O juiz criminal Deyvison Heberth dos Reis, de Presidente Venceslau, interior de São Paulo, afirma ter sido alvo de uma ameaça velada de morte feita por um advogado durante audiência online com réus ligados ao Primeiro Comando da Capital (PCC). O magistrado é o mesmo que decreta a prisão preventiva da influenciadora digital Deolane Bezerra, investigada por suspeita de lavagem de dinheiro associada à facção.
O episódio, registrado em vídeo que circula na internet nesta semana, aciona uma reação em cadeia no sistema de Justiça paulista. A Polícia Civil abre investigação por meio da Divisão Especializada de Investigações Criminais (Deic) de Presidente Prudente, o Tribunal de Justiça de São Paulo divulga nota de repúdio e a Ordem dos Advogados do Brasil Seção São Paulo (OAB-SP) é acionada para apurar a conduta profissional do advogado.
A fala sobre o “Elísio” e a interpretação de ameaça
A audiência de instrução e julgamento ocorre de forma virtual e trata de pedidos relacionados às prisões preventivas de suspeitos de integrar organização criminosa armada. No momento em que o juiz analisa os requerimentos de liberdade, o advogado Marcos Cebola se dirige ao magistrado com uma frase que muda o rumo da sessão.
“Diante do que se apurou hoje, com a devida vênia, pela graça de Deus, sob a proteção de Deus, se o senhor não revogar essas prisões, eu temo o senhor não adentrar ao ‘Elísio’”, diz o defensor, olhando para a câmera. O termo “Elísio”, na mitologia grega, indica um paraíso reservado às almas após a morte.
Para o juiz, a formulação não é apenas uma figura de linguagem, mas um recado direto sobre a própria integridade física caso mantenha as prisões. A partir desse entendimento, Deyvison comunica que vê na fala uma ameaça de morte, ligada ao contexto de processos envolvendo o PCC, e aciona os mecanismos de proteção institucional.
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Reação do Tribunal de Justiça e da OAB-SP
O Tribunal de Justiça de São Paulo torna público um texto duro em defesa do magistrado. Na nota, a corte afirma repudiar “ameaças, ofensas e acusações pessoais” dirigidas a Deyvison e ressalta que a liberdade de manifestação de advogados não pode ser usada como escudo para intimidações.
“O respeito às prerrogativas da advocacia e à liberdade de manifestação não autoriza a prática de intimidações ou ataques pessoais, especialmente quando direcionados a magistrados e agentes públicos no exercício de suas funções”, afirma o documento, ao reforçar que eventual divergência deve ser tratada em termos técnicos e nos autos.
Diante da repercussão, o Tribunal e a Procuradoria-Geral de Justiça oficiam a OAB-SP para uma apuração “imediata e rigorosa” da conduta de Marcos Cebola. Cabe à entidade avaliar se houve violação ética grave, capaz de justificar punições que vão de advertência e censura à suspensão ou até exclusão dos quadros da Ordem, em casos extremos.
Pressão sobre a advocacia e a segurança de juízes
A OAB-SP informa que todas as notícias de infração chegam ao Tribunal de Ética e Disciplina por representação formal ou por fatos tornados públicos, e que os processos correm em sigilo. A limitação é prevista em lei, o que impede a entidade de confirmar se já há um procedimento específico contra o advogado que atua no caso do PCC.
Os números do próprio Tribunal de Ética indicam o tamanho do contencioso: entre 2022 e 2025, mais de sete mil sanções disciplinares são aplicadas a advogados e advogadas no estado, a partir de 18.216 processos julgados. O volume mostra que a corregulação da profissão é intensa e recorrente, especialmente em áreas sensíveis como a advocacia criminalista.
Para criminalistas, a atuação firme em defesa de réus, inclusive de organizações criminosas, faz parte do papel institucional da defesa. A fronteira, porém, está na forma. A ameaça, mesmo disfarçada de temor pessoal ou de expressão religiosa, extrapola o campo da argumentação jurídica e passa a atingir a própria segurança do agente público.
Deolane, PCC e o ambiente de intimidação
O caso ganha ainda mais peso porque se entrelaça com a prisão de Deolane Bezerra, determinada pelo mesmo juiz. A influenciadora, figura conhecida nas redes sociais, é alvo de investigação por suspeita de movimentar dinheiro para a cúpula do PCC, o que coloca o processo sob holofotes e aumenta a pressão sobre a vara criminal de Presidente Venceslau.
A atuação do advogado criminalista nesses processos ilustra o limite entre defesa combativa e afronta às instituições. Em tese, cabe a esse profissional contestar prisões preventivas, apontar falhas de provas e questionar decisões do juiz. O que entra em debate agora é se, ao referir-se ao “Elísio”, o defensor troca o embate jurídico pela intimidação velada.
A Polícia Civil, via Deic de Presidente Prudente, apura se a frase configura crime de ameaça. A investigação pode resultar em indiciamento do advogado, denúncia criminal e eventual ação penal, em paralelo ao procedimento disciplinar da OAB-SP. Uma condenação pode significar desde pena de multa até prisão, dependendo do enquadramento legal.
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Impacto no Judiciário do interior e próximos passos
No interior paulista, magistrados que lidam com processos do PCC já trabalham sob forte esquema de segurança, com endereços preservados e rotinas discretas. O episódio em Presidente Venceslau expõe novamente a vulnerabilidade de juízes e servidores que, longe da capital, comandam ações decisivas contra o crime organizado.
Dentro do Tribunal de Justiça, a avaliação é que episódios desse tipo não podem se normalizar. A nota de repúdio funciona como recado interno e externo: o Judiciário quer demonstrar que se mantém aberto à crítica, mas fecha a porta para qualquer discurso que possa ser interpretado como risco físico a seus integrantes.
O caso também repercute na imagem pública da advocacia. Expressões como “advogado é a pessoa que defende até o inimigo” e “advocacia é advogado sem medo” são frequentemente usadas para exaltar o papel da profissão. O episódio obriga o meio jurídico a discutir se há, na prática, linhas que não podem ser ultrapassadas em nome da “coragem” profissional.
As próximas semanas devem ser decisivas. A Deic coleta depoimentos, o vídeo da audiência integra o inquérito e a OAB-SP avalia os elementos disponíveis. No Tribunal de Justiça, o gabinete de Deyvison mantém rotina de audiências e decisões, agora sob uma vigilância maior. A questão central segue em aberto: até onde vai a liberdade de atuação do advogado em processos de alto risco sem que a independência do juiz e a segurança do sistema sejam colocadas em xeque.