Quando o rio baixa, a Amazônia sente no bolso

Possibilidade de uma seca severa já mobiliza comércio e setor de energia em Manaus; preocupação é garantir a chegada de combustíveis, alimentos e outros produtos
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Na Amazônia, o rio é estrada. E quando o nível das águas cai, o impacto vai muito além da dificuldade para navegar.

A possibilidade de uma nova estiagem severa já está mobilizando empresas e setores estratégicos em Manaus. O comércio amazonense começou a se preparar para eventuais restrições à navegação e para os efeitos que uma redução acentuada do nível dos rios pode provocar sobre o abastecimento.

Entre as medidas em discussão estão a antecipação de cargas, utilização de embarcações de menor calado, preparação de balsas e empurradores e avaliação de rotas alternativas. A preocupação é evitar que uma eventual interrupção ou redução da capacidade de navegação provoque desabastecimento ou aumento expressivo dos custos logísticos.

A logística amazônica depende da água

Em grande parte da Amazônia, o transporte fluvial é fundamental para conectar cidades, comunidades e centros de produção aos grandes mercados.

Manaus é um dos principais exemplos.

Uma parcela significativa dos produtos que chegam à capital amazonense percorre longas distâncias por rios antes de alcançar os consumidores.

Quando o nível das águas diminui, as embarcações podem precisar reduzir a quantidade de carga transportada, utilizar equipamentos adequados a menor profundidade ou até interromper determinadas rotas. E cada uma dessas mudanças tem um custo.

Não é apenas uma questão de transporte

É justamente aqui que a possibilidade de uma seca amazônica ganha dimensão econômica.

Se uma embarcação precisa levar menos carga, o custo do frete por unidade transportada aumenta. Se uma rota precisa ser alterada, aumenta a distância e o tempo de viagem. Se é necessário antecipar estoques, empresas precisam imobilizar dinheiro antes do previsto. E, se o transporte fluvial fica temporariamente inviável, outras alternativas podem ser muito mais caras.

O resultado pode aparecer na ponta da cadeia: no preço dos produtos que chegam às cidades amazônicas.

Combustível é um ponto crítico

A preocupação não está restrita aos alimentos.

O setor de energia também acompanha de perto o nível dos rios porque o transporte de combustíveis para a Região Norte depende fortemente da navegação.

Diante do risco de uma seca mais severa, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) antecipou medidas para reforçar os estoques de combustível na região, justamente para reduzir o risco de problemas de abastecimento caso a navegação seja prejudicada.

O combustível, por sua vez, é necessário para movimentar praticamente toda a economia.

Está nos caminhões, barcos, máquinas agrícolas, geradores e veículos utilizados no transporte de pessoas e mercadorias.

Por isso, uma dificuldade na logística dos combustíveis pode produzir efeitos em cadeia.

O impacto chega ao supermercado

Imagine um produto que precisa percorrer centenas ou milhares de quilômetros até chegar ao consumidor.

Ele já carrega no preço o custo de produção, embalagem, armazenamento e transporte.

Se o frete aumenta, esse custo entra na conta.

Por isso, uma estiagem amazônica pode acabar tendo um efeito bastante concreto: aumentar o custo para levar produtos até determinadas cidades.

Não significa que toda seca provocará automaticamente inflação ou desabastecimento.

Mas significa que, em uma região altamente dependente dos rios, o nível da água é também uma variável econômica.

O comércio tenta se antecipar

A estratégia adotada pelo comércio amazonense é justamente evitar que o problema seja percebido somente quando a água já estiver baixa.

Antecipar mercadorias permite formar estoques antes que a navegação fique mais difícil.

Também existe a possibilidade de utilizar embarcações menores ou reorganizar rotas e operações logísticas.

É uma espécie de corrida contra o relógio: quanto antes a cadeia se preparar, maior a chance de reduzir os impactos de uma eventual restrição à navegação.

E o agro também está nessa equação

A questão interessa diretamente ao agronegócio amazônico.

A produção rural precisa de combustível para máquinas, transporte para insumos e canais de comercialização para escoar aquilo que é produzido.

Em regiões onde os rios são as principais vias de conexão, qualquer alteração na navegabilidade pode mudar a conta do produtor.

E o impacto pode ocorrer nos dois sentidos: tanto para levar insumos até a propriedade quanto para retirar a produção dela.

Uma preocupação que ultrapassa Manaus

O que acontece com os rios amazônicos não afeta somente a capital do Amazonas.

A navegação conecta uma extensa rede de municípios e comunidades.

Por isso, uma estiagem severa pode provocar impactos diferentes em diferentes pontos da região, dependendo da profundidade dos rios, das rotas utilizadas e do grau de dependência de cada localidade do transporte fluvial.

É por isso que o monitoramento precisa acontecer antes que a crise esteja instalada.

O rio como indicador econômico

A Amazônia costuma ser analisada pelo tamanho de sua floresta, pela biodiversidade e pela importância ambiental.

Mas existe outro indicador que merece atenção: a altura dos rios.

Para quem vive e produz na região, o nível da água pode determinar se uma embarcação navega, quanto ela consegue transportar e quanto tempo uma mercadoria leva para chegar ao destino.

Em outras palavras, na Amazônia, o rio também funciona como um termômetro da economia.

E, diante da possibilidade de uma estiagem mais intensa, comércio, energia, transporte e produtores já começam a se preparar para o que pode acontecer nos próximos meses.

Fontes: Câmara de Dirigentes Lojistas de Manaus e Agência Nacional de Energia Elétrica.

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