O Banco Central detalha neste momento a próxima fase do Pix, com foco na criação do Pix Internacional, novas funcionalidades e um pacote de oito medidas contra fraudes e abusos.
Pix cruza fronteiras e mira remessas em segundos
O relatório de gestão do Pix 2023-2025, divulgado nesta segunda-feira (10), mostra que o BC trabalha para que transferências entre brasileiros e estrangeiros aconteçam em tempo real, com conversão imediata para a moeda local. A proposta é usar o mesmo gesto que popularizou o Pix doméstico: um QR Code na tela do celular ou do caixa.
O documento informa que o BC estuda duas frentes técnicas. “Estão em discussão tanto interligações bilaterais como a participação em hubs multilaterais. Essas interligações permitiriam a realização de remessas internacionais e de transações de compra com disponibilização dos recursos em moeda local em poucos segundos”, afirma a autoridade monetária.
Hoje, operações com Pix em viagens ao exterior ainda dependem de arranjos privados entre bancos e fintechs, que usam o Pix apenas dentro do Brasil e depois fazem a remessa por trilhas tradicionais. O BC considera esse modelo “parcial” e quer, na próxima etapa, que os sistemas de pagamentos instantâneos de diferentes países conversem diretamente entre si.
O movimento tem impacto direto sobre turistas, trabalhadores que enviam dinheiro para familiares e empresas que fazem pequenas transações de comércio exterior. Com o Pix Internacional, remessas que hoje demoram dias e custam tarifas altas podem cair na conta em segundos, com taxas menores e mais previsíveis.
Pix cresce 33,6% e pressiona sistemas tradicionais
O apetite por pagamentos instantâneos fortalece a agenda de internacionalização. Em 2025, o Pix movimenta R$ 35,36 trilhões, alta de 33,6% em relação ao ano anterior. O volume coloca o sistema no centro da economia digital brasileira e aumenta a pressão sobre bancos e intermediários que vivem de tarifas em transferências internacionais tradicionais.
O efeito competitivo tende a ser direto. Plataformas de remessas, correspondentes cambiais e bancos que cobram caro por envios ao exterior podem perder espaço se não se adaptarem. Ao mesmo tempo, comércio exterior, turismo, serviços digitais e e-commerce internacional ganham uma infraestrutura de pagamentos mais rápida, barata e integrada ao dia a dia dos consumidores.
O plano brasileiro dialoga com discussões globais sobre integração de sistemas instantâneos, em especial entre países emergentes e blocos como os BRICS. O relatório cita explicitamente a possibilidade de o Brasil participar de hubs multilaterais, estruturas que conectam vários países numa mesma infraestrutura, em vez de depender apenas de acordos de país a país.
Cobrança híbrida, Pix em garantia e transações offline
O avanço internacional vem acompanhado de uma lista robusta de novidades internas. O BC projeta a cobrança híbrida, o pagamento de duplicatas, o chamado split tributário ligado à reforma de impostos sobre consumo, o Pix em garantia e transações por aproximação mesmo sem internet.
A cobrança híbrida promete integrar duas rotas conhecidas do brasileiro: boleto e Pix. Na prática, a mesma cobrança poderá ser quitada por QR Code ou pelo código de barras tradicional, com previsão de tornar o modelo obrigatório e reduzir o custo operacional de empresas que hoje mantêm sistemas paralelos.
O Pix em garantia mira autônomos e pequenos empreendedores que vivem de recebíveis diários. A ideia é permitir que “recebíveis futuros” do Pix sejam usados como garantia de crédito, em um modelo próximo ao consignado. Bancos poderiam avaliar o fluxo de caixa previsível e oferecer juros menores, destravando crédito para quem não tem folha de pagamento ou imóvel em garantia.
Outra frente são as transações por aproximação em modo offline. O BC estuda permitir que o usuário pague por aproximação mesmo sem conexão à internet, tema sensível para regiões com baixa cobertura de sinal e para quem depende do celular em ambientes instáveis, como transportes públicos. A promessa é levar a experiência “encostou, pagou” para um público mais amplo.
Oito medidas antifraude e cerco ao abuso no campo de mensagens
O sucesso do Pix também escancara problemas. O BC identifica abusos no campo de mensagens das transferências, usado em alguns casos para insultos, ameaças e intimidações com valores irrisórios. “Originalmente concebido para que o pagador registre informações objetivas sobre o pagamento, esse campo tem sido utilizado, em algumas situações, para fins alheios ao propósito original, como veículo para mensagens ofensivas, intimidatórias ou ameaçadoras, frequentemente associadas a transferências de valor irrisório”, registra o relatório.
Para enfrentar o problema, a autoridade cria um grupo de trabalho no Fórum Pix, com representantes do sistema de pagamentos. O objetivo é encontrar soluções que preservem a liberdade de uso, mas coíbam o assédio digital via transferências simbólicas. “Com base nas conclusões desse trabalho, o BC avaliará e instituirá, se julgar necessário, as medidas regulamentares adequadas para coibir o uso inadequado do campo de mensagens”, informa o órgão.
Na frente antifraude, o relatório detalha oito medidas em estudo. Entre elas, critérios objetivos mínimos para identificar transações suspeitas em todas as instituições, a criação de um indicador de probabilidade de fraude em tempo real, uso intensivo de técnicas de machine learning, padronização obrigatória dos alertas de golpe e aprimoramento do fluxo de informações para bloqueios cautelares.
A padronização é central. Hoje, cada banco define se e como alerta o cliente quando identifica risco de golpe. O BC quer um padrão mínimo para esses avisos, com linguagem clara e disparo automático quando certos critérios forem preenchidos. A intenção é reduzir a assimetria entre usuários mais e menos informados e impedir que parte da clientela fique sem proteção porque seu banco oferece menos camadas de segurança.
Pix parcelado e inclusão financeira em disputa
O relatório não traz prazo para a padronização do Pix parcelado, mas o tema segue no radar do BC. A modalidade hoje atende cerca de 60 milhões de pessoas sem cartão de crédito, segundo a própria autoridade monetária. A definição de regras comuns tende a acirrar a concorrência entre bancos e fintechs e pode reduzir reclamações sobre juros e transparência.
O conjunto de medidas indica uma estratégia dupla: ampliar o alcance e a sofisticação do Pix, inclusive além das fronteiras brasileiras, e ao mesmo tempo reforçar o cinturão de segurança e governança do sistema. A depender do ritmo de testes e de negociações internacionais, o Pix tende a deixar de ser um símbolo apenas doméstico de inovação para se tornar parte de uma rede global de pagamentos instantâneos.
Os próximos meses serão decisivos para transformar o relatório em cronograma. A implementação gradual das funcionalidades, a definição de padrões regulatórios para o Pix parcelado e o avanço das conversas sobre interligações internacionais vão mostrar até onde o modelo brasileiro consegue influenciar a arquitetura dos pagamentos digitais no mundo.
O que é o Pix Internacional e como ele vai funcionar?
O Pix Internacional é a extensão do sistema de pagamentos instantâneos brasileiro para operações entre países, permitindo remessas e compras no exterior em segundos, com conversão imediata para moeda local, por meio de interligações entre o Pix e sistemas semelhantes de outros países e uso de QR Codes.
Quais países já aceitam o Pix Internacional?
Alguns estabelecimentos em países como Argentina, Estados Unidos e Portugal já aceitam pagamentos via Pix em arranjos pontuais, mas esse uso ainda é parcial, feito por acordos privados entre instituições, sem a infraestrutura plena de interligação entre sistemas nacionais que o Pix Internacional em estudo pelo Banco Central pretende criar.
Como fazer um Pix Internacional do exterior para o Brasil?
Hoje, para enviar dinheiro do exterior para o Brasil usando Pix, o usuário depende de plataformas ou bancos que ofereçam esse serviço, que convertem a moeda estrangeira e fazem um Pix doméstico em reais; com o Pix Internacional estruturado, a ideia é que a transferência transfronteiriça aconteça em um fluxo único, em segundos, entre os sistemas conectados.
O Pix Internacional tem taxas para transferências entre países?
As transferências internacionais feitas hoje com apoio do Pix cobram taxas definidas por bancos e fintechs, sem padronização; o modelo de Pix Internacional em estudo pelo Banco Central tende a reduzir custos em relação a remessas tradicionais, mas as tarifas finais deverão ser definidas por cada instituição participante e pelo arranjo regulatório de cada país envolvido.
Quando o Pix Internacional estará disponível para uso?
O relatório de gestão do Pix indica que o Pix Internacional está em fase de estudo e desenvolvimento, com foco em interligações bilaterais e participação em hubs multilaterais, mas não traz uma data de lançamento; a expectativa é de implementação gradual, após testes técnicos, acordos regulatórios e definição de padrões de segurança entre os países.
O Pix Internacional pode ser usado como garantia de crédito?
O uso do Pix como garantia de crédito aparece no relatório como função específica chamada Pix em garantia, pensada para que recebíveis futuros sirvam de colateral para empréstimos; o Pix Internacional, por sua vez, foca em transferências entre países, embora no futuro operações com receitas recorrentes internacionais possam também compor análises de crédito.