“Não se meta”: Lula diz que iniciou reciprocidade contra os EUA

Presidente promete vencer americanos na "batalha de narrativas", aciona retaliação comercial para mostrar força e substitui sabatinas tradicionais por maratona em podcasts de olho na reeleição.
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Em um movimento que mescla forte ofensiva diplomática e estratégia eleitoral, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) subiu o tom contra o governo dos Estados Unidos nesta sexta-feira (14).

Durante uma rodada de entrevistas a podcasts direto do Palácio da Alvorada, o mandatário brasileiro rebateu as recentes sanções comerciais impostas por Washington, enviou um recado direto ao presidente americano Donald Trump e deixou claro seu novo modus operandi para a campanha de 2026.

A Batalha de Narrativas e a Retaliação Comercial

A tensão diplomática entre Brasília e Washington escalou após os EUA proporem tarifas de 25% sobre produtos nacionais, sob a justificativa de que o Brasil consome mercadorias oriundas de trabalho escravo e falha no controle do desmatamento. Lula classificou as alegações como infundadas e adotou uma postura de confronto retórico contra o que chamou de “integrantes hostis” do governo americano.

“Eu já disse, com mentiras ninguém ganha do Brasil. E eu vou vencer os Estados Unidos pela narrativa. Eles taxaram o Brasil com base em mentiras. Ontem [quinta], entramos com a Lei da Reciprocidade para mostrar que a gente não é pouca coisa.””

Apesar da demonstração de força para o público interno, o presidente tentou calibrar o discurso diplomático para evitar um rompimento definitivo, reconhecendo a disparidade militar, mas apostando na força institucional do país no cenário global.

“Não quero guerra, eu quero discutir com seriedade.”

Se a relação com o aparato estatal americano enfrenta turbulências, Lula faz questão de buscar uma via de diálogo direto com Donald Trump. O petista afirmou que deseja uma conversa telefônica franca com o republicano, pautada pelo respeito institucional que deve nortear as duas maiores democracias do continente.

Para materializar o discurso, o governo oficializou o acionamento da Lei da Reciprocidade Econômica — legislação sancionada em 2025 —, que permite ao Brasil impor as mesmas restrições e tarifas que sofrer de outras nações. A medida visa garantir tratamento de igualdade nas relações diplomáticas.
Para materializar o discurso, o governo oficializou o acionamento da Lei da Reciprocidade Econômica — legislação sancionada em 2025 —, que permite ao Brasil impor as mesmas restrições e tarifas que sofrer de outras nações. A medida visa garantir tratamento de igualdade nas relações diplomáticas. Foto: Agência Brasil

Contudo, a busca por cordialidade tem uma “linha vermelha” muito bem desenhada: a soberania nacional e a corrida eleitoral de 2026. Antecipando-se a possíveis atritos e discursos externos, Lula foi taxativo ao avisar que interferências na política interna brasileira não serão toleradas.

“Vou dizer: não se meta nos negócios do Brasil e, sobretudo, na questão da eleição. Eu nunca me meti nas eleições deles. Por que ele vai se meter aqui?”

Setor produtivo e comercial veem reciprocidade com preocupação

.Em nota oficial divulgada para repercutir a abertura do processo da Lei da Reciprocidade Econômica por parte do Brasil, a Amcham Brasil (Câmara Americana de Comércio) pediu moderação e alertou para os pesados riscos de uma retaliação.

A manifestação da entidade, que representa uma ponte institucional e financeira vital entre os dois países, joga luz sobre o descompasso entre a estratégia política de endurecimento do Palácio do Planalto e o pragmatismo esperado pelo mercado.

O Recado das Empresas: Diplomacia acima do Revide

Para a Amcham, a resposta do Brasil às restrições adotadas pelos EUA (ancoradas na Seção 301 da legislação norte-americana) não deve se dar na mesma moeda sem antes esgotar todas as vias pacíficas. A entidade deixou claro que a prioridade absoluta deve ser a mesa de negociação, e não o confronto:

“[…] o caminho prioritário deve ser a intensificação do diálogo de alto nível e das negociações entre os dois governos, com o objetivo de reduzir as sobretaxas atualmente em vigor, evitar novas restrições e construir um entendimento que preserve e amplie o comércio e os investimentos bilaterais.”

A posição da Câmara não é um palpite isolado; ela reflete o temor generalizado de quem opera a economia real. Expondo a falta de respaldo do setor privado para uma “guerra comercial”, a Amcham apresentou dados contundentes sobre a preferência do empresariado por uma saída conciliatória:

“Em pesquisa recente, 90,5% das empresas defenderam a intensificação do diálogo diplomático e comercial com os Estados Unidos, enquanto apenas 3,2% apontaram a adoção de medidas de reciprocidade como estratégia preferencial.”

Cautela no Rito e o Risco do “Efeito Bumerangue”

Apesar de reconhecer que a simples abertura do procedimento burocrático de reciprocidade pelo governo federal não crava, de imediato, a aplicação das contramedidas, a Amcham cobra que o rito processual — que envolve consultas diplomáticas e audiências públicas — não seja atropelado por impulsos políticos. O apelo aos articuladores do governo é por previsibilidade e racionalidade:

“Nesse contexto, a Amcham considera fundamental que esse procedimento seja conduzido com equilíbrio, moderação e avaliação criteriosa de seus potenciais impactos, assegurando ampla participação do setor empresarial.”

O temor central nos bastidores do PIB é que o tiro saia pela culatra. Ao retaliar os Estados Unidos para demonstrar força externa, o Brasil pode acabar punindo o seu próprio mercado interno. A entidade foi taxativa ao enumerar os estragos reais que uma retaliação consumada traria para a economia nacional, encarecendo a vida do brasileiro e espantando capital estrangeiro:

“Ao mesmo tempo, a Amcham considera que a adoção de eventuais contramedidas deve ser evitada, diante do considerável risco de elevar custos para empresas e consumidores, afetar cadeias produtivas e investimentos e levar a uma escalada comercial e política na relação com os Estados Unidos […]”

No desfecho do comunicado, a Amcham se colocou à disposição para atuar como mediadora, buscando superar as divergências e preservar uma relação que precisa se manter “mutuamente benéfica”. A bola, agora, está na quadra do Itamaraty e do Ministério da Fazenda, que precisarão pesar os custos políticos e econômicos de peitar as tarifas do segundo maior parceiro comercial do Brasil, indo na contramão do que deseja a ampla maioria das empresas.

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