculina de realizar tarefas que deveriam ser encaradas simplesmente como parte da responsabilidade de qualquer pai.
“Às vezes, as pessoas ainda ficam muito espantadas de um homem poder cuidar dos seus filhos, principalmente no caso da Ana, por ser uma menina. Existe essa discussão de que homem não tem que dar banho na criança ou cuidar da filha, mas eu faço questão. São momentos de alegria que a gente tem com os nossos filhos, e é assim que vamos caminhando na nossa vida”, afirma Adriano.
Para Adriano, cuidar dos filhos não é uma tarefa extraordinária nem algo que precise ser tratado como favor. É parte da própria paternidade. A rotina pode ser cansativa e exigir sacrifícios, mas também é marcada por momentos que, segundo ele, compensam as dificuldades.
“Paternidade solo é isso: a gente cria nossos filhos com as nossas dificuldades e também com as nossas alegrias. É lógico que existem sacrifícios e que é cansativo, mas nós temos essas pessoinhas na nossa vida e precisamos ter responsabilidade. Tem sido muito bom e muito prazeroso. É cansativo também, mas vale a pena”, conta pai solo.
A presença dos filhos também mudou a maneira como Adriano enxerga o próprio papel dentro da família. Mais do que garantir as necessidades materiais, ele entende que estar presente significa participar da formação dos dois e construir uma relação que vai muito além da obrigação.
É justamente por isso que ele prefere não se colocar como exemplo de perfeição. Ao falar sobre a própria trajetória, Adriano rejeita os rótulos de “pai extraordinário” ou “pai maravilhoso” e resume a experiência em uma frase que, para ele, representa o essencial da paternidade.
“Eu não sou um homem extraordinário, nem um pai maravilhoso. Eu sou apenas um pai responsável que resolveu ficar com seus filhos. Acho que é isso que muitos pais precisam entender: a presença faz diferença e os filhos precisam saber que podem contar com o pai nos momentos importantes da vida”, enfatiza Adriano.
A importância da presença paterna
Para Adriano, a experiência também reforçou uma preocupação que vai além da própria família: a distância de muitos pais em relação aos filhos.
Na avaliação dele, quando um homem deixa de participar da criação das crianças, seja por escolha ou por outras circunstâncias, a responsabilidade acaba ficando ainda mais concentrada sobre a mãe. Por isso, ele defende que os pais que ainda têm possibilidade de se reaproximar dos filhos façam esse movimento.
“Eu gostaria que muitos homens que estão longe dos seus filhos pudessem se reaproximar, porque a presença do pai é muito importante na vida dos filhos. Quando esse pai não está presente, seja porque não está mais nessa vida ou porque escolheu outros caminhos, o serviço da mãe acaba ficando dobrado. A presença paterna faz diferença”, conclui Adriano.
A história de Adriano mostra, na prática, que a paternidade solo não é apenas uma questão de números. Por trás dos cerca de 1,2 milhão de famílias apontadas pelo IBGE estão homens que precisam conciliar trabalho, tarefas domésticas, responsabilidades financeiras, educação e cuidados com os filhos.
No caso dele, existe ainda a ausência da mulher com quem dividiu a construção da família. Cinco anos depois da perda de Cíntia, Adriano continua reorganizando a vida ao lado de Arthur e Ana Luísa, com o apoio das avós e uma certeza: não existe manual para ser pai, mas existe a responsabilidade de estar presente.
Entenda o contexto
O Censo Demográfico do IBGE mostra que aproximadamente 1,2 milhão de famílias brasileiras são formadas exclusivamente por pais e filhos, sem a presença de um cônjuge. O número representa uma parcela menor do que a registrada entre as mães solo, mas aponta para uma realidade que também precisa ser compreendida.
A proporção de homens sem cônjuge e com filhos passou de 1,5% para 2% do total de famílias brasileiras, segundo os dados apresentados no levantamento.
Neste Dia dos Pais, a história de Adriano ajuda a colocar um rosto nessa estatística e mostra os desafios de quem precisa assumir sozinho responsabilidades que antes eram divididas. Mais do que falar sobre tarefas ou números, a experiência dele passa por luto, adaptação, rede de apoio e, principalmente, presença na vida dos filhos.