Cerco se fecha contra Lulinha: mensagens, nota fiscal suspeita e joias de diamantes entram na mira da PF

Diálogos citados em investigação mencionam empresários com contratos milionários com a União, reuniões com autoridades e repasses financeiros.
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O que era descrito publicamente como uma relação de simples amizade se transformou no centro de umas das investigações mais delicadas que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF). Interceptações telefônicas obtidas pela Polícia Federal (PF) revelam que Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho mais velho do presidente Lula (PT), atuava de forma coordenada com a lobista Roberta Luchsinger em articulações que envolviam empresários com contratos milionários com a União, repasses financeiros e trânsito livre junto à alta cúpula do Palácio do Planalto.

Os diálogos, que integram inquéritos autorizados pelos ministros André Mendonça e Flávio Dino no âmbito da Operação Sem Desconto, mostram pela primeira vez mensagens diretas trocadas entre Lulinha e a lobista. Em uma das conversas mais emblemáticas, datadas de 22 de março de 2024, Roberta afirma ao filho do presidente que os dois trabalhavam em um “nível diferenciado” e projetava os frutos da parceria: “Nosso futuro é a Suíça”.

Roberta Luchsinger é investigada pela Polícia Federal e aparece em diálogos interceptados com Lulinha. Foto: Reprodução
Roberta Luchsinger é investigada pela Polícia Federal e aparece em diálogos interceptados com Lulinha. Foto: Reprodução

A investigação aponta que a proximidade da dupla não se restringia ao campo das ideias. Lulinhas orientava passos, sugeria convocações de autoridades e acompanhava de perto os passos de empresários interessados em portas abertas no governo federal.

A ordem da nota fiscal e as pontes com empresários

Em 24 de julho de 2023, um diálogo interceptado pela PF expõe a dinâmica de funcionamento do grupo. Lulinha solicita a Roberta que convide o ex-ministro da Previdência Carlos Eduardo Gabas para um encontro na Praia do Forte, no litoral baiano. “Aqui todo mundo”, escreveu o filho do presidente. A lobista responde em seguida: “Pronto, já falei com Fernando, com contador, com governador, com secretários, com todo mundo”.

Logo após o alinhamento político, Lulinha dá uma instrução financeira direta à amiga: “Emite a NF pro Cleber”. Roberta reage prontamente: “Já fiz”, recebendo em retorno a comemoração do filho do presidente: “Boaaaaa”.

O “Cleber”, citado na conversa, é o empresário Cleber Ribas, proprietário da 3Structure It Ltda., empresa sediada em Florianópolis que acumulou R$ 85,7 milhões em contratos com o governo federal, a maior parte celebrada durante o atual governo Lula.

Empresário Cleber Ribas é proprietário da 3Structure It, empresa que acumulou contratos milionários com a União. Foto: Reprodução
Empresário Cleber Ribas é proprietário da 3Structure It, empresa que acumulou contratos milionários com a União. Foto: Reprodução

Apenas com o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, a firma fechou um contrato de mais de R$ 42 milhões para sustentação de dados analíticos. A PF já identificou que a 3Structure transferiu ao menos R$ 150 mil para a RL Consultoria, empresa de Roberta Luchsinger, sob a justificativa formal de “prospecção de clientes”.

Dias antes dessa troca de mensagens, em maio de 2023, o próprio Cleber Ribas havia solicitado a presença de Roberta em uma reunião presencial com Lulinha, ocasião em que aproveitou para municiar o grupo com informações estratégicas sobre a troca de comando da Dataprev.

Joias de diamante para o braço direito do presidente

Para garantir a fluidez dos negócios e o acesso desimpedido aos corredores do poder, a Polícia Federal suspeita que Roberta Luchsinger mantinha uma rotina de mimos, pagamento de boletos pessoais e entrega de presentes de alto valor a integrantes do núcleo do governo.

O principal alvo dessa estratégia era Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, então chefe de gabinete e braço direito de Lula, que despachava na antessala do presidente e era responsável pelos principais contatos com ministros.

Em 29 de abril de 2024, às vésperas do Dia das Mães, conversas mostram Marcola e Roberta escolhendo peças de alto padrão junto a uma joalheira. “Vou tentar desenhar na foto para facilitar”, diz o ex-assessor. Roberta responde que a vendedora enviará novas opções e, em seguida, compartilha imagens de um par de brincos e um colar de diamantes. “Boa”, agrade o então homem de confiança do presidente.

Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, ocupou o cargo de chefe de gabinete do presidente Lula. Foto: Evaristo Sá/AFP
Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, ocupou o cargo de chefe de gabinete do presidente Lula. Foto: Evaristo Sá

As investigações também revelam a atuação de outro operador central no esquema: Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como o “Careca do INSS”. Apontado pela PF como pivô do rombo na Previdência Social, Antunes tentava emplacar um contrato milionário no Ministério da Saúde para o fornecimento de cannabis medicinal em larga escala no SUS.

Para abrir as portas da pasta, Antunes recorreu a Roberta Luchsinger e realizou repasses que somaram R$ 1,5 milhão para a lobista. Em uma das transferências bancárias, ele  afirmou a um interlocutor que a verba era destinada ao “filho do rapaz”, uma referência, segundo os investigadores da PF, a Lulinha. As pontes no Ministério da Saúde eram facilitadas por Swedenberger Barbosa, o Berger, então secretário executivo da pasta e figura histórica do PT.

Conflitos internos e o afastamento de antigos aliados

As mensagens revelam ainda que a atuação do grupo gerava atritos com velhos conhecidos da família presidencial. Diálogos analisam o papel de Fernando Bittar, ex-sócio de Lulinha e proprietário formal do sítio de Atibaia (SP), que costumava ser frequentado por Lula.

Em uma das conversas, Roberta alerta Lulinha de que Bittar estaria usando seu nome para tentar fechar um “negócio gigante” na Telebras, estatal onde a lobista também exercia influência.

“Já desmentiu?”, questiona Lulinha.

Roberta tranquiliza o amigo: “Desmenti e falei que não é verdade e que se ele [Bittar] fizer negócio com ele [presidente da Telebras], ele não fará comigo”. Para os investigadores, a mensagem evidencia que Bittar vinha sendo preterido nas operações mais recentes da dupla.

O que dizem os citados

  • Defesa de Fábio Luís Lula da Silva (Lulinha): Os advogados Marco Aurélio de Carvalho e Guilherme Suguimori repudiam a divulgação dos diálogos, classificando o episódio como um “vazamento seletivo e criminoso” com o objetivo de criar “narrativas distorcidas”. A defesa afirmou que Lulinha reside atualmente na Espanha, atua exclusivamente na iniciativa privada em setores sem relação com o governo e vive de forma “digna e modesta”. Os defensores reiteraram a confiança nos órgãos formais de apuração e informaram que irão pedir providências ao STF e ao Ministério da Justiça contra a violação do sigilo funcional do processo.
  • Defesa de Cleber Ribas (3Structure It): Afirmou que não teve acesso integral às mensagens e que a relação entre Cleber e Fábio Luís é de natureza “estritamente pessoal e de amizade”, sem qualquer vínculo comercial. Destacou que os contratos da empresa com a União foram celebrados com transparência, mediante licitação, e que o pagamento de R$ 150 mil à empresa de Roberta Luchsinger refere-se a serviços legítimos de consultoria e prospecção de negócios, devidamente contabilizados e tributados.
  • Defesa de Marco Aurélio Santana Ribeiro (Marcola): Interlocutores da defesa informaram que as joias de diamante custaram R$ 9,2 mil e integram um empréstimo pessoal no valor total de R$ 249 mil concedido por Roberta Luchsinger a Marcola, montante que já teria sido integralmente quitado com juros e correção monetária.
  • Defesa de Roberta Luchsinger: O advogado Roberto Podval informou que não se manifestará sobre o teor das mensagens ou de investigações em virtude do segredo de Justiça imposto ao inquérito.
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