O que sobra da produção de suco de laranja pode valer muito mais do que parece; entenda

Pesquisa da UFSCar encontrou compostos bioativos de alto valor em cascas, sementes, bagaço e resíduos líquidos da indústria cítrica e aponta caminhos para transformar descarte em matéria-prima.
Redação NC News
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A indústria brasileira de suco de laranja produz muito mais do que aquilo que chega à garrafa.

Cascas, sementes, bagaço, óleos essenciais e até águas residuais ficam pelo caminho durante o processamento da fruta. Durante muito tempo, esses materiais foram tratados principalmente como resíduos. Agora, uma pesquisa da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) mostra que parte desse “resto” pode esconder algo bem mais valioso: compostos com potencial de uso nas indústrias de alimentos, cosméticos e farmacêutica.

O estudo, publicado na revista científica Foods, investigou diferentes etapas da produção industrial do suco e identificou substâncias bioativas que podem ser recuperadas por métodos mais eficientes e sustentáveis.

A ideia é simples, mas pode mudar a lógica da cadeia produtiva:

em vez de descartar o que sobra, a indústria pode recuperar o que há de valioso nesse material.

O que os pesquisadores encontraram?

Um dos principais destaques da pesquisa é a hesperidina, um flavonoide associado a propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias e que possui interesse para diferentes aplicações industriais.

Mas ela não está sozinha.

Os pesquisadores também identificaram compostos como:

D-limoneno;
valenceno;
α-pineno;
sabineno;
β-mirceno;
linalol;
carboidratos solúveis.
Cada uma dessas substâncias possui características químicas diferentes e pode apresentar interesse para determinados segmentos da indústria.

Hesperidina
Composto bioativo encontrado nos subprodutos da fruta e de interesse para a indústria.

D-limoneno
Terpeno presente principalmente nos óleos da casca e importante para o aroma característico dos cítricos.

Valenceno
Composto aromático encontrado na laranja e com potencial de aproveitamento industrial.

O problema estava justamente no que era descartado
O processamento industrial da laranja gera uma mistura bastante complexa de materiais.

A casca, por exemplo, concentra diferentes moléculas de interesse. O bagaço e as sementes também possuem componentes que podem ser aproveitados.

Já os resíduos líquidos apresentam outro desafio.

Um dos exemplos estudados pelos pesquisadores foi a chamada “água amarela”, um resíduo gerado na etapa final do processamento do suco.

A equipe identificou nela uma concentração elevada de D-limoneno.

E aí aparece um paradoxo: o mesmo composto que pode ter valor econômico também pode dificultar o tratamento desse resíduo, porque sua presença interfere na fermentação necessária para o processamento adequado da biomassa.

Ou seja: aquilo que precisa ser removido para tratar o resíduo pode, ao mesmo tempo, ser justamente uma das partes mais valiosas dele.

E se o resíduo virar matéria-prima?
É nesse ponto que entra o conceito de economia circular.

Em vez de seguir uma lógica linear — produzir, utilizar e descartar — a indústria tenta reaproveitar aquilo que sobra do processo.

No caso da laranja, isso significa recuperar moléculas que já estão presentes na fruta e transformá-las em matérias-primas para novos produtos.

A pesquisa da UFSCar aponta justamente nessa direção: reduzir o problema ambiental do descarte e, ao mesmo tempo, criar uma oportunidade econômica para a indústria.

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A tecnologia está na forma de extrair

O desafio não é simplesmente encontrar essas substâncias.

É conseguir retirá-las do resíduo de maneira eficiente, econômica e ambientalmente adequada.

Para isso, os pesquisadores utilizaram técnicas de análise química, incluindo ressonância magnética nuclear, cromatografia líquida de alta eficiência e cromatografia gasosa associada à espectrometria de massas.

A equipe também estudou métodos baseados nos princípios da chamada Química Verde, que busca reduzir o uso de substâncias perigosas, diminuir etapas desnecessárias e tornar os processos químicos menos agressivos ao ambiente.

Um dos caminhos avaliados foi a extração assistida por micro-ondas, que permitiu recuperar hesperidina com elevado grau de pureza e reduzir etapas do processo.

Onde esse material poderia ser usado?

A possibilidade mais interessante está justamente na variedade de aplicações.

Os compostos recuperados podem ter interesse para setores como:

Alimentos

Ingredientes e compostos bioativos podem ser aproveitados em pesquisas voltadas ao desenvolvimento de novos produtos.

Cosméticos

Substâncias com propriedades antioxidantes e aromáticas podem ter interesse para formulações e ingredientes.

Farmacêutico

Alguns compostos identificados são objeto de estudos por suas propriedades biológicas.

É importante destacar que a pesquisa identifica potencial e possibilidades de aproveitamento. Isso não significa que todos os compostos já estejam sendo transformados comercialmente em medicamentos ou cosméticos.

O tamanho da oportunidade

A transformação de resíduos em matéria-prima pode ter impacto econômico porque a indústria citrícola movimenta grandes volumes de frutas e, consequentemente, produz grandes quantidades de subprodutos.

O estudo mostra que uma parcela significativa desses materiais ainda é pouco explorada em relação ao seu potencial químico.

A recuperação dos compostos pode criar uma segunda fonte de valor dentro da mesma cadeia produtiva.

É como se a indústria pudesse encontrar um segundo produto escondido dentro do primeiro.

A laranja já foi transformada em suco.

Mas seus resíduos ainda podem ser transformados em ingredientes, matérias-primas e compostos de interesse comercial.

Um resíduo que também é um problema ambiental
O aproveitamento não tem apenas uma dimensão econômica.

O descarte inadequado de grandes volumes de resíduos agroindustriais pode gerar impactos ambientais. Por isso, encontrar maneiras de utilizar esses materiais também significa reduzir desperdícios e melhorar o tratamento dos subprodutos da produção.

A proposta da pesquisa é justamente aproximar duas agendas que normalmente aparecem separadas:

sustentabilidade e geração de valor.

Em vez de enxergar o resíduo apenas como aquilo que precisa desaparecer, a indústria pode passar a enxergá-lo como uma fonte de novos produtos.

O que acontece agora?
A pesquisa representa um avanço na identificação e recuperação dos compostos, mas ainda existe um caminho entre o laboratório e a produção em escala industrial.

É preciso avaliar custos, eficiência, estabilidade dos compostos, adaptação dos processos e viabilidade econômica.

Mesmo assim, o estudo abre uma possibilidade importante para a cadeia citrícola:

o que hoje sai da indústria como resíduo pode, em determinadas condições, voltar para a cadeia como matéria-prima de maior valor agregado.

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ENTENDA O CONTEXTO
A produção de suco não termina quando o líquido é separado da fruta.

Grande parte da matéria-prima continua presente nos subprodutos do processamento. A pesquisa da UFSCar mostra que esses materiais carregam uma variedade de compostos químicos que podem ser recuperados.

O desafio agora é fazer isso de maneira eficiente, sustentável e economicamente viável.

Se essa lógica avançar, a indústria poderá aproveitar mais partes da mesma fruta, reduzir desperdícios e criar novas possibilidades de negócio.

No fim, a descoberta está justamente onde menos se esperava:

no que sobra.

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