PF vincula 52 notas fiscais a contato de Moraes em 3 semanas

Documento sigiloso revela envio de notas fiscais digitais para contato associado a Alexandre de Moraes em curto período.
Redação NC News
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Um relatório sigiloso da Polícia Federal descreve que 52 notas fiscais digitais saem do celular de Daniel Vorcaro para um número salvo como “Alexandre de Moraes BRASILIA”, em um intervalo de três semanas. O documento detalha a trilha técnica desses envios via WhatsApp e associa o terminal ao número 556192664093, sem cravar formalmente a titularidade da linha.

O material, registrado como IPJ-A nº 3298613/2026 e datado de 27 de agosto, chega ao gabinete do ministro André Mendonça, no Supremo Tribunal Federal, como resposta às cobranças por detalhes da Operação Compliance Zero. A apuração mira uma rede de influência atribuída a Vorcaro e tenta esclarecer o papel de autoridades citadas nas mensagens.

Como a PF reconstrói o caminho das 52 notas

O relatório se baseia na análise de um iPhone 17 Pro, IMEI A 358829560150138, apreendido em Brasília sob o Termo de Apreensão nº 4473731/2025, durante o cumprimento de mandado no âmbito da Compliance Zero. Técnicos da PF extraem os dados com ferramentas forenses e registram o procedimento no Laudo nº 4281/2025 da área de perícia (SETEC/SR/PF/SP).

Para reconstruir o fluxo das notas fiscais, os peritos usam dois programas especializados — o IPED 4.2.2, voltado à indexação de evidências digitais, e o Cellebrite Reader 10.7.1.5013, que lê cópias forenses de celulares. A metodologia combina registros internos do sistema iOS, que mostram o uso de aplicativos e a criação de arquivos temporários em PDF, com os históricos de conversa do WhatsApp instalado no aparelho.

Daí surge o padrão descrito no texto. Antes de cada envio, Vorcaro abre o aplicativo de notas, edita o documento, tira um screenshot e gera um PDF guardado na pasta temporária (tmp) do sistema. Em seguida, segundo o relatório, esse arquivo é encaminhado por WhatsApp ao contato que aparece na agenda como “Alexandre de Moraes BRASILIA”.

“Ou seja, os dados do sistema apontam que, segundos após dar um screenshot das notas trazidas na IPJ 144738439/2026, DANIEL VORCARO envia uma mensagem de Whatsapp a ‘Alexandre de Moraes BRASILIA’”, registra o documento da Polícia Federal. A partir desse método, os analistas localizam 52 notas enviadas ao mesmo destinatário entre 28 de outubro e 17 de novembro do ano passado.

Quem é o destinatário e o que a PF diz que sabe

O número que recebe as mensagens é identificado nos arquivos como 556192664093. Na agenda do iPhone, o contato aparece associado à descrição “Alexandre de Moraes BRASILIA”, conforme uma imagem reproduzida na Figura 11 do relatório. Em mais de um trecho, os investigadores tratam o destinatário das notas como “Ministro Alexandre de Moraes”, mas não apresentam um laudo específico de titularidade da linha.

Os peritos destacam um episódio anterior ao envio em massa das notas. Em 17 de setembro do ano passado, o mesmo contato ativa, na conversa com Vorcaro, o recurso de mensagens temporárias com prazo de 24 horas. O relatório descreve o ajuste como marco relevante na dinâmica da comunicação, por aumentar a dificuldade de recuperar trechos apagados automaticamente.

O documento não se limita aos envios de notas. Em mais de 200 páginas, a equipe da PF recompõe a cronologia dos primeiros contatos entre Vorcaro e o que chama de “Ministro Alexandre de Moraes”, menciona a assinatura de contratos com o escritório de advocacia de Viviane de Moraes e descreve trocas de mensagens sobre cobranças de pagamento e encontros presenciais. Boa parte desses pontos aparece resumida no sumário, mas os detalhes permanecem sob sigilo.

Os investigadores deixam registrado que, em relação a autoridades com foro, não há “aprofundamento investigativo” além da descrição técnica do que foi encontrado no celular. Nos trechos finais, o texto ressalta que a análise se volta sobretudo à conduta de Daniel Vorcaro e de outros investigados da Operação Compliance Zero, e que qualquer interpretação sobre participação de ministros ou membros do Ministério Público dependeria de nova decisão judicial.

Operação Compliance Zero e limites da apuração

A Compliance Zero, deflagrada no ano passado, apura suspeitas de fraudes na cessão de carteiras de crédito do Banco Master para o Banco de Brasília (BRB), em montante estimado pela PF em cerca de R$ 12 bilhões. Vorcaro, proprietário do Banco Master, é apontado no relatório como suposto líder do esquema em apuração, o que motivou sua prisão e a apreensão do celular agora analisado.

O relatório entregue a André Mendonça busca atender a uma ordem do ministro, que havia exigido atualização detalhada sobre a identificação de pessoas integradas a uma “rede de influência e monitoramento” atribuída a Vorcaro. A determinação menciona expressamente a necessidade de apontar nomes de eventuais autoridades com foro e de reunir todas as interações digitais ligadas a elas.

Ao mesmo tempo, o despacho de Mendonça reproduzido no documento reforça balizas para a Polícia Federal, como a preservação do sigilo e a compartimentação entre inteligência e investigação. A orientação funciona como um freio para hipóteses amplas: os delegados devem relatar o que aparece nas evidências, mas evitar extrapolações que escapem ao escopo do material apreendido.

Dentro dessas balizas, os analistas também examinam como as notas fiscais mencionam outras figuras do meio jurídico e político. Os capítulos finais tratam de buscas por termos ligados a “Paulo Gonet” e “Andrei Passos”, por exemplo, e discutem se determinadas referências podem se relacionar ao procurador-geral da República e ao diretor-geral da PF. Os autores, porém, registram que tais associações permanecem em nível de hipótese e exigiriam confirmação independente.

O que muda agora e o que ainda falta responder

O envio em série de 52 notas fiscais ao número 556192664093 coloca no centro da Operação Compliance Zero a relação entre Daniel Vorcaro e o contato salvo como “Alexandre de Moraes BRASILIA”. Para a PF, a descoberta fortalece a narrativa de uma comunicação estruturada, com padrão técnico repetido, e de uma preocupação explícita com a segurança das conversas, diante da adoção de mensagens que somem em 24 horas.

Na prática, o relatório não condena ninguém. A Polícia Federal relata dados e descreve comportamentos, mas não atribui crime consumado ao ministro Alexandre de Moraes nem a outras autoridades citadas. Os próprios peritos registram que o documento é uma “informação de polícia judiciária”, voltada a orientar decisões posteriores do relator e de eventuais novas investigações.

Também não há, até aqui, decisão judicial que trate o conteúdo dessas notas fiscais como prova de ilícito cometido por magistrados, integrantes do Ministério Público ou dirigentes policiais. Qualquer responsabilização dependeria de abertura de procedimento próprio, com direito a contraditório, produção de provas e julgamento colegiado ou monocrático, conforme o caso.

A reportagem busca contato com as defesas de Daniel Vorcaro, do ministro Alexandre de Moraes, do Banco Master e do BRB. As partes citadas terão espaço para contestar, explicar ou complementar as informações constantes do relatório. O Ministério da Justiça e Segurança Pública, ao qual a PF é subordinada, também pode se manifestar sobre os métodos e os limites da apuração.

Os próximos passos dependem da leitura que André Mendonça fará do IPJ-A nº 3298613/2026. O ministro pode requisitar diligências extras, determinar perícias complementares — por exemplo, sobre a titularidade formal do número 556192664093 — ou submeter o caso ao plenário do Supremo se entender que há indícios relevantes contra autoridades com foro. Até lá, o conjunto de 52 notas fiscais permanece como dado bruto, ainda distante de qualquer sentença.

O que exatamente a PF atribui ao contato ‘Alexandre de Moraes BRASILIA’?

O relatório IPJ-A nº 3298613/2026 da Polícia Federal atribui ao contato salvo como “Alexandre de Moraes BRASILIA”, vinculado ao número 556192664093, o recebimento de 52 notas fiscais digitais enviadas por WhatsApp entre 28/10/2025 e 17/11/2025 e a ativação, em 17/09/2025, de mensagens temporárias de 24 horas na conversa com Daniel Vorcaro.

O relatório significa que Alexandre de Moraes cometeu crime?

O documento sigiloso da Polícia Federal não afirma que o ministro Alexandre de Moraes cometeu crime; ele apenas descreve dados técnicos colhidos no iPhone 17 Pro de Daniel Vorcaro, detalha o envio de 52 notas fiscais ao número 556192664093 e registra interações, sem apresentar acusação formal nem qualquer decisão judicial de condenação.

Qual é o papel do ministro André Mendonça nesse caso?

O ministro André Mendonça atua como relator no Supremo de pedidos ligados à Operação Compliance Zero, requisitou que a Polícia Federal detalhasse as comunicações de Daniel Vorcaro com possíveis autoridades, recebeu o relatório IPJ-A nº 3298613/2026 e agora pode decidir se pede novas diligências, perícias adicionais ou eventual abertura de procedimentos específicos.


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