Para uma parcela da Geração Z, controlar o orçamento deixou de ser apenas uma recomendação de educação financeira. Virou uma necessidade. Com moradia, alimentação, transporte e outras despesas cotidianas cada vez mais pesando no bolso, jovens estão revendo hábitos de consumo, cortando gastos considerados supérfluos e tentando acompanhar de perto até os valores aparentemente pequenos.
Uma pesquisa global da Deloitte ajuda a dimensionar esse cenário. Em 2025, 48% dos integrantes da Geração Z disseram não se sentir financeiramente seguros, contra 30% em 2024. Mais da metade também afirmou viver de salário em salário, enquanto mais de um terço relatou dificuldade para pagar as despesas mensais. O levantamento ouviu mais de 23 mil pessoas em 44 países.
Nos Estados Unidos, outro estudo encontrou comportamento semelhante. Segundo o Bank of America, 64% dos jovens reduziram despesas nos 12 meses anteriores à pesquisa. Entre eles, 41% diminuíram as idas a restaurantes e 23% passaram a buscar supermercados mais baratos. Para 51%, o custo elevado de vida aparece como uma barreira para alcançar os próprios objetivos financeiros.
O problema não está apenas em gastar menos. Está também na dificuldade de construir uma margem de segurança.
O levantamento do Bank of America mostra que 55% da Geração Z não possui uma reserva capaz de cobrir três meses de despesas. Outros 53% afirmam não ganhar o suficiente para manter o estilo de vida que desejam.
Pequenos gastos que viram uma grande conta
A produtora Maria Fernanda sabe disso na prática. Ela admite que tem dificuldade para controlar os gastos, mas tenta cortar aquilo que considera desnecessário, principalmente compras por impulso e algumas despesas com alimentação.
Segundo Maria, o desafio é identificar os gastos que parecem pequenos no momento da compra, mas acabam se acumulando ao longo do mês. No caso dela, o transporte por aplicativo é um dos principais exemplos.
“Eu confesso que eu sou bastante gastona, então eu tento ao máximo reduzir os gastos mais inúteis, de coisas mais fúteis, um produto de beleza ou comida que de repente não precisava, mas é bastante difícil. E o aplicativo de carros pesa muito no meu orçamento porque parece que está cada vez mais caro. De 20 em 20, acaba que gasta muito dinheiro.”
Maria conta que reconhece que poderia economizar mais utilizando o transporte público, mas a praticidade dos aplicativos acaba pesando na decisão. O problema é que, mesmo sabendo onde poderia cortar, nem sempre é fácil mudar o hábito. O conforto continua falando mais alto, enquanto a conta chega no fim do mês.

Inflação reduziu a margem para errar
A situação relatada por Maria não pode ser analisada apenas como uma questão de disciplina financeira. Para o consultor financeiro, Igor Dutra, o aumento dos preços nos últimos anos reduziu o espaço disponível no orçamento de quem está começando a vida adulta.
Segundo o especialista, a inflação acumulada no período analisado ajuda a explicar por que muitos jovens sentem que o salário perdeu capacidade de acompanhar as despesas. Na avaliação apresentada por Igor, o IPCA acumulou cerca de 42% entre meados de 2020 e 2026.
“O primeiro índice analisado para a gente entender essa dificuldade na vida financeira da Geração Z foi o IPCA, que é o índice oficial de inflação aqui do nosso país. E esse índice nos trouxe um resultado bem alarmante. De meados de 2020, no período da pandemia até 2026, a inflação acumulada foi de 42%. Aí você faz um exercício: será que de 2020 até hoje o salário teve um reajuste de mais de 42%?”
O questionamento ajuda a explicar uma sensação comum entre os jovens: mesmo quando existe renda, o dinheiro parece desaparecer mais rapidamente. E os maiores problemas estão justamente em despesas que não podem ser simplesmente eliminadas.

Aluguel é algo que pesa no bolso
João Lucas, de 18 anos, enfrenta uma dificuldade ainda maior: a moradia. Ele se mudou recentemente e passou a sentir diretamente o peso do aluguel. Além da casa, o orçamento precisa comportar faculdade, supermercado e outras despesas básicas.
Segundo o estudante, controlar o dinheiro começa pela tentativa de comprar somente o que considera realmente necessário. Mesmo assim, a moradia continua sendo o gasto que mais compromete o orçamento.
“Eu sempre tento controlar, comprar só o essencial, porque a gente vê que as coisas estão cada vez mais caras. Acho que, sem dúvidas, a moradia é o que mais pesa. A questão do aluguel, ainda mais que eu não sou daqui e me mudei recentemente, então o aluguel é o que mais pesa. Também tem a faculdade e tudo que a gente precisa comprar para o mercado.”
Para João, o problema fica ainda mais evidente nas regiões onde a procura por imóveis é maior.
“Acho que é a moradia. A moradia está cada vez mais cara, o aluguel, principalmente nas regiões mais movimentadas. O aluguel está bem caro e acaba sendo uma das despesas que mais pesam hoje no bolso.”
A experiência dele ajuda a mostrar que, para quem está começando a vida adulta, não basta controlar gastos com lazer ou consumo. Uma única despesa essencial pode consumir uma parcela significativa da renda.
Aluguel dispara e muda as contas
O peso da moradia também aparece na análise do consultor financeiro Igor Dutra.
Segundo o especialista, os indicadores do mercado imobiliário mostram uma forte valorização no período analisado. Para quem não tem condições de comprar um imóvel, o aluguel também passou a representar uma pressão importante sobre o orçamento.
“O mesmo período do IPCA foi analisado de 2020 até 2026. Para uma pessoa comprar um imóvel nesse período, o preço foi reajustado em mais de 40%. Mas você pode estar se perguntando: eu não tenho a intenção de comprar um imóvel, quero apenas alugar. Nós temos um índice também que retrata a realidade dos aluguéis, que é o FipeZAP de locação. Só que esse índice, de 2020 até 2026, subiu mais de 80%.”
O impacto é direto. Quanto maior a parcela da renda comprometida com moradia, menor é a capacidade de guardar dinheiro, investir ou lidar com uma emergência. É justamente por isso que a realidade de João se conecta ao cenário apontado pelas pesquisas internacionais.
A reserva financeira virou um desafio
A margem para imprevistos é pequena para uma parcela significativa da Geração Z. Segundo o Bank of America, 55% dos jovens não possuem uma reserva suficiente para cobrir três meses de despesas. Além disso, 53% afirmam não ganhar o suficiente para manter o padrão de vida que desejam.
Em outras palavras, mesmo quando existe preocupação em economizar, muitas vezes sobra pouco para construir uma reserva.
Maria Fernanda também sente essa dificuldade. Ela tenta separar algum dinheiro todos os meses, principalmente pensando em projetos futuros, mas admite que o processo acontece lentamente.
Segundo a produtora, a tentativa de economizar existe, mas o aumento das despesas básicas dificulta a formação de uma reserva consistente. A estratégia acaba sendo guardar pequenas quantias sempre que possível.
“Eu tento manter essa reserva, porque acho que é o ideal, economizar para projetos futuros que exijam um pouco mais de dinheiro. Mas é bastante complicado, até porque parece que tudo hoje em dia está muito mais caro e não tem muito para onde correr. Então, de pouquinho em pouquinho, a gente vai economizando, mas claro que não é o ideal.”
Até a comida entrou na conta
Outra despesa difícil de escapar é a alimentação. Mesmo quem reduz restaurantes, delivery e compras por impulso continua precisando abastecer a casa. E, segundo Igor Dutra, esse também foi um dos pontos que mais chamaram atenção na análise do período.
Segundo o especialista, o aumento dos preços dos alimentos dentro de casa tornou ainda mais difícil encontrar espaço para economizar. Quando supermercado e alimentação consomem mais renda, pequenas despesas passam a ter um impacto ainda maior no orçamento.
“Às vezes a gente até acha que é besteira economizar num cafezinho, num almoço ou num delivery. Só que outro índice que surpreendeu muito para cima nesse período de 2020 a 2026 foi a inflação de alimentos dentro de casa, que subiu mais de 60%. Então a vida da Geração Z está cada vez mais complicada, porque o custo de vida subiu muito e o salário não conseguiu acompanhar na mesma velocidade.”
O resultado é uma mudança de comportamento.
A pesquisa do Bank of America mostra que 64% dos jovens reduziram despesas, enquanto 41% diminuíram os gastos com restaurantes e 23% passaram a buscar supermercados mais baratos.
O corte, portanto, não acontece apenas em grandes compras.
Ele aparece no café, na corrida de aplicativo, na refeição fora de casa, na marca escolhida no supermercado e até naquele gasto que parecia pequeno demais para entrar na planilha.
O dinheiro precisa ficar visível
Para Igor Dutra, uma das formas de enfrentar esse cenário é transformar o orçamento em algo concreto.
Segundo o consultor, controlar as finanças apenas mentalmente pode esconder gastos que, quando somados, representam uma parcela importante da renda. A recomendação é registrar tudo o que entra e tudo o que sai, tornando o orçamento visual e permitindo identificar os pontos em que o dinheiro está escapando.
“Um controle de gastos rigoroso, planilhado, sabendo tudo o que você recebe e tudo o que você gasta, mas não na cabeça. Tudo ali organizado, tudo visível, palpável. Para a Geração Z, o que eu posso dar de conselho é ter isso visualmente, para enxergar para onde o seu dinheiro pode estar indo para o ralo.”
Educação Financeira desde cedo
Nascida em 2010, Malu Lira é escritora, palestrante e influencer com foco em educação financeira para crianças e jovens. Com uma linguagem voltada principalmente para o público jovem, Malu defende que aprender a lidar com o dinheiro desde cedo é parte importante da construção de um futuro mais seguro.
Mas, para ela, educação financeira não significa apenas aprender a cortar gastos. O desafio também passa por buscar melhores oportunidades e aumentar a renda, sem deixar de cuidar do dinheiro que já está disponível.
“É claro, apenas administrar aquilo que você tem, tem do pouco, não é fazer você aumentar de renda. E para isso a gente precisa entender que não é uma coisa ou outra, é uma combinação de tudo…”
Entenda o contexto
A Geração Z entrou no mercado de trabalho e na vida adulta em um período marcado por mudanças econômicas importantes. Para muitos, o desafio não é simplesmente aprender a gastar melhor, mas conseguir construir patrimônio e segurança financeira enquanto despesas fundamentais ocupam uma parcela cada vez maior da renda.
A pesquisa global da Deloitte mostrou que 48% da Geração Z não se sentia financeiramente segura em 2025, um salto em relação aos 30% registrados no ano anterior.
Nos Estados Unidos, o Bank of America identificou que mais da metade dos jovens não possui uma reserva suficiente para três meses de despesas.
Na prática, isso significa que uma emergência pode obrigar o jovem a recorrer a crédito, reduzir ainda mais o consumo ou adiar planos.