As principais estrelas do tênis mundial se unem nesta semana contra o calendário dos Jogos Olímpicos de Los Angeles, que prevê só três dias entre a final masculina de Wimbledon e o início do torneio olímpico de tênis. Elena Rybakina, Aryna Sabalenka, Iga Swiatek e Daniil Medvedev chamam o plano de “loucura” e cobram mudanças imediatas.
O confronto opõe, de um lado, atletas no auge da carreira e, de outro, o Comitê Olímpico Internacional e organizadores locais, responsáveis por encaixar o torneio entre 19 e 28 de julho. No meio, está a saúde dos jogadores, que encaram uma maratona física, uma viagem transatlântica longa e a troca brusca da grama inglesa para quadras sintéticas na Califórnia.
Três dias para cruzar o mundo e trocar de piso
O ponto central da revolta está na conta simples: a final masculina de Wimbledon termina em 16 de julho; o torneio olímpico de tênis começa em 19 de julho. Entre um e outro, sobram três dias para descansar, voar de Londres a Los Angeles, ajustar fuso horário e se adaptar a uma superfície totalmente diferente.
Em Paris, nesta edição dos Jogos, o intervalo entre Wimbledon e o torneio olímpico chega a 13 dias, com partidas disputadas no saibro de Roland Garros. A comparação deixa ainda mais evidente, para os atletas, o aperto da grade planejada para Los Angeles.
Elena Rybakina, campeã em Wimbledon e hoje uma das principais vozes do circuito, sintetiza o sentimento. “É simplesmente uma loucura saber que serão apenas alguns dias depois de Wimbledon. […] Espero que alguma coisa mude para que seja mais conveniente para todos”, afirma, em entrevista ao jornal britânico The Guardian.
Sabalenka, Swiatek e Medvedev ampliam pressão
A atual líder do ranking da WTA, Aryna Sabalenka, engrossa o coro e destaca o peso simbólico dos Jogos. “Três dias depois da final masculina de Wimbledon é ridículo. E uma Olimpíada é algo enorme, que você disputa uma vez a cada quatro anos”, diz. Ela defende “pelo menos uma semana” de intervalo, lembrando que o corpo já chega ao meio do ano no limite.
Iga Swiatek, ex-número 1 do mundo, afirma que fala sobre o problema há tempo e que agora vê o vestiário mais atento. “No geral, dá para ver que o calendário é uma loucura. Falo sobre isso há anos. […] Será muito difícil para quem jogar a final e depois precisar entrar em uma quadra sintética do outro lado do mundo”, afirma.
Daniil Medvedev admite surpresa ao descobrir as datas planejadas. “Agora que fiquei sabendo, seria ótimo se alguma coisa pudesse ser feita. Você me diz três dias, façam pelo menos seis. Nem seis é bom, mas tentem fazer alguma coisa”, pede o russo, que costuma ir longe em Wimbledon e também mira medalha olímpica.
O francês Patrick Mouratoglou, um dos técnicos mais influentes do circuito, também critica o desenho do calendário. Para treinadores e equipes médicas, o risco de lesões musculares e de queda brusca de rendimento aumenta quando não há tempo para a transição adequada entre pisos e fusos.
Saúde em risco e ameaça de ausências em Los Angeles
A insatisfação não é só retórica. Entre dirigentes de federações e agentes de jogadores, cresce o temor de que tenistas de ponta priorizem Wimbledon e abram mão dos Jogos se o calendário não mudar. A ausência de nomes como Sabalenka, Swiatek, Medvedev ou Rybakina esvaziaria a chave olímpica e afetaria diretamente a audiência global do torneio.
O impacto recai também sobre fisioterapeutas, preparadores físicos e médicos, responsáveis por esticar ao máximo um calendário já inflado por Grand Slams, circuitos da ATP e da WTA e torneios bilionários em piso duro. Em uma temporada que já se estende por quase todo o ano, encaixar um deslocamento de mais de 8 mil quilômetros sem margem de respiro parece, para os atletas, uma decisão alheia à realidade do esforço em quadra.
Organizadores de eventos de tênis temem efeito cascata. Se Los Angeles mantiver o plano com só três dias entre Wimbledon e o torneio olímpico, associações de jogadores podem pressionar por revisões mais amplas do calendário, afetando contratos de transmissão, acordos de patrocínio e até a programação de grandes torneios em piso duro nos Estados Unidos.
COI revê status de russos e bielorrussos em meio à polêmica
Enquanto a discussão sobre datas esquenta, o Conselho Executivo do Comitê Olímpico Internacional abre outro flanco sensível: recomenda, de forma provisória, o fim da suspensão ao Comitê Olímpico Russo e a retirada de restrições a atletas bielorrussos. Desde 2022, russos e bielorrussos competem como neutros, sem bandeira, hino ou representação oficial de seus países.
A eventual mudança pode alterar a composição do torneio de tênis em Los Angeles. Sabalenka, representante de Belarus, e Medvedev, russo, podem voltar a competir com símbolos nacionais, o que adiciona carga política a um evento já pressionado por questões logísticas e de saúde esportiva.
Para o COI, equilibrar o retorno pleno desses atletas e, ao mesmo tempo, responder às críticas sobre o calendário se torna uma equação delicada. Cada ajuste de data interfere em outras modalidades, emissoras e patrocinadores, mas a resistência dos tenistas ganha força à medida que grandes nomes falam em uníssono.
Calendário sob revisão e próxima etapa da disputa
A tendência agora é de intensificação da negociação de bastidores. Associações de jogadores, dirigentes do tênis e representantes do COI discutem alternativas que ampliem o intervalo entre Wimbledon e o torneio olímpico de tênis. A meta mínima defendida pelos atletas é de uma semana, embora muitos considerem ideal algo mais próximo do cenário de Paris, com 13 dias de respiro e adaptação ao piso.
Se os organizadores não alterarem o cronograma, o risco é de que o torneio em Los Angeles tenha um desfile de atletas desgastados, com desempenho abaixo do esperado, ou uma lista de desistências que comprometa o brilho da disputa por medalhas. A forma como essa negociação se resolve também deve influenciar o desenho de futuros calendários, do circuito profissional até grandes eventos, incluindo o Mundial de Seleções e outras competições internacionais.
Neste momento, os olhos do circuito estão divididos entre a grama de Wimbledon e os bastidores que moldam Los Angeles. A forma como o COI reage às críticas de Rybakina, Sabalenka, Swiatek e Medvedev indicará se a voz dos atletas pesa, de fato, na construção do espetáculo esportivo que o mundo vê a cada quatro anos.