Tim Curry, ator britânico que se tornou um dos grandes ícones do cinema cult, do teatro musical e da televisão, morreu aos 80 anos na noite de terça-feira (25), em sua casa em Los Angeles, nos Estados Unidos. A morte foi confirmada pelo empresário de longa data do artista. A causa não foi divulgada.
Conhecido principalmente por interpretar Dr. Frank-N-Furter em “The Rocky Horror Picture Show” e o palhaço Pennywise na minissérie “It: Uma Obra-Prima do Medo”, Curry construiu uma carreira que atravessou teatro, cinema, televisão e dublagem por quase seis décadas.
Do teatro ao fenômeno “Rocky Horror”
Nascido em 1946, em Grappenhall, na Inglaterra, Tim Curry estudou teatro e inglês na Universidade de Birmingham antes de iniciar a carreira profissional nos palcos. Em 1968, integrou a primeira produção londrina de “Hair”, musical no qual conheceu Richard O’Brien.
O encontro seria decisivo. O’Brien criou “The Rocky Horror Show” e escalou Curry para interpretar Dr. Frank-N-Furter, personagem que se tornaria a grande marca de sua carreira.

A peça estreou em 1973 e, dois anos depois, chegou ao cinema com “The Rocky Horror Picture Show”. Curry repetiu o papel do cientista excêntrico na adaptação e ajudou a transformar o filme em um dos maiores fenômenos cult da história do cinema.
O longa ganhou força especialmente nas sessões da meia-noite, com espectadores fantasiados, participações da plateia e falas repetidas de memória. Décadas depois, Frank-N-Furter continuaria sendo o personagem mais associado ao ator.
Pennywise, vilões e personagens inesquecíveis
Depois de “Rocky Horror”, Curry construiu uma carreira marcada por personagens extravagantes e frequentemente ameaçadores.
Em 1985, interpretou o Lorde das Trevas em “A Lenda”, de Ridley Scott, praticamente escondido sob uma caracterização pesada que transformava sua aparência. Cinco anos depois, assumiu outro de seus papéis mais conhecidos: Pennywise, o palhaço assassino da minissérie televisiva “It”, baseada no romance de Stephen King.
Curry também mostrou seu lado cômico em filmes como “Esqueceram de Mim 2: Perdido em Nova York”, no qual interpretou o gerente do hotel onde Kevin McCallister se hospeda.

Sua filmografia ainda inclui trabalhos como “Clue — O Mistério das Sete Chaves”, “Muppets: O Tesouro Perdido”, “Annie” e “Todo Mundo em Pânico 2”, além de participações em produções para televisão e animações.
Uma carreira que nunca abandonou o palco
Apesar da fama conquistada no cinema, Curry manteve uma relação estreita com o teatro.
Na Broadway, interpretou personagens em produções como “Amadeus”, “My Favorite Year” e “Spamalot”, trabalho pelo qual recebeu uma das três indicações ao Tony Award de sua carreira. Também teve uma trajetória importante no teatro britânico.
O ator recebeu ainda indicações ao Laurence Olivier Award e acumulou trabalhos em diferentes gêneros, do drama clássico ao musical e à comédia.
Essa versatilidade talvez seja a característica mais marcante de sua carreira. Curry podia ser ameaçador, grotesco, elegante ou completamente cômico sem perder a personalidade que fazia sua voz e sua presença imediatamente reconhecíveis.

AVC mudou carreira, mas não o afastou da atuação
Em 2012, Tim Curry sofreu um grave acidente vascular cerebral que comprometeu sua mobilidade. A partir de então, passou a utilizar cadeira de rodas e reduziu drasticamente sua presença em produções que exigiam atuação física.
Mesmo assim, o ator continuou trabalhando principalmente com dublagem. Sua voz apareceu em animações, séries e videogames, permitindo que permanecesse profissionalmente ativo mesmo após as limitações provocadas pelo AVC.
Em 2016, Curry também participou da nova versão televisiva de “The Rocky Horror Picture Show”, desta vez como o narrador, em uma espécie de retorno simbólico ao personagem que havia definido sua carreira.
Em 2025, lançou a autobiografia “Vagabond”, na qual revisitou sua trajetória profissional e falou sobre as mudanças provocadas pelo AVC.

Legado de Tim Curry atravessa gerações
A morte de Tim Curry encerra uma das carreiras mais singulares da cultura pop britânica. Poucos atores conseguiram transitar com tamanha naturalidade entre o teatro musical, o cinema de terror, a fantasia, a comédia e a dublagem.
Frank-N-Furter transformou Curry em ícone do cinema cult. Pennywise fez dele uma referência do terror televisivo. O Lorde das Trevas mostrou sua capacidade de desaparecer sob uma caracterização monstruosa, enquanto seus papéis cômicos revelaram uma faceta completamente diferente do intérprete.
Mais do que um ator de personagens extravagantes, Curry construiu uma carreira baseada na coragem de interpretar figuras que outros poderiam considerar excessivas, estranhas ou difíceis de enquadrar.
Seu legado permanece justamente nessa liberdade. Tim Curry nunca precisou caber em um único gênero — e talvez seja essa a razão pela qual seu trabalho continua sendo descoberto por novas gerações.