Minas Gerais entrou no radar de empresas australianas que buscam ampliar a atuação no mercado de terras raras e outros minerais críticos. Em três cidades do estado: Poços de Caldas, Caldas e Araxá, os projetos em andamento somam aproximadamente R$ 4 bilhões, considerando investimentos anunciados, captações e aquisições já divulgadas.
As terras raras são usadas na fabricação de produtos como veículos elétricos, turbinas eólicas, equipamentos eletrônicos e sistemas de defesa. A importância desses minerais aumentou nos últimos anos diante da disputa internacional pelo controle das cadeias de produção e processamento.
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Projetos avançam no Sul de Minas
Em Poços de Caldas, dois dos principais empreendimentos são conduzidos pela australiana Viridis Mining and Minerals. O Projeto Colossus tem investimento previsto de R$ 1,35 bilhão.
A empresa também participa do Centro de Refino, Reciclagem e Inovação de Terras Raras, uma parceria com a Ionic Rare Earths. O empreendimento reúne cerca de R$ 51 milhões.
A cidade ainda recebeu investimentos da australiana Power Minerals, que adquiriu o projeto Morro do Ferro em uma operação que pode chegar a aproximadamente R$ 83 milhões.
Já em Caldas, o Projeto Caldeira, da australiana Meteoric Resources, é estimado atualmente em R$ 2,2 bilhões. O valor é superior aos R$ 1,18 bilhão apresentados na fase inicial do empreendimento.
A empresa já instalou uma planta-piloto na região e avançou no processo de licenciamento ambiental.
Em Araxá, a St George Mining desenvolve um projeto voltado à exploração de nióbio e terras raras. A companhia captou R$ 254 milhões para o empreendimento e comprou, em 2026, dois terrenos no município por aproximadamente R$ 20 milhões. As áreas devem ser utilizadas para estruturas industriais e ações de compensação ambiental.
Somados, os principais valores anunciados chegam a cerca de R$ 3,96 bilhões.
Austrália vê oportunidade em Minas
O interesse das empresas ocorre em meio à aproximação entre Brasil e Austrália no setor de minerais críticos. Durante a Expo & Congresso Brasileiro de Mineração, realizada em Belo Horizonte, a embaixadora australiana no Brasil, Sophie Davies, afirmou que cerca de 40 empresas australianas já atuam ou estudam oportunidades relacionadas a minerais críticos no país.
Segundo a diplomata, Brasil e Austrália podem ocupar posições estratégicas no fornecimento mundial desses recursos. Ela também destacou a importância de manter padrões ambientais, sociais e de governança nas operações.
Desafio é transformar minério em tecnologia
Para Minas Gerais, a expectativa vai além da exploração das reservas. O objetivo é aproveitar o novo ciclo para desenvolver tecnologia, processamento e conhecimento dentro do próprio estado.
A avaliação é que as terras raras podem representar uma nova etapa da mineração mineira, tradicionalmente marcada pela exploração de ouro e minério de ferro.
A secretária Mila Corrêa resumiu a mudança como uma transição para um ciclo baseado nos minerais críticos e nas terras raras. Para ela, o desafio está justamente em investir em inovação e agregar valor ao minério, em vez de apenas retirar o recurso do solo.
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Projetos também geram preocupação ambiental
O avanço dos empreendimentos, porém, enfrenta resistência de moradores e grupos ambientalistas, principalmente em Poços de Caldas e Caldas.
Uma das principais preocupações está relacionada à proximidade entre possíveis áreas de mineração e regiões habitadas. O físico Daniel Tygel, presidente da Aliança em Prol da APA Santuário Ecológico da Pedra Branca, afirma que há previsão de lavra a cerca de 300 metros de residências.
Ambientalistas também defendem que os projetos das empresas Viridis e Meteoric sejam analisados de maneira conjunta, devido à proximidade entre as áreas e aos possíveis impactos acumulados sobre o território e os recursos hídricos.
Outro ponto de preocupação é a proximidade com a Unidade de Descomissionamento de Caldas, da Indústrias Nucleares do Brasil (INB). Os grupos questionam possíveis impactos sobre o sistema hidrogeológico, resíduos e presença de metais pesados e materiais radioativos.
Segundo Tygel, organizações da sociedade civil elaboraram um dossiê com mais de 1,2 mil páginas sobre os empreendimentos e cobram estudos mais aprofundados.
A Prefeitura de Poços de Caldas também encaminhou pedidos aos órgãos estaduais relacionados à distância entre as áreas de lavra e a população, à preservação da água e a contrapartidas econômicas para o município.
Disputa vai além do minério
Com bilhões de reais previstos ou já movimentados, os projetos colocam Minas Gerais diante de uma oportunidade econômica, mas também de desafios ambientais e tecnológicos.
A questão agora não envolve apenas o tamanho dos investimentos, mas quanto dessa riqueza poderá permanecer no estado por meio de empregos, tecnologia, processamento e desenvolvimento da cadeia produtiva.
A disputa pelas terras raras transforma cidades mineiras em pontos estratégicos de um mercado que ganhou importância econômica e geopolítica em todo o mundo.