Ronaldinho Gaúcho volta ao futebol profissional aos 46 anos e escolhe um palco improvável: o modesto Ravenna FC, da terceira divisão italiana, onde será jogador, investidor e novo rosto global do clube.
O brasileiro desembarca hoje em Ravenna, na região da Emília-Romanha, para ser apresentado oficialmente. A parceria inclui contrato para atuar em campo, participação em campanhas de marketing e a aquisição de uma fatia acionária do clube, num arranjo que mistura nostalgia esportiva, negócios e construção de marca.

Projeto de reconstrução encontra ídolo global
O movimento faz parte do plano ambicioso do empresário Ignazio Cipriani, que assumiu o Ravenna em 2024 com a meta declarada de levar o time à elite do Campeonato Italiano. Ele enxerga em Ronaldinho um atalho de visibilidade e credibilidade para um projeto que ainda engatinha.
Cipriani não esconde o peso simbólico da contratação. Para o proprietário, o ex-camisa 10 ultrapassa a função de reforço de elenco e entra como ativo estratégico. “Ronaldinho foi uma inspiração para sua geração e sua presença dará ao Ravenna uma visibilidade impossível de alcançar por meios convencionais”, afirma o dirigente, confiante em atrair patrocinadores e novos investidores para o clube.
Ronaldinho, por sua vez, apresenta a volta aos gramados como parte de uma história pessoal que se cruza com o projeto italiano. Ele destaca a relação com a família que comanda o clube. “Aceitei o convite pela amizade de longa data com a família Cipriani e pela afinidade de ideias com o proprietário do clube”, explica o brasileiro, que se diz disposto a colocar sua imagem e sua experiência a serviço do plano de reconstrução.
Em campo, mas também no conselho
O acordo prevê que Ronaldinho seja inscrito para disputar partidas oficiais da terceira divisão. A estreia, porém, não ocorre já na abertura da temporada, em duelo contra o Reggiana. A quantidade de jogos que ele fará ainda não está definida, o que reforça a ideia de um papel híbrido, mais amplo que os 90 minutos.
O próprio jogador admite que a volta tem um componente afetivo e quase lúdico. “Mal posso esperar para voltar a dançar com a bola e escrever uma nova história junto com Ignazio e toda a família Cipriani. O futebol sempre foi uma fonte de alegria para mim, quero levar o mesmo espírito para o Ravenna”, diz. Internamente, dirigentes não escondem a expectativa de que ele marque ao menos um último gol oficial com a camisa do clube.
Fora de campo, Ronaldinho entra como investidor e acionista, com presença em campanhas publicitárias, eventos internacionais e ações de divulgação da marca. A aposta é que sua imagem, ainda fortíssima no mercado global, funcione como uma vitrine permanente para o Ravenna, hoje praticamente desconhecido fora da Itália.
Um centenário em busca de relevância
Fundado em 1913, o Ravenna Football Club carrega mais de um século de história, sem jamais ter se consolidado entre os grandes do país. O time, de cores vermelha e amarela, manda seus jogos no Estádio Bruno Benelli e viveu seu auge nos anos 1990, quando alcançou a Série B e somou 7 temporadas na segunda divisão até o fim da década seguinte.
Problemas financeiros e administrativos empurraram o clube para baixo na escada do futebol italiano e o afastaram das principais divisões. O retorno à terceira divisão marca o início de uma nova tentativa de reconstrução. Desde que assumiu o controle, Cipriani promete devolver o time, primeiro, à Série B e, em seguida, brigar por um lugar na Série A.
A chegada de um campeão do mundo em 2002, eleito melhor jogador do planeta em 2005 e vencedor da Liga dos Campeões em 2006, dá ao projeto uma dimensão que o Ravenna jamais experimenta. Mesmo afastado de partidas oficiais desde 2015, quando atuou pelo Fluminense, Ronaldinho segue como um dos nomes mais reconhecidos do futebol global e peça cobiçada por marcas e eventos.
Impacto imediato: mídia, turismo e pressão esportiva
O efeito mais visível aparece antes mesmo do primeiro toque na bola. O Ravenna, um clube de terceira divisão, entra no noticiário internacional e ganha espaço em redes sociais, canais esportivos e plataformas de apostas, que passam a olhar para a tabela da categoria com outros olhos.
O entorno da cidade também sente o impacto. A região da Emília-Romanha, tradicional destino turístico pela gastronomia e pelo patrimônio histórico, ganha um atrativo diferente: ver de perto os últimos lampejos de um dos jogadores mais talentosos da história recente. A expectativa é de aumento na procura por ingressos, pacotes de viagem e produtos oficiais.
Dentro de campo, o cenário é menos previsível. Ronaldinho chega com 46 anos e mais de uma década sem ritmo competitivo. A dúvida sobre a contribuição real nos jogos convive com a certeza do peso psicológico no vestiário e na arquibancada. A presença de um ídolo desse porte tende a elevar o nível de cobrança sobre elenco, comissão técnica e diretoria.
Ao mesmo tempo, o movimento pode mudar a percepção sobre a terceira divisão italiana, que costuma viver à margem dos holofotes. Jogos do Ravenna passam a ter maior cobertura, audiências crescem e o campeonato, até então restrito ao interesse regional, entra no radar de um público global, ainda que de forma pontual.
Laboratório para um novo modelo de clube
A parceria entre Ronaldinho e Ravenna também funciona como um teste para um modelo que mistura ídolos aposentados, clubes tradicionais em reconstrução e estratégias de marketing agressivas. Se der certo, a fórmula pode ser replicada em outros mercados, abrindo espaço para ex-jogadores de renome assumirem papéis de sócios-embaixadores em equipes de menor expressão.
O sucesso, porém, depende de execução. A gestão do Ravenna precisa transformar o pico de atenção em receitas recorrentes, ampliar a base de torcedores, fechar acordos comerciais duradouros e, sobretudo, montar um time competitivo. Sem resultado em campo, o risco é que a passagem de Ronaldinho fique restrita a um capítulo folclórico.
Por enquanto, o clima é de entusiasmo. Cipriani fala em novo ciclo e reforça que a presença do brasileiro serve como mensagem a investidores e torcedores. Ronaldinho fala em “nova história” e insiste no discurso de inspiração, dizendo que quer mostrar que “é possível perseguir sonhos” em qualquer fase da vida. As respostas mais concretas virão quando a bola rolar no Estádio Bruno Benelli e a terceira divisão italiana descobrir como é lidar, semana a semana, com o magnetismo de um craque que parecia aposentado para sempre.
Quando Ronaldinho deve estrear pelo Ravenna FC?
Ronaldinho Gaúcho, aos 46 anos, já está em Ravenna e será inscrito para a temporada, mas não estreia na primeira partida contra o Reggiana; a diretoria ainda não define em qual rodada ele entra em campo nem quantos jogos fará, preferindo ajustar sua utilização ao condicionamento físico e às necessidades do time.
Qual será o papel de Ronaldinho fora de campo no Ravenna FC?
Ronaldinho Gaúcho atua como investidor, acionista e embaixador do Ravenna FC, participando de campanhas publicitárias, eventos internacionais e ações de marketing, além de usar sua imagem para atrair patrocinadores, ampliar a base de torcedores e projetar o clube globalmente, em sintonia com o plano de Ignazio Cipriani de levar o time às divisões superiores.