O Ministério Público de São Paulo investiga se quase R$ 7 milhões pagos pelo Corinthians à empresa Incentiva no programa Fiel da Sorte acabam desviados para dirigentes ou funcionários do clube. O caso expõe falhas graves de controle interno e pressiona a atual gestão por respostas rápidas e transparentes.
Pagamentos sem controle e suspeita de desvio
O procedimento investigatório criminal é conduzido pelo promotor Cássio Conserino e mira a relação comercial entre o Corinthians e a Incentiva Serviços Combinados Tecnologia e Marketing. A empresa é responsável pelos sorteios e promoções vinculados ao Fiel da Sorte, braço promocional do programa Fiel Torcedor.
Entre agosto de 2023 e abril deste ano, o clube paga 34 prestações mensais à Incentiva, que somam mais de R$ 6,9 milhões. Mesmo assim, admite ao Ministério Público que não acompanha de forma efetiva o serviço contratado.
“A Incentiva nunca apresentou os relatórios e a prestação de contas que serviriam de base ao cálculo (das prestações mensais)”, afirma o Corinthians em manifestação oficial.
O promotor quer saber não só por que o clube manteve pagamentos sem comprovação, como também se o dinheiro volta, de forma irregular, a cartolas ou empregados. O foco da apuração, nas palavras de Conserino, é descobrir se “houve devolução de valores a dirigentes ou colaboradores do Corinthians e consequentemente desvio de dinheiro da entidade esportiva”.
O contrato prevê que a Incentiva receba R$ 3,75 por mês por cada sócio adimplente ligado ao Fiel da Sorte, valor fixo, independentemente do plano. O pacote mais barato do Fiel Torcedor custa R$ 14,90. A empresa OneFan, responsável pelo sistema do programa de sócios, informa mensalmente o número de torcedores em dia, dado usado para calcular os repasses.
Do entusiasmo digital ao sumiço da campanha
O Fiel da Sorte nasce como aposta de engajamento digital. A ação é integrada ao aplicativo Universo SCCP, com sorteios semanais e a chamada “rabiscadinha”, versão digital da raspadinha, com 12 chances gratuitas por mês para cada associado. A campanha aparece em redes sociais e na Neo Química Arena, em dias de jogo.
Ao longo do tempo, o brilho some. A divulgação oficial praticamente desaparece a partir de meados de 2024, mas as transferências à Incentiva seguem. A última autorização formal da Secretaria de Prêmios e Apostas do governo federal para sorteios ligados ao programa vence em setembro daquele ano. Segundo relatório interno, as rabiscadinhas ainda ocorrem até 19 de dezembro de 2025.
A Incentiva sustenta que entrega prêmios e experiências até o fim de maio de 2026 e afirma não ter sido formalmente comunicada da rescisão do contrato. Do outro lado, a diretoria corintiana interrompe os pagamentos em abril, alega descumprimento de obrigações e pede indenização de R$ 3 milhões pelo fim antecipado do vínculo.
O acordo com a Incentiva vale, no papel, até 2028. No período em que o dinheiro sai sem controle documentado, o clube passa por três presidentes: Duilio Monteiro Alves, responsável por fechar a parceria, Augusto Melo e, agora, Osmar Stabile. Cada gestão tenta se distanciar do problema, enquanto a pressão de conselheiros, torcedores e do próprio Ministério Público aumenta.
Crise de governança em meio a dificuldades financeiras
A investigação chega num momento em que o Corinthians convive com dívidas a fornecedores e jogadores e tenta renegociar contratos para aliviar o caixa. O caso Fiel da Sorte joga luz sobre a fragilidade dos mecanismos de governança de um dos maiores clubes do país.
O Ministério Público apura possíveis crimes de estelionato, furto, apropriação indébita, falsidade ideológica, crime tributário e associação criminosa. A linha de apuração inclui não apenas a Incentiva e seus sócios, mas também dirigentes e funcionários que autorizam e processam os pagamentos mensais, mesmo sem a base documental exigida.
Os valores pagos à empresa aumentam com o tempo, acompanhando o crescimento da base de sócios. A primeira parcela é de R$ 124.488,75. A última, paga em abril, chega a R$ 343.522,50. No mesmo período, campanhas registradas em órgãos federais mostram custos relativamente baixos com prêmios, na casa de poucos milhares de reais por lote de sorteios.
Ex-presidente que assina o acordo, Duilio Monteiro Alves justifica em nota que o objetivo é “o incremento de novas receitas” com novos planos do Fiel Torcedor e um plano digital voltado a quem não vai ao estádio.
Ele destaca conteúdos exclusivos, bastidores de jogos e um sistema de gamificação com moedas virtuais, tudo atrelado à parceria com a Incentiva.
Pressão por transparência e efeito cascata no futebol
Augusto Melo, sucessor de Duilio, afirma por mensagem de áudio que desconhece o contrato e diz nunca ter tratado do Fiel da Sorte. A atual diretoria, comandada por Osmar Stabile há pouco mais de um ano, alega que todas as transferências recentes seguem “trâmites legais e contábeis” e insiste que a rescisão decorre de descumprimento contratual por parte da empresa.
Mesmo com o discurso de correção, o clube reconhece internamente que não avalia de forma adequada o que recebe em troca de pagamentos que chegam a centenas de milhares de reais por mês. O episódio funciona como radiografia da assimetria entre o nível de profissionalização desejado e a estrutura efetiva de controle nos clubes brasileiros.
O efeito não se limita ao departamento financeiro. A credibilidade do Fiel Torcedor, uma das principais fontes de receita recorrente do Corinthians, entra em xeque. Sócios que pagam mensalidades, compram ingressos e alimentam planos como o Fiel Torcedor Minha Vida começam a questionar para onde vai o dinheiro vinculado às ações de marketing.
Empresas que negociam patrocínios ou acordos de exploração comercial também acompanham a crise. A imagem de um clube que transfere quase R$ 7 milhões sem relatório detalhado pesa na mesa de negociação. O caso ainda serve de alerta a outras agremiações que terceirizam programas de fidelização e ações promocionais sem mecanismos sólidos de auditoria.
O Ministério Público, agora, cruza notas fiscais, certificados de sorteio, registros internos do clube e dados bancários da Incentiva e de pessoas ligadas à empresa e ao Corinthians. Se forem comprovados crimes, dirigentes podem responder penalmente e na esfera cível, com possível obrigação de ressarcir o clube.
Dirigentes e conselheiros já falam em rever contratos de marketing e tecnologia, reforçar auditorias independentes e vincular pagamentos a comprovações mensais detalhadas. A investigação ainda está em curso e tende a se desdobrar por meses, mas já deixa uma certeza: sem controle efetivo sobre programas como o Fiel da Sorte, a conta, no fim, recai sobre o torcedor que sustenta o clube.