VÔLEI: “Amarelonas”, seleção brasileira fala sobre vice na VNL e transição

A equipe nacional enfrenta críticas online enquanto mantém tradição de pódios na Liga das Nações.
Redação NC News
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A seleção brasileira de vôlei feminino volta para casa com a medalha de prata da Liga das Nações e sob fogo cerrado de parte da torcida. Depois da derrota para a Turquia na final, jogadoras são chamadas de “vexame” e “pipoqueiras” nas redes, enquanto ex-bicampeãs olímpicas saem em defesa do elenco e colocam o vice como parte de um ciclo de renovação.

Prata sob pressão e jejum de títulos

O resultado mantém o Brasil no topo do vôlei mundial, mas prolonga o jejum de títulos intercontinentais, que se arrasta desde 2017. Em oito edições da Liga das Nações, a seleção soma cinco pratas e lidera o ranking de finais disputadas, mas ainda esbarra na barreira do ouro.

O incômodo da arquibancada transborda para as redes sociais. Na postagem da Confederação Brasileira de Vôlei anunciando o vice, torcedores repetem rótulos que perseguem a seleção há anos. Chamam o time de “penta da prata” e questionam o “psicológico” da equipe, como se o problema estivesse apenas na cabeça das jogadoras.

Brasil é medalha de prata na VNL feminina

Fabiana Claudino, capitã nas conquistas do ouro em Londres e referência de liderança, reage a esse discurso raso. “Quando a gente está do lado de cá, é muito fácil. Porque é isso, é psicológico, é aquilo. Mas quem está dentro da quadra, realmente sabe o que acontece”, diz. “No início, a gente era taxada de amarelonas, era aquelas que batiam na trave, só que a gente nunca deixou de acreditar na gente, a gente nunca perdeu essa força.”

Renovação em meio a lesões e críticas

A campanha na Liga das Nações deste ano expõe o tamanho do desafio. O Brasil chega à fase decisiva sem três peças-chave: Gabi, Tainara e Julia Kudiess, todas afastadas por lesão. Mesmo assim, a seleção supera a Itália no tie-break para voltar à final, repetindo o duelo que havia agitado Brasília na primeira semana do torneio.

Sheilla Castro, ex-oposta decisiva em conquistas históricas e hoje referência fora da quadra, faz questão de lembrar o contexto. “Esse ano a gente passou por várias coisas, né? Várias contusões importantes, jogadoras importantes saindo”, afirma. “A gente foi para a final da VNL, sem Gabi, sem Julia, perdemos Tainara e a gente ganhou da Itália.”

Sheilla Castro, ex-oposta decisiva em conquistas históricas e hoje referência fora da quadra

A ex-jogadora também contesta a busca obsessiva por uma explicação simples para o ouro não ter vindo. “Se a gente tivesse uma explicação da diferença concreta do ouro para prata, eu teria ganhado todos os ouros da minha vida que eu disputei. Então isso não é uma realidade”, diz. No vôlei de alto nível, uma bola bem defendida ou um saque desperdiçado mudam a história de um jogo.

Força do conjunto e legado em jogo

Sheilla insiste em um ponto que ajuda a entender o momento atual: o Brasil nunca foi uma seleção de uma estrela só. “Isso mostra a força do conjunto brasileiro. E a gente tem que lembrar sempre isso, que nossa seleção nunca foi feita de uma jogadora só, uma estrela só, sempre foi um conjunto”, afirma. Mesmo com desfalques, o time se apoia na coletividade para competir de igual para igual com as principais rivais.

O histórico recente nos Jogos Olímpicos ajuda a dimensionar o padrão de cobrança. Depois do ouro em Londres, o Brasil cai nas quartas em casa, no Rio, reage com uma prata em Tóquio e sobe ao pódio novamente com o bronze em Paris. Em qualquer outro país, essa sequência sustentaria um discurso de hegemonia. Aqui, alimenta a narrativa de frustração.

Fabiana e Sheilla, agora parceiras no projeto Mentalidade Campeã, dedicado à formação de atletas, defendem que o momento pede calma, não caça às bruxas. “A gente precisa renovar, precisa que essas novas jogadoras joguem cada vez mais. Assim elas vão criar experiência. A gente começou como elas, e elas estão representando muito bem”, diz Fabiana, ao analisar a nova geração de centrais.

Redes sociais, saúde mental e o papel da torcida

O fator que mais preocupa as veteranas está fora da quadra. O ambiente das redes sociais encurta a distância entre o ginásio e o celular das jogadoras e potencializa o efeito de cada crítica. “Hoje são coisas de segundos, a gente tem acesso o tempo inteiro, espalha rápido em segundos. Mas tem como a gente mudar e controlar isso? Não tem”, afirma Fabiana.

Ela descreve o mecanismo que mina a confiança das atletas. “Você vai postar uma foto, tem várias mensagens: ‘linda, você foi ótima’, mas se tiver um comentário ruim, você vai ficar no comentário ruim. Não posso deixar isso me afetar. Se eu puder dar um conselho, não perca energia com o que não estiver sob o seu controle.”

Na prática, o desafio da Confederação Brasileira de Vôlei é duplo. Precisa administrar a pressão por resultados imediatos, depois de quase uma década sem levantar um troféu intercontinental, e ao mesmo tempo blindar um elenco em transição, com jovens ganhando minutagem em posições-chave. A linha é fina entre cobrança legítima e desgaste emocional irreversível.

Ouro como horizonte e não como obsessão

Apesar das críticas, o discurso de quem conhece o topo do pódio continua otimista. “Eu acho que a gente está muito bem servido na seleção, de todas as posições, e esse ouro vem”, projeta Sheilla. Para ela, a alternância de nomes em posições como a saída de rede faz parte do próprio ciclo do esporte, assim como no passado a rotação constante entre pontas marcava a era de Paula, Mari, Jaque e Sassá.

A prata na Liga das Nações, em vez de símbolo de fracasso, aparece como retrato de um time competitivo em meio a mudanças profundas. O elenco atual ainda busca sua identidade definitiva, mas prova capacidade de reação, mesmo com lesões e sob bombardeio virtual.

Os próximos meses devem consolidar esse cenário. A comissão técnica terá de ajustar o calendário para recuperar lesionadas, dar cancha às mais jovens e afinar o sistema de jogo. A torcida, por sua vez, decide que papel quer desempenhar: combustível para uma nova geração chegar forte a Mundiais e Jogos Olímpicos ou peso extra nas costas de um time que segue, apesar de tudo, entre os melhores do planeta.

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