O que o livro de um ex-gangster pode revelar sobre a morte de Tupac?

Duane “Keffe D” Davis é julgado em Las Vegas por suposto envolvimento no assassinato do rapper; obra publicada anos depois do crime virou peça central da acusação
Redação NC News
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O ex-líder de gangue Duane “Keffe D” Davis, 63, começa a ser julgado em Las Vegas, acusado de envolvimento direto no assassinato do rapper Tupac Shakur. O caso tenta, quase três décadas depois, pôr fim a um dos crimes mais enigmáticos da cultura pop.

Livro quebrou silêncio e levou caso ao tribunal

O julgamento se apoia em um elemento incomum: a autobiografia de Davis,

“Compton Street Legend”, publicada em 2019.

No livro, ele se descreve como “uma das únicas testemunhas vivas do assassinato de Tupac” e relata ter providenciado a arma usada na emboscada em Las Vegas.

Os promotores sustentam que Davis, então dirigente da gangue South Side Compton Crips, organizou o ataque como vingança. Horas antes dos disparos, Tupac e o empresário Marion “Suge” Knight participam de uma briga em um cassino de Las Vegas com Orlando “Baby Lane” Anderson, sobrinho de Davis. A partir dali, segundo a acusação, nasce a ordem de represália.

A narrativa de “Compton Street Legend” descreve o Cadillac branco que encosta ao lado da BMW em que Tupac viaja como passageiro, em um semáforo. Disparos atravessam o carro; o rapper é atingido por quatro tiros, um deles no pulmão. Ele resiste por seis dias no hospital antes de morrer, aos 25 anos.

A polícia de Las Vegas, que nunca conseguiu sustentar uma acusação robusta no passado, volta ao caso após o livro. Davis é preso em 2023 e denunciado por homicídio com uso de arma letal. Não se alega que ele tenha puxado o gatilho, mas que forneceu a arma e coordenou o ataque. “Se ele não escrevesse o livro, provavelmente jamais seria processado por esse crime”, admite o promotor Marc DiGiacomo.

 

Davis agora nega e tenta transformar confissão em ficção

No banco dos réus, Davis recua de tudo o que escreveu. Afirma que nunca matou ninguém e que a obra é exagerada, criada para vender exemplares e alimentar a própria mitologia. “Sou inocente. Não matei ninguém. Nunca matei ninguém. Eles não têm nenhuma prova contra mim”, afirma o ex-gangster, que hoje enfrenta a possibilidade de prisão perpétua.

A defesa sustenta que “Compton Street Legend” é, na prática, um romance. Culpa o coautor, Yusuf Jah, pelos detalhes mais sórdidos. O ponto central da estratégia é minar a credibilidade de um texto que a acusação tenta transformar em confissão voluntária. Se o livro cair como ficção de bravata, a estrutura do processo fica mais frágil.

Promotores planejam usar o próprio hábito de Davis de se colocar como protagonista de um episódio lendário para comprová-lo como mentor do crime. A tese é de responsabilidade compartilhada: mesmo que outro homem tenha apertado o gatilho, Davis responderia como mandante. Os demais ocupantes do Cadillac – Orlando Anderson, Terrence Brown e DeAndre “Dre” Smith – estão mortos, o que reforça o peso do réu como última peça viva do quebra-cabeça.

A previsão é de um julgamento longo, entre quatro e cinco semanas. O tribunal deverá ouvir investigadores, peritos e antigos integrantes de gangues, além de analisar materiais de arquivo, depoimentos antigos e trechos do próprio livro. O processo põe à prova até onde vai o alcance jurídico de memórias publicadas anos depois de um crime.

 

Suge Knight se cala e complica reconstrução do crime

Uma das ausências mais notáveis é Marion “Suge” Knight, ex-empresário de Tupac e cofundador da gravadora Death Row Records. Ele dirigia a BMW atingida pelos disparos e também foi baleado, mas sobreviveu. Hoje cumpre 28 anos de prisão por outro homicídio e se recusa a cooperar com o tribunal em Las Vegas.

De dentro da prisão, Knight envia um recado duro ao júri e aos promotores.

“Não sou pago para resolver homicídios […] Esse julgamento não tem nada a ver comigo, me deixem fora disso”, diz.

O silêncio de quem estava a centímetros de Tupac no momento dos tiros retira do processo uma das testemunhas mais valiosas – e alimenta a sensação de que a verdade completa talvez permaneça inalcançável.

A recusa de Knight também volta a expor o clima de lealdade e medo que sempre cercou o caso. O assassinato de Tupac ocorre em meio à escalada de conflitos entre costas Leste e Oeste do rap americano, com gangues de rua e gravadoras movimentando poder, dinheiro e violência. Muitas das figuras-chave dessa disputa morrem ou são encarceradas, o que dificulta, hoje, o cruzamento de relatos.

 

Legado de Tupac e disputa por memória e justiça

Tupac Shakur nasce em Nova York e cresce em ambiente politizado, filho de Afeni Shakur, militante dos Panteras Negras. Constrói uma obra que mistura relatos de pobreza urbana, crítica ao racismo, violência policial e conflitos íntimos. Vende mais de 75 milhões de discos e entra para o Rock & Roll Hall of Fame, consolidando o status de ícone global do hip-hop.

Também atua no cinema, em títulos como “Uma Questão de Respeito” e “Gridlock’d – Na Contra-Mão”, e torna-se referência assumida por nomes como Kendrick Lamar, 50 Cent, Mano Brown e Djonga. A trajetória interrompida aos 25 anos alimenta a imagem de gênio trágico, ao mesmo tempo celebrado e mitificado.

Para fãs, estudiosos da música e a família, o julgamento de hoje representa mais do que a chance de punir um ex-líder de gangue. É a possibilidade de dar contornos mais nítidos a uma noite que se torna símbolo de violência e impunidade ligadas ao rap. A condenação de Davis pode encerrar, juridicamente, um capítulo aberto há 30 anos. Uma absolvição preserva dúvidas e a sensação de fracasso do sistema de justiça.

O caso também interessa a investigadores e promotores de outros estados americanos. A forma como o tribunal lida com um livro de memórias usado como peça central de acusação pode criar precedente para processos em crimes antigos, com evidências materiais escassas. Se o júri aceitar essa base como suficiente, abre-se espaço para reabrir outros arquivos do submundo das gangues.

Enquanto testemunhas são chamadas e trechos de “Compton Street Legend” voltam a circular na sala do júri, uma disputa silenciosa se impõe: quem controla, afinal, a narrativa sobre a morte de Tupac Shakur. O tribunal de Las Vegas decide o futuro de Duane “Keffe D” Davis, mas também ajuda a definir como o mundo lembrará uma das noites mais sombrias da história do hip-hop.

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