Pausas de Rafael Jódar no tênis acendem debate no circuito. Entenda o que aconteceu

Jogador gera controvérsia ao interromper partida para ajustar calçados, causando reação de adversário e debate entre fãs.
Redação NC News
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Rafael Jódar vence Denis Shapovalov por 7/5, 4/6 e 7/5 na segunda rodada do Masters 1000 de Cincinnati, mas sai da quadra cercado por desconfiança. As três pausas para ajustar os calçados, em momentos decisivos, irritam o canadense e alimentam um debate sobre limites da catimba no tênis profissional.

Virada épica em Cincinnati vira caso de conduta

O espanhol de 11 anos no ranking mundial entra em quadra como cabeça de chave 12 e passa por uma montanha-russa emocional. No terceiro set, Shapovalov abre 5/1, tem match point e parece com o jogo controlado. Jódar salva o ponto decisivo e emenda seis games seguidos para fechar a partida.

A reação, por si só, já renderia manchetes. Só que cada pausa para mexer nos tênis alonga o duelo, quebra o ritmo e muda o clima. O canadense reclama em quadra, gesticula, conversa com o árbitro e sai visivelmente irritado após o aperto de mãos na rede. O foco deixa de ser o placar apertado e passa a ser a forma como ele se constrói.

As interrupções não se limitam a reamarrar cadarços. Jódar troca palmilha, mexe na estrutura dos calçados e chega a pedir ajuda ao pai e treinador, sentado na arquibancada. O processo toma tempo, alonga a tensão e reforça a sensação de que, mais do que um problema técnico, há um componente psicológico em jogo.

Gilbert cobra regra, Petchey defende estilo de Jódar

Do lado de fora, a leitura é imediata. Brad Gilbert, ex-número 4 do mundo e hoje treinador e comentarista, usa as redes sociais para exigir reação das autoridades. “Concordo 1000% que isso precisa ser resolvido o mais rápido possível. No máximo uma vez isso pode acontecer em uma partida. Se o seu boné cai duas vezes, você perde o ponto”, dispara.

Gilbert argumenta que a ausência de um limite claro abre espaço para abusos. Na visão dele, se o jogador sabe que não há punição objetiva para pausas ligadas a equipamento, pode usar o recurso em momentos de pressão para esfriar o adversário. O norte-americano defende que ATP e organizadores dos principais torneios estabeleçam tolerância máxima de uma interrupção desse tipo por jogo.

Mark Petchey, ex-treinador de Andy Murray e Emma Raducanu, enxerga a cena por outro ângulo. Para ele, o circuito se acostuma a personalidades domesticadas e reage mal a quem foge do script. “As pessoas querem rivalidades, mas ficam incomodadas quando alguém entra em cena e ousa ser diferente. Espero que Jódar nunca mude seu jeito”, afirma, em defesa aberta ao espanhol.

A divisão de opiniões mostra que o episódio ultrapassa uma simples troca de tênis. De um lado, o medo de transformar o intervalo técnico em arma psicológica. De outro, a defesa de um tênis menos engessado, que aceite manias, rituais e até exageros como parte do espetáculo.

Jódar minimiza polêmica e promete mais pares na bolsa

O próprio Jódar tenta baixar a temperatura logo após deixar a quadra. Em entrevista, ele descreve o episódio como imprevisto técnico, sem qualquer intenção de ganhar vantagem. “São coisas que acontecem, é algo que não posso controlar. Simplesmente aceitei a situação como ela veio. Meus cadarços arrebentaram, então vou me certificar de ter mais tênis novos preparados para a próxima partida caso aconteça novamente”, diz.

O histórico recente, porém, pesa contra essa narrativa de acidente isolado. Problemas com cadarços e desgaste dos calçados acompanham o espanhol nesta temporada de quadras duras na América do Norte. A reincidência alimenta a suspeita de descuido na preparação de material ou, no limite, de uso estratégico de uma vulnerabilidade conhecida.

Os árbitros, por enquanto, lidam caso a caso, com margem ampla de interpretação. Não há um cronômetro específico nem um limite de trocas de calçado, como existe para idas ao banheiro ou atendimentos médicos. A lacuna regulatória deixa nas mãos do juiz de cadeira a decisão de apressar o jogador, aplicar advertências verbais ou simplesmente esperar.

Quem ganha e quem perde com as quebras de ritmo

No jogo contra Shapovalov, as interrupções funcionam como pequenas fraturas no roteiro. O canadense, que lidera por 5/1 no terceiro set e tem match point, vê o ímpeto esfriar. A irritação cresce a cada novo ajuste de cadarço, e o desconforto transparece no corpo e nas expressões faciais.

No tênis, onde a cabeça pesa tanto quanto o braço, essas fissuras mentais costumam custar caro. Quem comanda o placar passa a pensar no que pode dar errado, não no que já deu certo. Quem está atrás ganha segundos preciosos para respirar, reorganizar o plano de jogo e acreditar em uma virada improvável.

Jódar aproveita a brecha com frieza. Salva o match point, pressiona o saque de Shapovalov, encurta pontos quando precisa e alonga outros para testar o emocional do rival. A virada de 5/1 para 7/5 transforma o espanhol em protagonista, mas sob a sombra de uma pergunta incômoda: quanto da vitória vem do tênis, e quanto vem do relógio?

O episódio acende alerta em jogadores, treinadores e organizadores. Se a prática se espalhar, o circuito corre o risco de ver partidas partidas em pedaços por pausas de equipamento difíceis de fiscalizar. A TV perde ritmo, o público se impacienta, o adversário se sente injustiçado e o árbitro fica exposto a críticas de ambos os lados.

Pressão por novas regras e futuro de Jódar em Cincinnati

A tendência imediata é de pressão sobre ATP e organizadores de grandes torneios para detalhar o que pode ou não ser feito durante uma partida quando o problema é o material. Propostas vão de limitar o número de trocas de calçado a aplicar advertências progressivas, com perda de ponto em caso de reincidência.

Autoridades do tênis também discutem a responsabilidade das equipes. Em alto nível, é esperado que um jogador entre em quadra com pares de tênis testados, quebrados no ponto certo, cadarços reforçados e reservas suficientes. O descuido vira, na prática, uma forma de falta profissional, ainda que não prevista formalmente no livro de regras.

Para Jódar, o torneio continua. O espanhol se prepara para enfrentar o chileno Alejandro Tabilo em busca de uma vaga inédita nas oitavas de final em Cincinnati. A campanha, até aqui marcada por uma virada espetacular, ganha um subtexto de fair play que deve acompanhá-lo nas próximas rodadas.

Se repetir o padrão de pausas, o número 11 do mundo provavelmente encontrará árbitros menos tolerantes e rivais mais vocalmente insatisfeitos. Se entrar em quadra com o material em ordem e um jogo limpo de interrupções, terá a chance de deslocar o foco de volta para o que produz com a raquete.

Enquanto o circuito observa, a pergunta permanece sem resposta definitiva: onde termina o direito do jogador de resolver seus problemas em quadra e começa o dever de preservar o ritmo e a integridade da partida?

 

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