Eles entregam tudo, menos o próprio tempo: a vida na corrida dos entregadores

Com novos aplicativos disputando espaço e bancos ampliando o crédito para quem trabalha nas ruas, o mercado de entregas vive uma nova fase de expansão e coloca cada vez mais trabalhadores sobre duas rodas.
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O mercado de delivery brasileiro vive uma constante expansão. A chegada de novos aplicativos, a disputa cada vez mais acirrada pelo consumidor e o avanço de programas de financiamento colocam o setor de entregas no centro da economia urbana.

A competição ganhou força com a entrada de empresas como 99Food e Keeta, que passaram a disputar espaço com plataformas já consolidadas, como iFood e Rappi. A movimentação aumenta a disputa por consumidores, restaurantes e entregadores, enquanto as empresas ampliam investimentos para conquistar espaço em um mercado de grande escala.

O crescimento também aparece fora dos aplicativos. Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal firmaram parcerias com o iFood para facilitar o financiamento de motos e bicicletas elétricas para entregadores. O movimento reforça a importância da atividade para uma economia cada vez mais dependente da mobilidade urbana, de restaurantes e adegas a bancos e agências de comunicação.

 

 

Oferta x demanda

A lógica por trás dessa expansão é simples: quanto maior o número de pedidos e quanto mais plataformas disputam espaço, maior é a necessidade de entregadores. A entrada de novos concorrentes não representa apenas uma guerra comercial entre aplicativos, mas também uma disputa por mão de obra.

O mercado, porém, ainda é fortemente concentrado. O iFood permanece como principal plataforma de delivery de refeições no país, enquanto 99Food, Rappi e Keeta tentam ampliar sua participação. A chegada de novos concorrentes modifica o equilíbrio do setor e cria uma corrida simultânea por restaurantes, consumidores e trabalhadores.

Essa disputa também cria incentivos para ampliar a capacidade de trabalho de quem já está nas ruas. O Banco do Brasil, por exemplo, já havia desembolsado R$ 17,1 milhões em financiamentos desde o fim de julho por meio de linhas voltadas a motociclistas e ciclistas que atuam com entregas. O programa permite financiar até 100% do valor de veículos novos, com prazo de até 48 meses.

Banco do Brasil desembolsou R$ 17,1 milhões em financiamentos para motociclistas e ciclistas que atuam com entregas. | Foto: Reprodução

A Caixa seguiu o mesmo caminho e passou a oferecer financiamentos de até R$ 30 mil para entregadores parceiros do iFood comprarem motos e bicicletas elétricas. A análise de crédito pode utilizar o histórico de rendimentos obtido na própria plataforma, reduzindo a necessidade de comprovações manuais de renda.

Na prática, o movimento revela um ciclo que tende a se retroalimentar: mais consumidores usando o delivery aumentam a demanda por entregas; mais plataformas disputando esse mercado ampliam a necessidade de trabalhadores; e a oferta de crédito facilita a entrada ou a permanência de novos profissionais na atividade. Enquanto isso, empresas ampliam seus negócios e bancos encontram no financiamento outra frente de receita.

Caixa seguiu o mesmo caminho e investiu 30 mil para financiamentos de moto e bikes elétricas | Foto: Reprodução

Mas o que fica evidente de fato é que, para a máquina girar, as rodas também precisam estar girando. Com o aumento do consumo em aplicativos, o delivery se torna parte essencial de cada vez mais negócios. Mas qual é o real lucro de quem está na ponta dessa cadeia?

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Mais entregadores entram na corrida

O crescimento do delivery também ampliou o número de trabalhadores nas ruas. Um estudo do Cebrap divulgado pelo iFood aponta aumento de 18% na quantidade de entregadores, mostrando que a atividade continua atraindo pessoas em busca de renda e flexibilidade.

A expansão acompanha o próprio funcionamento das plataformas. Quanto maior a demanda por pedidos, maior precisa ser a disponibilidade de entregadores para atender aos horários de pico e manter os prazos prometidos ao consumidor. Diferentemente de uma empresa tradicional, os aplicativos conseguem ampliar rapidamente essa força de trabalho conforme a necessidade.

Para Jailton, entregador que trabalha há cerca de duas décadas sobre duas rodas, a possibilidade de ter controle sobre a própria rotina foi justamente um dos principais motivos que o levaram à profissão. Quando decidiu trabalhar como motoboy, ele também acreditava que as condições da atividade poderiam melhorar com o tempo.

“O que me levou a trabalhar como motoboy foi a liberdade. E tinha boas promessas também, de que as coisas iam melhorar cada vez mais no futuro.”

Jailton é entregador e trabalha no ramo há mais de vinte anos | Foto: NC News

A flexibilidade continua sendo um dos principais atrativos da atividade. O trabalhador pode escolher quando se conectar e, em muitos casos, utilizar diferentes plataformas. Mas essa liberdade também coloca sobre ele a responsabilidade de definir quanto precisa trabalhar para alcançar determinada renda.

Mesmo diante das dificuldades, Jailton ainda considera a autonomia um dos pontos positivos do trabalho por aplicativo. Para ele, a possibilidade de definir os próprios horários permite adaptar a atividade às necessidades de cada trabalhador.

“Quanto aos aplicativos, eu acho que na autonomia é bom, porque cada um trabalha no seu tempo, faz o seu salário. Cada um trabalha do jeito que quer, entra no horário que quer, sai no horário que quer. Nesse ponto, eu acho que é bacana.”

Quando a autonomia encontra a competição

A disputa entre as plataformas torna essa equação mais complexa. Com empresas buscando oferecer entregas mais rápidas, preços competitivos e maior cobertura, a eficiência da operação passa a depender diretamente de quem está nas ruas.

Os aplicativos utilizam tecnologia para distribuir pedidos, calcular rotas e acompanhar as entregas. Para o consumidor, isso significa praticidade e velocidade. Para o entregador, significa trabalhar dentro de uma operação cada vez mais orientada por tempo, distância e quantidade de pedidos.

É nesse ponto que a percepção sobre a autonomia começa a mudar. Max Marcelo, que trabalha como motofretista em São Paulo, afirma que a liberdade de escolher os horários encontra limites nos próprios incentivos oferecidos pelas plataformas.

“Esse negócio de você poder fazer seu horário, eu acho que é uma grande mentira. Você tem que trabalhar no horário que eles exigem, porque a promoção é o horário que eles querem que você trabalhe. É o final de semana, é o horário que você vai ficar longe da sua família, é o horário que está chovendo.”

Max Marcelo também está há muito tempo no ramo, mas expõe que a realidade é diferente do que dizem | Foto: NC News

A contradição resume um dos principais dilemas do trabalho por aplicativo. A possibilidade de escolher quando trabalhar existe, mas a remuneração pode estimular o profissional a se conectar justamente nos períodos de maior demanda, incluindo fins de semana, horários de pico e dias de chuva.

É uma corrida que beneficia quem consegue fazer mais em menos tempo. E, quando essa lógica encontra o trânsito, o cansaço e os riscos das ruas, surge a parte mais delicada dessa expansão: qual é o preço pago por quem está na ponta dessa cadeia?

A rotina de quem está nas ruas

A expansão do delivery trouxe uma consequência direta para quem está na ponta: a necessidade de fazer mais entregas em menos tempo. A corrida por rapidez se tornou parte da disputa entre as plataformas, com empresas oferecendo prazos cada vez menores para conquistar consumidores.

Para quem está diariamente nas ruas, porém, essa lógica se soma a uma jornada que pode ocupar praticamente todo o dia. Jailton afirma que chega a passar mais de metade do dia sobre a moto.

“Mais ou menos 12 horas por dia, 12, 12 horas, 16 horas direto. Só paro para almoçar e continuo.”

Essa rotina acontece justamente sobre duas rodas. Um levantamento do Ministério da Saúde aponta que os acidentes de trabalho envolvendo motociclistas e ciclistas que atuam com entregas cresceram 35% entre 2023 e 2025. Ao todo, foram registradas mais de 34 mil ocorrências entre 2023 e julho de 2026, embora os próprios órgãos envolvidos reconheçam a possibilidade de subnotificação.

Jornada de trabalho dos entregadores é pesada | Foto: Reprodução

Os números encontram correspondência na experiência de quem passa anos enfrentando o trânsito diariamente. Ele também diz que já sofreu acidentes e considera difícil encontrar um motoboy que tenha passado pela profissão sem enfrentar algum tipo de ocorrência nas ruas.

“Já sofri bastante acidentes. Acho que todo motoboy já sofreu, já passou por isso.”

O estresse também se tornou parte da rotina. Em uma cidade marcada pelo trânsito intenso, o trabalhador precisa administrar não apenas o tempo das entregas, mas também o comportamento de outros motoristas e a própria pressão para evitar acidentes.

“Quanto ao estresse, não tem muito o que fazer. É procurar evitar confusão, procurar andar mais ou menos na linha e tentar evitar problemas. Porque estresse não tem como evitar. Em São Paulo, com o trânsito que tem, é loucura.”

Jailton conta que já sofreu acidentes e cada dia é um dia | Foto: NC News

A lógica da velocidade também é questionada por trabalhadores e especialistas. Entregadores relatam situações em que atrasos, baixa velocidade ou demora nas corridas podem gerar alertas e penalizações dentro das plataformas. As empresas, por outro lado, negam estabelecer metas de tempo e afirmam que os prazos são resultado de tecnologia, logística e concentração das operações.

O risco, no entanto, não aparece apenas quando acontece um acidente. Para quem trabalha diariamente sobre uma motocicleta, a possibilidade de não voltar para casa também faz parte da rotina.

Max Marcelo é casado e tem três filhas e nos conta que o medo acompanha o trabalho e também e a sua família. Segundo ele, a preocupação é constante para quem passa o dia no trânsito de São Paulo.

“Todo mundo que está em cima da moto tem esse medo. O trânsito de São Paulo é muito perigoso. Então, o medo é constante.”

Falta de apoio e uma crise que chega aos tribunais

O crescimento dos acidentes colocou a segurança dos entregadores no centro de uma disputa trabalhista. Em agosto, a Associação dos Motofretistas de Aplicativos e Autônomos do Brasil entrou na Justiça contra iFood, Uber, 99Food, Keeta e outras plataformas para exigir melhores condições de apoio aos trabalhadores.

Entre os pedidos estão espaços para descanso, alimentação, higiene e segurança, além de treinamentos periódicos e medidas relacionadas à prevenção de acidentes e doenças ocupacionais. A entidade também pede indenização para trabalhadores que tenham ficado incapacitados em decorrência da atividade.

A cobrança por estruturas de apoio expõe uma reclamação recorrente entre os profissionais: a sensação de que o crescimento da atividade não foi acompanhado pelo mesmo avanço na proteção de quem trabalha nela.

Manifestações de motoboys tem crescido ao longo dos últimos anos e acendido muitos debates acerca da profissão | Foto: Reprodução

Max afirma que, na prática, os próprios entregadores acabam criando suas redes de apoio.

“Eu me sinto abandonado. Tudo o que fazem é para atrapalhar a gente. Ninguém dá um suporte, ninguém dá nada. Quem acaba se ajudando é a gente mesmo.”

O movimento acontece poucos meses depois de São Paulo inaugurar seu primeiro espaço público de apoio a entregadores. O local, com 1,1 mil metros quadrados, oferece estrutura para descanso, alimentação e outras necessidades básicas de quem passa boa parte do dia trabalhando nas ruas.

Primeiro ponto de apoio a motoboys de São Paulo | Foto: Sergio Barzaghi/SECOM/PMSP

Apesar de relatarmos que os motofretistas são uma engrenagem importante para o sistema urbano, as cidades não atendem as necessidades dos trabalhadores da área. A inauguração de um espaço evidencia que existe um caminho certo a tomar, mas ter sido o primeiro depois de tanto tempo traz dúvidas sobre a saúde do profissional e da profissão.

Para Jailton, a falta de amparo fica ainda mais evidente quando o risco vira um acidente. Segundo ele, quem trabalha sobre duas rodas precisa contar principalmente com a própria capacidade de prevenção.

“Motoboy não tem segurança de nada. Ele não tem seguro, não tem apoio. Quanto a isso não tem. É cada um por si. É você tomar muito cuidado, tomar precauções, não fazer muita loucura porque, se sofrer um acidente, é você e você.”

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Preconceito, insegurança e o risco de ser confundido com criminoso

Os riscos não terminam nos acidentes. O próprio conjunto de elementos associado à profissão, como a moto, mochila térmica e identificação de aplicativo, passou a ser explorado por criminosos para facilitar roubos. Em São Paulo, criminosos já foram flagrados utilizando características associadas a entregadores para cometer assaltos, aumentando a desconfiança sobre trabalhadores que exercem legitimamente a atividade.

A associação entre entregadores e crimes também produz outro efeito sobre quem trabalha nas ruas: a desconfiança. Jailton reconhece que existe preconceito contra a categoria, mas afirma que parte da reação dos motoristas está relacionada ao aumento da insegurança social.

“Eu não vejo muito como preconceito, vejo como uma precaução. Com os assaltos, com a insegurança, muita gente fica receosa. Existe preconceito, não vou dizer que não, mas existe também uma insegurança das pessoas.”

Jailton e Max abordam preconceitos e insegurança pública por | Foto: Reprodução

Max concorda que o preconceito existe, mas afirma que a responsabilidade pela criminalidade não deveria recair sobre quem trabalha legalmente.

“O ladrão se disfarça de motoboy. Mas a fiscalização tinha que pegar o ladrão, não o trabalhador.”

O problema cria uma situação perversa. O entregador verdadeiro precisa enfrentar a insegurança das ruas e, ao mesmo tempo, pode carregar consigo a imagem produzida por criminosos que se apropriam da mesma aparência para praticar delitos.

A consequência é uma profissão cada vez mais presente na vida urbana, mas também mais exposta. O trabalhador precisa chegar rápido, enfrentar o trânsito, proteger sua ferramenta de trabalho, lidar com a insegurança e ainda encontrar um lugar para descansar. E tudo isso enquanto a plataforma continua funcionando.

Apesar de tudo, Max segue a vida com foco e muito trabalho | Foto: Reprodução

No fim, a expansão do delivery não pode ser medida apenas pelo número de pedidos, aplicativos ou entregadores conectados. Por trás de cada entrega existe uma pessoa sobre uma motocicleta, submetida às mesmas pressões de uma economia que exige cada vez mais velocidade.

E, se o mercado pretende continuar crescendo, a pergunta deixa de ser apenas quantos entregadores ainda podem entrar nessa corrida. Passa a ser quanto tempo eles conseguem permanecer nela e em quais condições.

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