O engenheiro naval Othon Luiz Pinheiro da Silva, referência do programa nuclear da Marinha, participa à distância da visita do presidente Lula ao Centro Industrial Aramar, enquanto a região metropolitana de Curitiba se choca com o assassinato brutal de um idoso de 80 anos e a Marinha dos Estados Unidos inicia o retorno de um porta-aviões esgotado após quase nove meses de missão no Oriente Médio.

Othon reaparece em Aramar e reforça aposta nuclear
Othon, conhecido no meio militar como um dos cérebros por trás da centrífuga nacional que viabiliza o submarino de propulsão nuclear Álvaro Alberto, não tem condições de saúde para viajar a Iperó, no interior paulista. Mesmo assim, faz questão de enviar uma mensagem em vídeo que será exibida na visita presidencial marcada para quarta-feira (19), no coração do projeto nuclear brasileiro.
“Fui convidado e gostei muito! Como não poderia comparecer, me pediram que eu fizesse uma gravação por computador. Consegui fazer! Torço para que essa importante visita seja um sucesso”, afirma o almirante
Lula visita novamente Aramar cercado de altas patentes: o ministro da Defesa, José Mucio Monteiro; o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, Marco Antonio Amaro; o comandante da Marinha, almirante Marcos Sampaio Olsen; além de oficiais como o diretor do Centro de Tecnologia da Marinha em São Paulo, almirante Rabello. A presença conjunta reforça a leitura de que o Planalto trata o programa nuclear como ativo estratégico de soberania.
A ausência física e o peso simbólico do almirante
Othon lembra, no vídeo, visitas anteriores de Lula a Aramar, ainda no primeiro mandato do petista, e cita o apoio do então ministro da Defesa Waldir Pires ao projeto nuclear. Resgata também o papel de outro oficial, o almirante Maximiano, que o encarregou de elaborar o relatório que deu origem ao programa de submarinos de propulsão nuclear, ao exigir que o país dominasse o ciclo do combustível.
Naquela época, o Brasil assistia à negativa de fornecimento de combustível nuclear a outros países, como o Canadá, o que reforçava o temor de embargo ainda mais duro contra projetos brasileiros. Othon relata que recebeu a missão de montar um esforço nacional, com intensa participação da comunidade científica, unindo engenheiros, físicos e técnicos “escolhidos, sem influência ou viés político, apenas por sua capacidade potencial”.
A reaparição pública de Othon, mesmo pela tela, recoloca seu nome no centro de um debate sensível: o da autonomia tecnológica em defesa. A visita ocorre em momento em que o governo associa, de forma explícita, investimentos na indústria militar à geração de empregos e à redução da dependência externa, abrindo espaço para novos contratos e parcerias com a indústria pesada e o setor de tecnologia.
Crime brutal na Casa Rosa instala medo em Almirante Tamandaré
Enquanto Brasília reforça a aposta em tecnologia de defesa, uma comunidade na Região Metropolitana de Curitiba enfrenta o horror. Na madrugada de sexta-feira (21), o corpo de Pedro Sérgio Trevisan, de 80 anos, é encontrado morto e queimado dentro da histórica Casa Rosa, no bairro Marmeleiro, em Almirante Tamandaré.
A residência, ponto conhecido no bairro, é invadida durante a noite. A vítima é assassinada e, depois, os autores ateiam fogo apenas no corpo. As chamas não se espalham pela casa, mas deixam marcas de violência extrema que chocam vizinhos e familiares.
“Foi horrível! A gente não espera. Imagina a pessoa fazer uma coisa dessas. A gente que passou por isso, sabe a dor, principalmente dos filhos, da família”,
desabafa a moradora Rosemilda da Rosa, conhecida da vítima. “Chegar ali e encontrar o pai naquela situação é triste. A gente fica com medo. Todo mundo fica com medo.”
Investigação tenta reconstituir invasão e morte
A Polícia Civil do Paraná trabalha com a hipótese de um crime premeditado, com possível tentativa de ocultar provas pelo fogo. Peritos recolhem vestígios na casa e analisam objetos como uma motosserra, uma roçadeira e um botijão de gás, para verificar se houve furto ou se foram usados na ação criminosa.
Equipes também buscam imagens de câmeras de segurança e ouvem moradores, enquanto investigadores tentam refazer a rotina de Pedro Sérgio nos dias anteriores. O idoso havia completado 80 anos na própria quarta-feira (19) e era figura conhecida no bairro, o que aumenta a sensação de vulnerabilidade entre vizinhos acostumados a vê-lo circulando pela região.
O caso pressiona autoridades locais por respostas rápidas. A forma como o corpo é encontrado, queimado em um imóvel histórico, amplia o impacto simbólico da violência e alimenta o temor de que criminosos ajam com brutalidade crescente em áreas residenciais da periferia de Curitiba.
Porta-aviões americano volta para casa após missão exaustiva
Em outra frente, a tensão se dá mar adentro. O porta-aviões Abraham Lincoln, um dos maiores navios da Marinha dos Estados Unidos, inicia na sexta-feira (21) a viagem de cerca de um mês de volta a San Diego, na costa do Pacífico americano, depois de quase nove meses em operação no Oriente Médio.
O navio percorre aproximadamente 21 mil quilômetros até a base de origem. A bordo, milhares de militares tentam processar o fim de uma missão marcada por prorrogações sucessivas e condições de vida cada vez mais difíceis. Para muitos, o retorno significa enfim cravar uma data concreta para rever a família.
O contra-almirante da reserva Andrew Loiselle descreve o impacto psicológico dos adiamentos. “Antes disso, eles recebiam a informação de que ‘voltariam em tal data’, e então essa data era prorrogada por algumas semanas ou talvez um mês; cada prorrogação… representava uma espécie de montanha-russa emocional para a tripulação ao tentar descobrir quando realmente voltariam para casa e para suas famílias”, relata.
Fadiga em alto-mar e pressão por mudanças
Durante a missão no Oriente Médio, o Abraham Lincoln enfrenta problemas logísticos que atingem diretamente o cotidiano de bordo. Em vez de contar com a estrutura habitual no Bahrein, o navio passa a depender de suprimentos vindos de Diego Garcia, no oceano Índico, o que reduz a frequência de abastecimento e dificulta a manutenção.
Relatos de banheiros interditados, falta de água quente e limitações em serviços básicos alimentam queixas de militares e famílias. A expectativa é que, na rota de volta, a tripulação receba correspondências e encomendas com mais regularidade, o que ajuda a recuperar o moral após meses de desgaste emocional e físico.
A experiência do Abraham Lincoln entra no radar de planejadores militares em Washington. A combinação de estresse prolongado, infraestrutura comprometida e prorrogações de missão tende a alimentar discussões sobre a forma como os Estados Unidos mantêm grandes navios de guerra em áreas de conflito por períodos tão longos.
No Brasil, o contraste é evidente. Enquanto a visita de Lula a Aramar tenta projetar um futuro de alta tecnologia e autonomia estratégica, o assassinato de Pedro Sérgio expõe a fragilidade da segurança cotidiana e a investigação policial ainda em curso. No plano internacional, o retorno do porta-aviões americano sinaliza os limites humanos de operações militares prolongadas, num momento em que crises no Oriente Médio continuam a exigir presença constante de grandes frotas.
Os próximos dias devem trazer desdobramentos concretos nos três fronts. Em Iperó, o governo tende a anunciar novos compromissos com o programa nuclear e com a indústria nacional. Em Almirante Tamandaré, a Polícia Civil corre contra o tempo para identificar e prender os responsáveis pelo crime na Casa Rosa. No mar, cada dia de navegação aproxima a tripulação do Abraham Lincoln do reencontro com suas famílias e, possivelmente, de uma revisão das regras que regem missões tão extensas.
Quem é o almirante Othon e qual sua participação na visita de Lula a Aramar?
Othon Luiz Pinheiro da Silva é engenheiro naval da Marinha, pioneiro no desenvolvimento da centrífuga nacional que viabiliza o programa nuclear e o submarino Álvaro Alberto; por problemas de saúde, ele não vai a Aramar, mas participa por vídeo, com mensagem exibida durante a visita de Lula ao Centro Industrial Aramar.
Qual foi o papel do contra-almirante no retorno do porta-aviões Abraham Lincoln?
O contra-almirante da reserva Andrew Loiselle atua como voz pública para explicar o impacto humano da missão do porta-aviões Abraham Lincoln, detalhando as sucessivas prorrogações do retorno, o efeito de “montanha-russa emocional” sobre a tripulação e os desafios logísticos e de bem-estar vividos a bordo durante quase nove meses no Oriente Médio.
Qual a importância da patente de almirante na Marinha do Brasil?
A patente de almirante na Marinha do Brasil representa o topo da carreira militar na Força Naval, reunindo oficiais responsáveis por decisões estratégicas, comando de grandes estruturas, programas de longo prazo, como o nuclear em Aramar, e aconselhamento direto ao poder político sobre defesa, orçamento, logística e emprego do poder naval no país.
Quem ocupa cargo acima do almirante na hierarquia da Marinha?
Na hierarquia da Marinha do Brasil, acima dos demais almirantes está o comandante da Marinha, oficial de topo que coordena toda a força naval, define prioridades estratégicas, supervisiona programas como submarinos e navios de superfície e dialoga com o Ministério da Defesa e o presidente sobre emprego e modernização dos meios militares.