Uma professora, jornalista e pesquisadora de 62 anos denunciou ter sido vítima de racismo dentro de uma padaria em Belo Horizonte. Rosália Diogo, que é pós-doutora em Antropologia afro-brasileira, afirma que foi abordada por funcionários na saída do estabelecimento, mesmo depois de apresentar a nota fiscal das compras.
O episódio aconteceu na noite de domingo (16), depois que Rosália deixou um show no Palácio das Artes e atravessou a rua para fazer compras em um supermercado e padaria da região.
Segundo o relato da professora, a abordagem a deixou emocionalmente abalada. Ela contou que ficou “devastada moralmente e emocionalmente” com o que aconteceu.
Professora diz que apresentou nota fiscal
Rosália contou que entrou no estabelecimento e comprou seis produtos. Entre eles estava uma garrafa de vinho.
Depois de passar pelo caixa e pagar as compras com cartão, ela deixou a padaria.
Já na calçada, quando seguia para deixar o local, a professora afirma que dois fiscais interromperam sua passagem e pediram que ela abrisse a bolsa.
Surpresa com a abordagem, Rosália questionou o motivo da solicitação e se recusou a mostrar o conteúdo da bolsa.
Segundo ela, um dos funcionários afirmou que a teria visto pegar uma garrafa de vinho.
A professora respondeu que realmente havia comprado a bebida e apresentou a nota fiscal da compra.
Ainda conforme o relato, o funcionário teria verificado rapidamente o documento, mas continuado a exigir que ela abrisse a bolsa. Confira o relato feito nas redes sociais:
Viatura da PM passou pelo local
Rosália afirma que, diante da situação, os funcionários chegaram a sinalizar para uma viatura da Polícia Militar que passava pela região.
O veículo, no entanto, não teria parado.
A professora então teria pedido que os funcionários acionassem a PM pelo 190, pois queria que a situação fosse esclarecida oficialmente.
Segundo Rosália, os fiscais decidiram não chamar os policiais e optaram por verificar as imagens das câmeras de segurança do estabelecimento.
Depois de alguns minutos, ela foi liberada.
A professora afirma que, pelo que entendeu, os funcionários teriam consultado as imagens para verificar se havia alguma irregularidade relacionada à compra ou a um possível furto.
Caso foi levado à polícia
Depois do episódio, Rosália procurou orientação jurídica. Mesmo ainda abalada, ela afirma que entrou em contato com um advogado na própria noite de domingo para saber quais providências poderiam ser tomadas.
No dia seguinte, segunda-feira (17), o advogado foi até a casa dela e a acompanhou até uma delegacia. A ocorrência foi registrada e, segundo Rosália, o boletim de ocorrência já está em mãos da defesa.
O advogado também estaria buscando informações junto ao Ministério Público e a outros órgãos para avaliar quais medidas poderão ser adotadas.
Rosália afirma considerar que o episódio configura crime de racismo, mas ressalta que ainda aguarda orientações jurídicas sobre os próximos passos.
Professora fala sobre racismo estrutural
Em um vídeo publicado nas redes sociais, Rosália também falou sobre o racismo estrutural no Brasil. Para ela, situações como a que afirma ter enfrentado não podem ser tratadas como episódios isolados.
A professora lembrou a resistência histórica da população negra e citou figuras como Zumbi dos Palmares, Dandara e Tereza de Benguela.
Segundo Rosália, a sociedade brasileira ainda enfrenta estruturas de racismo que precisam ser combatidas.
Ela também defendeu que denúncias sejam feitas sempre que pessoas negras se sentirem vítimas de discriminação.
“Não vou deixar barato”, diz professora
Rosália afirmou que pretende levar o caso adiante e espera que a situação sirva de referência para outras pessoas que possam passar por situações semelhantes.
Ela também criticou a preparação de funcionários para atender clientes negros e defendeu a realização de cursos de formação e atividades culturais como ferramentas de combate ao racismo.
A professora disse que pretende insistir na responsabilização dos envolvidos.
Padaria diz que afastou funcionários
Procurada sobre o caso, a empresa responsável pelo estabelecimento afirmou que mantém protocolos de atendimento aplicáveis e não tolera qualquer tipo de discriminação.
A empresa também informou que os funcionários envolvidos na abordagem foram afastados enquanto durar a apuração interna.
A manifestação da padaria ocorre enquanto o caso também é analisado pelas autoridades após o registro do boletim de ocorrência.
Quem é Rosália Diogo?
Rosália Diogo é jornalista, pesquisadora e professora aposentada. Aos 62 anos, possui pós-doutorado em Antropologia afro-brasileira.
Ela também atua como curadora do Casarão das Artes Negras e é editora da Revista Canjerê BH.
O caso agora deve ser acompanhado pelas autoridades e pela defesa da professora, que busca esclarecer as circunstâncias da abordagem e avaliar as medidas jurídicas cabíveis.