O grupo Casas Bahia inicia hoje o fechamento de 298 lojas em todo o país e abre caminho para a demissão de até 3 mil funcionários, em uma reestruturação profunda da rede.
Rede encolhe quase 30% em meio à crise do consumo
O corte atinge quase 30% das mais de mil unidades que o grupo, dono das marcas Casas Bahia e Pontofrio, mantém em funcionamento no varejo físico brasileiro. A decisão ocorre em meio a prejuízos recorrentes, vendas pressionadas e despesas financeiras elevadas, em um cenário de forte endividamento das famílias e perda de poder de compra.
As lojas começam a ser desativadas nesta sexta-feira em diversas regiões do país. Funcionários relatam surpresa e afirmam ter encontrado unidades já fechadas ao chegar para trabalhar. Em muitos casos, o comunicado de desligamento vem depois da constatação de que a operação daquela loja não volta a funcionar.
Na prática, a empresa encolhe de forma acelerada sua presença nas ruas e shoppings. Pontos tradicionais de comércio, que funcionam como âncoras para o fluxo de consumidores, perdem uma das maiores redes de eletrodomésticos e móveis do país. Pequenos negócios instalados no entorno dessas lojas sentem o efeito imediato da queda de movimento.
Demissões em duas ondas e histórico de aperto financeiro
A redução de quadro vem em duas etapas. Na quinta-feira, 600 funcionários foram demitidos. Hoje, entre 1,3 mil e 1,4 mil colaboradores devem ser desligados, segundo apurações do mercado, o que pode levar o total a até 3 mil demissões. A Gazeta do Povo descreve o movimento como “uma das maiores reduções de quadro feita na história recente da Casas Bahia”.
A empresa já vinha enxugando a rede neste ano. No balanço do primeiro trimestre, comunicou o fechamento de 12 lojas da marca Casas Bahia e 14 unidades Pontofrio. O movimento atual amplia de forma drástica esse redesenho, transformando uma readequação gradual em um corte em massa da estrutura física.
Em comunicado a investidores, a companhia atribui a necessidade de ajustes ao ambiente macroeconômico e à própria situação financeira. “Entre os fatores que levaram à necessidade de uma restruturação do quadro de lojas e funcionários estariam o elevado endividamento da população, que vem reduzindo o poder de compra, além do cenário de prejuízos recorrentes”, registra o jornal Valor Econômico.
O grupo carrega ainda os efeitos de um desequilíbrio de capital que levou, em 2024, à entrada em recuperação extrajudicial e à renegociação com bancos. Mesmo após esse acordo, vendas fracas e juros altos continuam pesando na última linha do balanço, segundo pessoas que acompanham a situação.
Atraso no balanço e reação em cadeia na cadeia de fornecedores
A divulgação dos resultados do segundo trimestre, que ocorreria no meio da semana, foi adiada para as 17h de hoje. Em comunicado aos acionistas, a companhia afirma que “a mudança na data ocorreu para que a companhia possa concluir os trâmites para a finalização do formulário referente às informações contábeis e para sua aprovação e divulgação”. Uma teleconferência com investidores está marcada para a próxima segunda-feira.
A postergação do balanço alimenta a expectativa do mercado sobre o tamanho real da crise e o alcance do plano de corte de custos. Analistas esperam que a administração apresente detalhes do fechamento das 298 lojas, estimativas de economia anual e projeções para a operação concentrada em menos pontos físicos e mais canais digitais.
Os efeitos do aperto não se restringem aos empregados recém-demitidos. Fornecedores e lojistas que usam o marketplace da Casas Bahia relatam atrasos em recebimentos, especialmente em vendas pagas via Pix, e pressão por prazos mais longos. A estratégia busca aliviar o caixa e alongar compromissos, mas empurra o problema para pequenos e médios negócios que dependem do giro rápido para se manter.
A malha de negócios do grupo inclui, além das lojas Casas Bahia e Pontofrio, o site Extra.com.br, a fabricante de móveis Bartira, a plataforma logística CBfull e o braço financeiro Casas Bahia Pay. Toda essa estrutura passa a operar sob a sombra de um plano de ajustes cujo alcance ainda não está totalmente claro.
Empregos, concorrência e o futuro do varejo físico
O impacto social das demissões é imediato. Até 3 mil trabalhadores, muitos com anos de casa, perdem o emprego em um intervalo de dois dias. Em cidades médias, em que a loja é um polo relevante de contratação formal, a saída da rede pode deixar um vácuo difícil de preencher no curto prazo.
Sindicatos e órgãos trabalhistas acompanham o movimento e tendem a pressionar por transparência nos critérios de fechamento e desligamento. A ausência de um posicionamento público detalhado da empresa até o momento aumenta a sensação de incerteza dentro e fora da companhia.
Para o consumidor, o fechamento de quase 30% da rede significa menos opções de compra presencial, sobretudo em eletrodomésticos, eletrônicos e móveis, segmentos em que o toque no produto e a venda parcelada ainda pesam na decisão. A companhia, porém, mantém sua operação online e serviços financeiros, tentando deslocar parte da demanda para os canais digitais.
No mercado de varejo, a redução da rede de lojas da Casas Bahia mexe no equilíbrio de forças com concorrentes como Magazine Luiza e outras redes de eletroeletrônicos. A decisão reforça uma tendência de consolidação do setor e de concentração em menos players com maior eficiência operacional e presença digital robusta.
Os próximos dias serão decisivos para medir a reação do mercado financeiro e dos consumidores. O balanço do segundo trimestre e a conversa com investidores devem indicar se o corte de 298 lojas é um capítulo isolado ou o início de uma reestruturação ainda mais profunda. A sobrevivência da marca como protagonista do varejo físico dependerá da capacidade de equilibrar o ajuste duro de hoje com um plano crível de futuro.