Sequestrada aos 19 anos, japonesa foi levada para a Coreia do Norte e obrigada a se casar com soldado americano

Hitomi Soga passou 24 anos sob controle do regime norte-coreano após ser capturada com a mãe; décadas depois, ela conseguiu voltar ao Japão, mas nunca descobriu o que aconteceu com a mãe.
Redação NC News
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Aos 19 anos, Hitomi Soga saiu de casa para fazer compras com a mãe, na ilha japonesa de Sado. As duas voltavam para casa quando três homens apareceram por trás delas, cobriram suas bocas e colocaram sacos sobre suas cabeças.

Era o começo de um dos episódios mais traumáticos da vida de Hitomi.

Ela e a mãe haviam sido sequestradas e levadas para a Coreia do Norte, onde Hitomi permaneceria por 24 anos.

O que veio depois parece roteiro de filme, mas aconteceu de verdade: anos após o sequestro, ela recebeu uma ordem para se casar com um homem que nunca havia visto, Charles Jenkins, um soldado americano que havia desertado para a Coreia do Norte.

“Isto não é o Japão”
Depois de ser capturada, Hitomi foi levada por mar para a Coreia do Norte. Quando finalmente retiraram a venda de seus olhos, ela percebeu que estava em um lugar completamente diferente de sua terra natal.

“Isto não é o Japão”, pensou.

A jovem havia se tornado uma das vítimas de um programa secreto de sequestros promovido pelo regime norte-coreano durante as décadas de 1970 e 1980.

O Japão identificou pelo menos 17 cidadãos que teriam sido sequestrados pela Coreia do Norte nesse período.

A suspeita é de que algumas das vítimas tenham sido usadas como uma espécie de “manual vivo” para ensinar a agentes norte-coreanos o idioma, os costumes e a cultura de outros países.

Dois anos em um quartel militar

Os primeiros dois anos de Hitomi na Coreia do Norte foram passados em um quartel militar.

Ela não sabia onde estava a mãe e evitava perguntar aos responsáveis pelo local o que havia acontecido com ela.

O medo fazia parte da rotina.

Hitomi conta que, quando conseguia sair do quartel, olhava para o céu, via a lua e as estrelas e chorava pensando na família que havia deixado no Japão.

Mesmo sem saber quando,  ou se, voltaria para casa, ela manteve a esperança de que aquele período terminaria.

E essa esperança demorou mais de duas décadas para se concretizar.

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A ordem para se casar com um americano

Em 1980, Hitomi recebeu autorização para deixar o quartel. Mas a liberdade estava longe de chegar.

Ela foi informada de que deveria se casar com Charles Jenkins, um ex-sargento do Exército dos Estados Unidos que havia desertado para a Coreia do Norte em 1965.

Jenkins havia atravessado a Zona Desmilitarizada entre as duas Coreias durante a Guerra do Vietnã. Segundo relatos, ele acreditava que a deserção poderia ajudá-lo a escapar de uma possível transferência para o conflito.

Quando Hitomi o conheceu, não teve escolha sobre o casamento.

“Lembro-me do dia em que nos conhecemos. Era um dia muito chuvoso e eu sentia-me muito preocupada e nervosa”, contou ela.

A união também tinha uma utilidade para o regime de Pyongyang: juntar publicamente uma japonesa e um americano , cidadãos dos dois principais adversários da Coreia do Norte, poderia servir como propaganda.

O casamento que começou sem escolha

Apesar de ter sido obrigada a se casar, a relação tomou um caminho inesperado.

Hitomi conta que passou a amar profundamente Jenkins.

O casal teve duas filhas. Jenkins construía brinquedos e móveis para as crianças, e a família se tornou uma das poucas fontes de conforto em uma vida marcada pelo controle do regime.

“Meu momento mais feliz foi quando nossas filhas nasceram”, relembrou Hitomi.

A família, porém, vivia sob vigilância e tinha poucas opções de lazer. Não havia uma vida normal de trabalho, entretenimento ou liberdade de circulação.

Mesmo assim, Hitomi encontrou naquele núcleo familiar uma forma de sobreviver emocionalmente ao cativeiro.

A verdade veio à tona 24 anos depois

A vida de Hitomi mudou novamente em 2002.

Durante uma cúpula entre Japão e Coreia do Norte, o então líder norte-coreano Kim Jong-il admitiu que o regime havia sequestrado cidadãos japoneses.

O governo japonês acreditava que 17 pessoas haviam sido capturadas. A Coreia do Norte reconheceu 13 casos e afirmou que apenas cinco sequestrados permaneciam vivos.

Hitomi estava entre eles.

Pela primeira vez em décadas, ela teve a possibilidade de retornar ao país onde havia nascido.

Mas havia um problema: ela precisaria deixar o marido e as filhas na Coreia do Norte.

O reencontro com a família

Hitomi voltou ao Japão para uma visita e reencontrou o pai e a irmã, que passaram mais de duas décadas sem saber se ela ainda estava viva.

O reencontro foi marcado por lágrimas.

Ela decidiu permanecer no Japão.

O marido e as filhas, entretanto, ficaram na Coreia do Norte.

Somente dois anos depois, após negociações, Jenkins e as duas filhas conseguiram deixar o país.

Jenkins chegou ao Japão em 2004 e cumpriu 25 dias de uma pena de 30 dias após se declarar culpado, nos Estados Unidos, por deserção e auxílio ao inimigo.

A família finalmente conseguiu viver junta na ilha de Sado, terra natal de Hitomi.

O marido morreu, mas a busca continuou. Charles Jenkins morreu no Japão em 2017.

Depois da morte dele, Hitomi passou a dedicar ainda mais energia à campanha pela volta de outras pessoas sequestradas pela Coreia do Norte.

Mas existe uma pessoa que continua ocupando um espaço especial nessa luta:

sua mãe, Miyoshi.

Hitomi nunca descobriu definitivamente o que aconteceu com ela.

A mãe desapareceu no mesmo dia do sequestro e nunca retornou ao Japão.

Por isso, mesmo depois de recuperar a própria liberdade, Hitomi continuou esperando por respostas.

Uma história que ainda não terminou

A história de Hitomi Soga não terminou quando ela conseguiu voltar para casa.

Ela sobreviveu a 24 anos de cativeiro, construiu uma família em circunstâncias impostas pelo regime norte-coreano e finalmente reencontrou o Japão.

Mas uma parte daquela história permanece sem resposta.

Onde está Miyoshi?

É essa pergunta que mantém Hitomi envolvida na campanha pela repatriação dos japoneses sequestrados pela Coreia do Norte.

Para ela, o tempo é um adversário.

E cada dia que passa representa menos uma oportunidade de reencontrar aqueles que continuam desaparecidos.

1978 — Hitomi e a mãe são sequestradas no Japão

1980 — Hitomi é obrigada a se casar com Charles Jenkins

2002 — Coreia do Norte admite sequestros de cidadãos japoneses

2002 — Hitomi retorna ao Japão

2004 — Jenkins e as filhas se reencontram com Hitomi

2017 — Charles Jenkins morre

2026 — Hitomi continua lutando pelo retorno dos sequestrados

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Entenda o contexto
Os sequestros de estrangeiros pela Coreia do Norte são um dos capítulos mais controversos da história recente do regime de Pyongyang.

O próprio governo norte-coreano admitiu parte das capturas em 2002, mas o Japão continua pressionando por respostas sobre pessoas cujo destino permanece desconhecido.

Hitomi Soga é uma das sobreviventes que conseguiu voltar para casa.

Mas sua história também mostra que sobreviver ao sequestro não significa necessariamente encerrar a busca.

Ela recuperou a liberdade.

Mas nunca recuperou a mãe.

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