A Polícia Federal (PF) avançou nas investigações sobre o financiamento do filme “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro, e agora pretende seguir o caminho do dinheiro relacionado à produção.
A investigação ganhou novos elementos depois que o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou o compartilhamento de documentos, dados e materiais apreendidos pela Polícia Civil de São Paulo durante uma operação realizada em junho. Entre os arquivos que poderão ser analisados pelos investigadores está uma planilha relacionada à produção do filme, que pode ajudar a esclarecer a movimentação financeira da obra.
A PF investiga se recursos de emendas parlamentares podem ter sido utilizados de forma irregular para financiar o longa. A análise dos documentos apreendidos deverá permitir aos investigadores cruzar informações sobre pagamentos, empresas, contratos e possíveis repasses.
Planilha pode revelar rota dos recursos
O interesse da PF está justamente em reconstruir a trajetória do dinheiro.
A partir dos dados obtidos na operação, os investigadores deverão verificar quem recebeu os recursos, de onde vieram os valores e para onde eles foram destinados.
A decisão de Dino permite que a PF tenha acesso aos dados brutos extraídos de celulares e computadores, documentos apreendidos e relatórios produzidos pela Polícia Civil. Também foi autorizada a utilização dos registros relacionados à cadeia de custódia do material.
O objetivo é identificar eventuais conexões entre os recursos investigados e a produção de “Dark Horse”.
A investigação federal tem foco diferente da apuração conduzida em São Paulo, mas os materiais apreendidos podem ajudar a cruzar as duas frentes.
Operação já havia mirado produtora do filme
A Polícia Civil realizou, em junho, a Operação Wi-Fi, que teve entre os alvos o Instituto Conhecer Brasil (ICB), ligado à empresária Karina Ferreira da Gama, também associada à produtora Go Up Entertainment, responsável pelo filme.
A investigação paulista apura suspeitas de irregularidades em um contrato milionário relacionado à instalação de pontos de internet gratuita. Os investigadores também analisam se recursos públicos poderiam ter sido desviados ou utilizados para financiar a produção cinematográfica.
O contrato investigado originalmente envolvia cerca de R$ 108 milhões por ano. Posteriormente, o valor chegou a ser ampliado, segundo documentos analisados na investigação.
Agora, parte dos elementos recolhidos nessa operação será incorporada à investigação conduzida pela PF.
PF também investiga emendas parlamentares
A investigação federal busca esclarecer se emendas parlamentares destinadas a entidades relacionadas à produtora tiveram alguma ligação com o financiamento de “Dark Horse”.
Entre os parlamentares citados nas apurações estão Mário Frias, Bia Kicis e Marcos Pollon, que negam irregularidades e afirmam não haver relação entre os recursos destinados por meio de emendas e a produção do filme.
O caso ganhou ainda mais repercussão depois que veio a público um áudio envolvendo o senador Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro.
Na gravação, Flávio aparece solicitando recursos para a produção do filme. O valor mencionado nas investigações chegou a R$ 61 milhões. O senador reconheceu posteriormente a negociação e afirmou que se tratava de um patrocínio privado, negando irregularidades.
A PF, porém, quer saber se o dinheiro efetivamente foi utilizado no filme e qual foi a origem e o destino dos valores.
O que a PF quer descobrir
A investigação agora entra em uma etapa essencial: rastrear a movimentação financeira.
Os investigadores deverão cruzar a planilha e outros documentos com dados bancários, contratos, notas fiscais, registros de empresas e informações encontradas nos dispositivos apreendidos.
A pergunta central é simples, mas pode ter consequências importantes:
de onde veio o dinheiro usado para produzir “Dark Horse” e para onde ele foi depois de entrar no circuito financeiro da produção?
A partir dos dados apreendidos, a PF poderá verificar se os valores declarados como financiamento privado correspondem aos pagamentos efetivamente realizados e se houve recursos públicos envolvidos na cadeia financeira.
Filme ainda está no centro de uma disputa política
“Dark Horse” é uma produção ficcional inspirada na trajetória de Jair Bolsonaro e tem provocado forte repercussão política antes mesmo de sua estreia.
A produção recebeu recentemente registro da Agência Nacional do Cinema (Ancine), passo necessário para sua circulação no Brasil. O longa ainda é alvo de questionamentos relacionados à própria produção e ao financiamento.
Enquanto as investigações avançam, a produtora nega irregularidades e afirma que o filme teve custo de aproximadamente R$ 75 milhões. A PF agora terá acesso aos materiais que podem ajudar a verificar essa versão.
Mais do que descobrir quanto custou o filme, a investigação pretende reconstruir a cadeia financeira que tornou a produção possível.
Entenda o contexto
A Polícia Federal investiga suspeitas relacionadas ao financiamento do filme “Dark Horse”, produção sobre a trajetória de Jair Bolsonaro. Uma das linhas de apuração busca descobrir se recursos de emendas parlamentares foram utilizados irregularmente na produção.
Paralelamente, a Polícia Civil de São Paulo investiga possíveis irregularidades envolvendo o Instituto Conhecer Brasil, ligado à produtora do filme, em um contrato milionário para fornecimento de internet gratuita.
Após pedido da PF, o ministro Flávio Dino autorizou o compartilhamento dos materiais apreendidos pela polícia paulista, incluindo documentos, dados extraídos de celulares e computadores, relatórios e registros da cadeia de custódia. Entre os elementos que interessam aos investigadores está uma planilha relacionada ao filme, que pode ajudar a reconstruir a movimentação financeira da produção.
A PF também analisa a origem e o destino de valores relacionados a um suposto aporte de R$ 61 milhões negociado por Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro. Os envolvidos negam irregularidades, e as investigações ainda estão em andamento.