Um relatório sigiloso da Polícia Federal descreve uma sequência de almoços, jantares e reuniões entre o empresário Daniel Vorcaro e o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, com intermediação do ex-ministro Fabio Faria e uso de aparato de segurança oficial.
O documento, encaminhado ao ministro André Mendonça, se apoia na análise do iPhone 17 Pro apreendido com Vorcaro na Operação Compliance Zero e traça uma cronologia de encontros em Brasília, Campos do Jordão e Londres, além de conversas com políticos e autoridades econômicas.
Rede de encontros e uso de estrutura oficial
A PF afirma que os dados extraídos do celular mostram um relacionamento frequente, com registros de encontros entre dezembro de 2023 e agosto de 2025. As mensagens, segundo o relatório, indicam tanto reuniões reservadas em hotéis de luxo quanto encontros em endereços vinculados a autoridades de Brasília.
Em 21/12/2023, o então ministro Fabio Faria pede, por mensagem, que Vorcaro envie a placa e o modelo do carro para “autorizar a segurança a acompanhar na garagem” do endereço identificado como “Tucumã 99”. O relatório interpreta esse diálogo como preparação para um encontro presencial mediado por Faria, com suporte de escolta.
Seis dias depois, em 27/12/2023, Vorcaro organiza um almoço com “Alex” no hotel Six Senses Botanique, em Campos do Jordão, interior de São Paulo. A PF relaciona esse “Alex” a Alexandre de Moraes dentro do contexto das mensagens, embora ressalte que trabalha com inferências a partir dos diálogos e não com certificação pericial da presença do ministro em cada local.
Em outro trecho, um contato salvo como “Motorista Brasilia Sidney” envia a Vorcaro o aviso: “Min Alexandre chegou”. O registro, incluído no relatório, é usado pelos investigadores para ilustrar a dinâmica de deslocamentos do ministro em Brasília, com interlocução direta com o empresário. A PF não aponta a qual órgão pertence o motorista nem formaliza a identificação do número como vinculado ao Supremo.
Mensagens revelam reuniões com políticos e autoridade do BC
O relatório dedica uma subseção a “outros encontros” entre Vorcaro e Moraes, reconstruídos a partir de conversas por aplicativos e anotações no app Notas. Em 15/11/2024, durante troca de mensagens com a filha, Stella, Vorcaro escreve que está “com alexandre moraes”. Os peritos destacam esse diálogo como evidência de proximidade e naturalidade do convívio.
Em 19/03/2025, às 20h23, Vorcaro informa à influenciadora Martha Graeff que está com “o ministro”. Mais tarde, no mesmo dia, manda mensagem a Paulo Sergio, ligado ao Banco Central, dizendo estar “com Moraes aqui”. A PF registra esses trechos literalmente para mostrar que o empresário insere o ministro em conversas com uma autoridade do sistema financeiro.
Na madrugada de 20/03/2025, ainda segundo o relatório, Vorcaro relata que “acabou chegando hugo e ciro aqui pra falarem com Alexandre”. O documento não identifica oficialmente quem são Hugo e Ciro, mas ressalta que se tratam de figuras políticas mencionadas em outros trechos do material apreendido. A PF evita, nessa etapa, aprofundar a investigação sobre autoridades com foro, limitando-se a descrever o conteúdo bruto das mensagens.
O padrão se repete em 19/04/2025. Em conversa com Martha, Vorcaro afirma que está “indo encontrar alexandre moraes aqui perto de casa” e acrescenta que o ministro passará o feriado em Campos do Jordão. Em 08/08/2025, ele volta a justificar a mesma interlocutora: “não viajarei porque estou com alexandre e depois terei reunião com ciro”. Os investigadores ressaltam a frequência com que o nome do ministro aparece associado a decisões de agenda do empresário.
Londres entra no radar e PF limita alcance sobre autoridades
O documento também menciona um evento em Londres, descrito na seção específica sobre o tema. Segundo a PF, notas e mensagens sugerem encontros internacionais em que Vorcaro e Moraes estariam no mesmo ambiente. Os trechos indicam deslocamentos ao exterior e encontros sociais, mas os investigadores tratam essas referências com cautela e frisam que não se trata de perícia sobre presença física conjunta.
Na contextualização geral, a PF lembra que a Operação Compliance Zero apura fraudes na cessão de carteiras de crédito de cerca de R$ 12 bilhões entre o Banco Master, ligado a Vorcaro, e o BRB. O relatório sigiloso foi produzido a pedido do relator, que determinou a identificação de pessoas citadas em mensagens, inclusive autoridades com foro.
A própria PF registra que não realizou “aprofundamento investigativo” em relação a ministros, membros do Ministério Público ou outras autoridades com prerrogativa de foro. A orientação do Supremo, reproduzida no texto, é que, neste momento, a polícia apenas apresente o material bruto e faça a identificação preliminar dos citados, sem avançar sobre eventual responsabilidade penal de magistrados.
Os delegados também ponderam, em considerações técnicas, que expressões como “Min Alexandre” ou referências a “Moraes” e “Alex” são interpretadas a partir do contexto e podem se referir a Alexandre de Moraes, mas não constituem, sozinhas, prova definitiva de autoria ou presença. Menções ao nome do ministro em metadados de arquivos são tratadas como dados técnicos, que ainda dependem de eventual perícia independente ou contraditório das partes.
Pressão sobre instituições e presunção de inocência
A cronologia descrita pela PF tem impacto direto sobre o debate público em torno da independência entre o Supremo, o meio empresarial e a classe política. A sucessão de encontros em Brasília, Campos do Jordão e Londres, combinada com mensagens envolvendo figuras como Fabio Faria, Hugo, Ciro e um representante do Banco Central, alimenta questionamentos sobre eventuais conflitos de interesse e acesso privilegiado.
O relatório, porém, não conclui pela prática de crime por parte de Moraes, de Vorcaro ou dos demais citados. A PF se limita a registrar que as interações podem, em tese, compor uma “rede de influência e monitoramento” gerida pelo empresário, mas ressalta que essa é a hipótese em apuração na Operação Compliance Zero, ainda sem julgamento de mérito.
Ninguém citado no documento foi condenado em relação aos fatos descritos. A existência do relatório não significa culpa ou comprovação de ilegalidade. Eventuais irregularidades só podem ser reconhecidas após investigação completa, direito de defesa e decisão judicial definitiva.
O Ministério da Justiça e Segurança Pública encaminha o relatório ao ministro André Mendonça, que acompanha o caso no Supremo. A partir de agora, caberá ao tribunal e a outros órgãos de controle decidir se abrem novas frentes de apuração, se pedem perícias adicionais ou se mantêm o material apenas como subsídio à investigação principal.
A reportagem procurará as defesas de Daniel Vorcaro, de Alexandre de Moraes, de Fabio Faria e das demais pessoas mencionadas, que têm espaço aberto para se manifestar sobre o teor do relatório e as interpretações da Polícia Federal.
A tendência é que, com a circulação do documento em Brasília, cresçam as pressões por regras mais claras para encontros entre magistrados e empresários investigados, bem como por transparência na atuação de autoridades do Judiciário. Próximos passos podem envolver pedidos de esclarecimento formais, oitivas de envolvidos e eventual cooperação internacional para esclarecer os pontos ligados a Londres.
O que o relatório da PF diz sobre encontros entre Vorcaro e Moraes?
O relatório sigiloso da Polícia Federal, de 27/08/2026, descreve encontros recorrentes entre Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes entre 21/12/2023 e 08/08/2025, com registros de almoços em Campos do Jordão, reuniões em Brasília, menção a evento em Londres e mensagens citando jantares com políticos e um representante do Banco Central.
O documento conclui que houve crime cometido por autoridades?
O relatório de 27/08/2026 não conclui que houve crime cometido por Alexandre de Moraes ou outras autoridades; ele apenas descreve mensagens e encontros, registra a hipótese de uma rede de influência ligada a Vorcaro e afirma expressamente que não houve aprofundamento investigativo sobre ministros ou membros do Ministério Público.
O que pode acontecer a partir da entrega do relatório ao STF?
O envio do relatório ao ministro André Mendonça em 27/08/2026 abre espaço para o STF decidir se pedirá novas diligências, como perícias complementares, oitivas de envolvidos ou cooperação internacional, ou se manterá o material apenas como subsídio à Operação Compliance Zero, sempre sem antecipar qualquer juízo de culpa.