Delcy Rodríguez diz que Venezuela manterá controle do petróleo

Delcy Rodríguez reafirma soberania venezuelana e destaca projeções financeiras robustas em acordo bilateral.
Redação NC News
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

Delcy Rodríguez afirma em rede nacional que a Venezuela mantém a propriedade e a soberania sobre suas reservas de petróleo, apesar do acordo bilionário recém-fechado com os Estados Unidos. A presidente interina tenta conter a leitura de que Caracas estaria entregando seu principal ativo estratégico a empresas americanas.

A declaração ocorre um dia depois de o governo anunciar um pacote de investimentos de US$ 100 bilhões atrelado à operação de 17 campos petrolíferos por companhias dos EUA. O acerto, apresentado como o maior da história recente do setor, reacende o debate sobre dependência externa e controle dos recursos naturais.

Leia também:

Governo prevê R$ 6 bilhões para os Correios em 2027 após rombo bilionário; entenda o que está por trás do aporte

Pronunciamento mira críticas ao acordo com os EUA

No pronunciamento transmitido pela televisão estatal, Rodríguez repetiu mais de uma vez que o coração do negócio permanece em mãos venezuelanas. “Venezuela conserva a propriedade e a soberania sobre seus recursos”, disse, em tom enfático, ao comentar as cláusulas que asseguram ao Estado o domínio sobre as reservas, enquanto os parceiros estrangeiros assumem a operação e o risco do investimento.

Os campos incluídos no acordo têm potencial produtivo estimado em 65 bilhões de barris. Nesse desenho, empresas americanas ficam responsáveis por recuperar infraestrutura, injetar capital e tecnologia, e elevar gradualmente a produção, hoje em 1,2 milhão de barris por dia, para uma meta de 1,5 milhão de barris diários no longo prazo.

Veja também:

Brasileira de 21 anos se torna a bilionária mais jovem do mundo, aponta Forbes

Quanto entra para o caixa venezuelano?

Rodríguez detalha uma engenharia fiscal desenhada para mostrar que o Estado não abre mão da maior parte da renda do petróleo. O contrato fixa royalties mínimos de 16% sobre as operações, além de imposto de renda de 34% sobre os lucros. Somadas as fatias, a estimativa oficial é de que “para cada barril produzido e vendido, cerca de US$ 19 entrarão diretamente em nosso país”, afirma a presidente interina.

O governo calcula que, mantidas as projeções de produção e preços, a parceria pode render aproximadamente US$ 209 bilhões em receitas ao Tesouro ao longo dos 25 anos de vigência. Numa economia sufocada por anos de recessão, hiperinflação e colapso do setor energético, o montante representa uma janela rara de fôlego para políticas públicas e reconstrução de infraestrutura.

Os números chegam em um momento de retomada parcial. Entre janeiro e julho, a produção de petróleo avança 29,8% e alcança 1,2 milhão de barris diários, ainda longe dos 3 milhões de barris por dia registrados no fim do século passado. O governo aposta que a entrada do capital americano, somada às reformas regulatórias já aprovadas, permitirá recuperar parte dessa distância.

Da queda de Maduro à “diplomacia” com Washington

O acordo é filho direto da virada política em Caracas. Sete meses após a queda de Nicolás Maduro, em uma operação militar conduzida pelos Estados Unidos, a relação entre os dois países muda de confronto aberto para negociação intensa. Rodríguez assume o governo em caráter interino sob forte pressão de Washington por abertura econômica.

Desde então, o Palácio de Miraflores aprova mudanças nos marcos de petróleo e mineração, afrouxa restrições à participação estrangeira e cria garantias jurídicas para novos contratos. O objetivo declarado é destravar investimentos em setores que ficaram quase paralisados por quase uma década. Ao falar na TV, a presidente interina tenta costurar essa guinada com um discurso de soberania. Ela diz ter escolhido “o caminho da diplomacia para transformar a Venezuela em uma potência energética, grande produtora de petróleo, importante exportadora de gás e com amplo desenvolvimento petroquímico”.

A aproximação com os Estados Unidos, porém, não é neutra. O novo alinhamento reconfigura alianças regionais, reduz o peso de antigos parceiros e reacende o debate sobre a margem de manobra real de Caracas diante do poder econômico e militar americano. A forma como Rodríguez equilibra concessões e controle interno se torna peça central da política venezuelana neste momento de transição.

Quem ganha e quem perde com a virada no petróleo

O pacote com Washington promete impacto direto sobre a economia real. A revitalização de 17 campos estratégicos deve movimentar cadeias de fornecedores locais, serviços especializados e empregos em regiões que dependem da renda petroleira. Se os investimentos forem executados na escala anunciada, empresas de engenharia, logística, construção e tecnologia tendem a disputar contratos bilionários.

Segmentos ligados à exploração independente, que sobreviveram em nichos ou na informalidade durante o período de colapso, temem perder espaço diante das grandes operadoras internacionais. A entrada maciça de capital e tecnologia estrangeiros também pressiona a estatal local a se adaptar a padrões de eficiência e governança mais rígidos, sob pena de se tornar coadjuvante no próprio território.

No tabuleiro geopolítico, o movimento sinaliza uma Venezuela mais integrada ao mercado ocidental de energia, após anos em que o país se apoia sobretudo em alianças com potências não ocidentais. Para os Estados Unidos, o acordo entrega acesso privilegiado a reservas volumosas em plena transição energética global e reforça sua presença em uma região estratégica.

A reação internacional ainda está em construção. Países da vizinhança observam com atenção o efeito do novo fluxo de dólares sobre o câmbio, o comércio e as migrações. Organismos multilaterais e investidores monitoram o cumprimento das cláusulas fiscais e regulatórias, atentos a sinais de instabilidade política que possam comprometer contratos de 25 anos.

Próximos passos e riscos no horizonte

Com o anúncio feito e a mensagem de soberania reiterada em rede nacional, o desafio passa da retórica à execução. A fase seguinte envolve detalhar cronogramas de investimento, garantir transparência na seleção de parceiros locais e montar estruturas de fiscalização capazes de verificar volumes produzidos, tributos pagos e respeito a padrões ambientais.

O sucesso ou fracasso dessa engenharia definirá se a Venezuela conseguirá se aproximar da meta de 1,5 milhão de barris por dia sem abrir mão do controle sobre suas reservas. A cada novo milhão de barris exportado, a pressão interna por mais participação social na renda do petróleo deve crescer. A presidente interina aposta que o “caminho da diplomacia” com Washington pode redesenhar a imagem do país como potência energética. O teste começa agora, com o mundo acompanhando de perto como Caracas administra a tentadora combinação de dólares frescos, dependência tecnológica e promessa de soberania intacta.

 

Carregar Comentários