Seca pode encarecer contêiner em até R$ 9,7 mil e preocupa comércio no Amazonas

Empresas de navegação anunciaram sobretaxa para setembro, mas comerciantes questionam cobrança e dizem que nível do Rio Negro ainda não atingiu o limite previsto pela ANTAQ
Redação NC News
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A seca que atinge os rios da Amazônia começa a provocar uma nova preocupação para o comércio do Amazonas: o aumento do custo para transportar mercadorias até Manaus. Empresas de navegação anunciaram uma sobretaxa de até US$ 1.900 por contêiner, o equivalente a cerca de R$ 9,7 mil, com previsão de cobrança a partir de setembro. A medida, porém, é contestada pela Associação Comercial do Amazonas (ACA), que acionou a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (ANTAQ).

As taxas cobradas por contêiner podem chegar a US$ 1.900, dependendo da companhia. O valor adicional é aplicado diante dos impactos da seca nos rios da Amazônia e do aumento dos custos logísticos.

O que é essa taxa?

A cobrança é chamada de Low Water Surcharge (LWS), ou, em português, “sobretaxa de pouca água”. De forma simples, é uma tarifa extra criada pelas empresas de navegação para compensar possíveis custos provocados pela queda do nível dos rios.

Quando os rios ficam muito baixos, os navios podem ter dificuldade para navegar normalmente. Com menos água, existe risco de restrição no tamanho e no peso das cargas transportadas.

Também podem ser necessárias operações diferentes, como o uso de balsas, portos alternativos, rebocadores e estruturas temporárias para transferir as mercadorias.

A Ocean Network Express (ONE), por exemplo, informou que poderá utilizar medidas como redução da capacidade dos navios, transporte por balsas e uso de píer flutuante para manter as cargas circulando durante a estiagem.

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Cobrança pode chegar a R$ 9,7 mil

A MSC e a CMA CGM comunicaram aos clientes que poderão cobrar até US$ 1.900 por contêiner destinado a Manaus. Na cotação considerada nas reportagens sobre o caso, o valor chega a aproximadamente R$ 9.785.

Outras empresas também anunciaram sobretaxas, mas com valores diferentes.

A ONE estabeleceu uma cobrança de US$ 1.458 por contêiner, enquanto a Maersk comunicou inicialmente uma tarifa de US$ 1.228 por contêiner seco.

Os valores e as datas variam de acordo com a empresa e podem ser alterados conforme as condições de navegação.

Por que as empresas querem cobrar?

As companhias afirmam que a estiagem pode aumentar os custos para manter o transporte funcionando.

Com os rios mais baixos, os navios podem precisar transportar menos contêineres para reduzir o peso e evitar problemas de navegação. Também pode ser necessário fazer transbordo, levando as mercadorias para embarcações menores.

Outro cenário considerado é o uso de um píer flutuante em Itacoatiara, no Amazonas. A estrutura permitiria transferir cargas dos grandes navios para embarcações menores, que conseguem navegar em trechos mais rasos.

A Maersk, por exemplo, informou que poderá elevar temporariamente sua sobretaxa para US$ 4.646 por contêiner seco caso seja necessário utilizar esse tipo de estrutura. A empresa ressalta que esse valor seria aplicado apenas durante o cenário operacional específico e não representa uma cobrança adicional acumulada à tarifa anterior.

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Comerciantes contestam a cobrança

A Associação Comercial do Amazonas não concorda com a forma como as empresas estão anunciando a cobrança.

A entidade acionou a ANTAQ e argumenta que a sobretaxa só poderia ser aplicada quando o Rio Negro atingir 17,7 metros, conforme critérios estabelecidos pela agência.

Em 26 de agosto, o nível do Rio Negro em Manaus estava em 24,93 metros, segundo os dados citados na reportagem.

Por isso, a associação questiona se já existem condições para a cobrança anunciada pelas empresas.

O que diz a regra da ANTAQ?

A ANTAQ estabeleceu critérios para a aplicação da chamada taxa da seca.

Entre as exigências está a necessidade de aviso prévio de pelo menos 30 dias, com informações sobre o motivo da cobrança, os serviços atingidos, a forma de cálculo, o período de aplicação e os custos envolvidos.

A agência também já reforçou que a cobrança está relacionada ao nível do Rio Negro, que precisa atingir 17,7 metros ou menos para que a condição prevista seja caracterizada.

A própria ONE, em seu comunicado, estabeleceu que sua sobretaxa para importações destinadas a Manaus começa em 15 de setembro, mas condicionou a cobrança ao Rio Negro atingir ou ficar abaixo de 17,70 metros.

A taxa vai aumentar o preço dos produtos?

Esse é um dos principais receios dos comerciantes.

O custo do transporte faz parte da cadeia que leva os produtos até as lojas. Se uma empresa precisa pagar milhares de reais a mais para transportar um contêiner, esse gasto pode ser incorporado ao preço final das mercadorias.

Isso pode atingir especialmente produtos que chegam a Manaus por transporte aquaviário e dependem da logística fluvial para abastecer o mercado.

Ainda assim, não é possível afirmar que a sobretaxa será automaticamente repassada ao consumidor. O impacto final dependerá de cada empresa, do tipo de mercadoria, do contrato de transporte e de outros custos envolvidos.

Zona Franca também sente os efeitos

A preocupação vai além do comércio. A Zona Franca de Manaus depende de uma complexa rede de transporte para receber componentes e enviar produtos para outras regiões do país.

Em períodos de seca severa, a redução da navegabilidade pode dificultar a chegada de insumos às fábricas e o transporte dos produtos fabricados no Polo Industrial.

A estiagem também pode obrigar empresas a buscar alternativas mais caras e demoradas para manter o abastecimento.

Medidas de emergência já estão sendo preparadas

Para reduzir os impactos da seca, o Grupo Chibatão prepara a utilização de um píer temporário em Itacoatiara.

A estrutura, que já foi utilizada durante a estiagem de 2024, permite a transferência das cargas de grandes navios para balsas menores.

Segundo informações divulgadas sobre o planejamento, a estrutura deve ser deslocada para Itacoatiara entre setembro e outubro, com previsão de início da operação em novembro. O investimento e os custos operacionais estimados chegam a cerca de R$ 80 milhões.

Seca ameaça encarecer a logística

A atual situação mostra como a seca dos rios pode afetar muito mais do que a navegação.

Quando o nível da água diminui, o problema chega à logística, ao comércio e à indústria. Empresas precisam encontrar novas formas de transportar mercadorias, enquanto comerciantes temem que o aumento dos custos seja repassado para os preços.

A situação ainda está em evolução. As empresas de navegação afirmam estar se preparando para possíveis restrições provocadas pela estiagem, enquanto comerciantes e entidades do Amazonas questionam se as condições atuais já justificam a cobrança das sobretaxas.

Entenda o caso

A chamada taxa da seca é uma cobrança adicional anunciada por empresas de navegação para compensar possíveis custos provocados pela redução do nível dos rios.

Para 2026, algumas empresas anunciaram valores que chegam a US$ 1.900 por contêiner, cerca de R$ 9,7 mil.

A cobrança, porém, é alvo de contestação da Associação Comercial do Amazonas. A entidade afirma que as regras da ANTAQ estabelecem condições específicas para a aplicação da tarifa, incluindo o nível de 17,7 metros do Rio Negro.

Enquanto as empresas se preparam para uma possível piora das condições de navegação, o setor produtivo acompanha o nível dos rios e tenta evitar que a estiagem provoque novos aumentos nos custos de transporte e no preço das mercadorias.

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