Paulistano procura emprego na internet e acaba vítima de tráfico humano em Madagascar

Homem de 27 anos encontrou falsa vaga em grupo do Telegram e foi levado do Brasil ao Camboja antes de ser transferido para Madagascar com outros 22 brasileiros
Redação NC News
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Um paulistano de 27 anos que procurava emprego em São Paulo acabou vítima de uma rede internacional de tráfico humano após aceitar uma falsa oferta de trabalho encontrada em um grupo do Telegram. O homem foi levado ao Camboja e, posteriormente, transferido para Madagascar, na África, onde afirma ter sido obrigado a participar de golpes financeiros e sofreu ameaças durante uma tentativa de fuga.

Ele está agora em Antananarivo, capital de Madagascar, com outros 22 brasileiros que também conseguiram escapar da organização. O grupo tenta voltar ao Brasil, mas afirma estar sem os passaportes e sem dinheiro para comprar as passagens.

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Entenda O Que Aconteceu

O paulistano estava desempregado e buscava uma oportunidade que pudesse melhorar sua situação financeira. Segundo o relato, ele havia perdido a habilitação e estava com dificuldades para encontrar trabalho em São Paulo.

Foi nesse período que encontrou, no Telegram, uma oferta de emprego no exterior.

“Eu estava pesquisando empregos porque queria uma fonte de renda boa. Eu tinha perdido minha habilitação e não estava conseguindo emprego em São Paulo. Então fui procurar na internet. Nisso, caí em um grupo no Telegram que oferecia vaga de emprego no exterior.”

A proposta incluía passagem, alimentação, moradia e treinamento. O trabalho seria inicialmente apresentado como uma vaga de suporte para aplicativos, que poderiam envolver jogos e apostas.

A promessa parecia uma oportunidade para recomeçar.

Viagem Levou Ao Camboja

O destino informado aos brasileiros era o Camboja, no Sudeste Asiático.

O paulistano chegou ao país em meados de abril. Segundo seu relato, foi recebido no aeroporto e levado de carro por aproximadamente seis a oito horas até o local onde funcionaria a suposta empresa.

Ao chegar, encontrou trabalhadores de diferentes nacionalidades, incluindo brasileiros, chineses, cambojanos e angolanos.

Pouco tempo depois, porém, percebeu que a realidade era diferente da promessa feita durante o recrutamento.

Os trabalhadores não tinham horários definidos, a internet foi retirada e o grupo começou a ser transferido de um local para outro.

Segundo o brasileiro, os responsáveis afirmavam que estavam fugindo da polícia e sendo investigados.

Passaporte Foi Recolhido

O passaporte do paulistano foi recolhido logo após sua chegada ao Camboja.

A justificativa apresentada pelos responsáveis era de que o documento seria necessário para regularizar o visto.

Ele afirma que só voltou a ter contato com o passaporte quando o grupo deixou o Camboja com destino a Madagascar.

A partir daquele momento, segundo o relato, os brasileiros perderam ainda mais liberdade de circulação.

Trabalho Virou Golpe Financeiro

A vaga de emprego também não correspondia ao que havia sido prometido.

Os brasileiros passaram a ser obrigados a participar de golpes financeiros pela internet, cumprindo jornadas extensas e metas determinadas pelos responsáveis.

O paulistano afirma que chegava a trabalhar cerca de 10 horas por dia e, depois do expediente, ainda precisava copiar à mão os roteiros utilizados nos golpes.

Em alguns casos, eram exigidas até dez cópias.

Também havia punições financeiras. Segundo o relato, um atraso de apenas um minuto poderia gerar uma multa de US$ 200.

Transferência Para Madagascar

Com o aumento da pressão policial no Camboja, os brasileiros foram levados para Madagascar.

No novo destino, a circulação continuava controlada. Segundo o paulistano, os trabalhadores permaneciam em um complexo protegido por policiais malgaxes armados e precisavam de autorização para sair.

Os celulares também eram recolhidos durante o expediente.

O brasileiro afirma que evitava contar à família o que estava acontecendo porque temia que os criminosos pudessem atingir seus parentes.

Segundo ele, os responsáveis chegaram a mostrar fotografias das casas de familiares de trabalhadores como forma de intimidação.

Fuga Terminou Em Prisão

Em 19 de agosto, os 23 brasileiros foram presos pelas autoridades de Madagascar sob acusação de envolvimento em golpes financeiros.

O paulistano afirma que os policiais chegaram ao local com uma lista indicando os quartos onde estavam os trabalhadores.

Durante a confusão, ele conseguiu fugir e se esconder na casa da namorada de um amigo.

Depois, reencontrou os demais brasileiros.

O grupo afirma que, durante o período de prisão, também sofreu ameaças e violência. O paulistano relatou ter ficado em uma cela pequena e escura e afirmou que chegou a ter armas apontadas para ele durante uma tentativa de fuga.

“Eu achei que não ia realmente estar vivo, porque, por vários momentos, tive a arma apontada para mim. Estavam vendendo a gente.”

Brasileiros Tentam Voltar Para Casa

Depois de escapar, o grupo passou a receber ajuda de organizações e voluntários locais. Os brasileiros continuam em Antananarivo e afirmam que enfrentam dificuldades para retornar ao país.

Os passaportes permanecem sob posse das autoridades locais, e o grupo diz não ter dinheiro para comprar as passagens.

Um pedido de ajuda foi enviado ao Itamaraty em 29 de agosto, com solicitações de repatriação, devolução dos documentos e assistência consular.

O Ministério das Relações Exteriores informou que a Embaixada do Brasil em Maputo, responsável pelo atendimento consular em Madagascar, presta assistência aos brasileiros e mantém contato com as autoridades locais.

Entenda O Contexto

O caso mostra como redes internacionais de tráfico humano podem usar falsas ofertas de emprego para atrair pessoas em situação de vulnerabilidade. No caso do paulistano, a abordagem aconteceu pela internet, em um grupo do Telegram, com promessa de salário, moradia, alimentação e uma oportunidade de trabalho no exterior.

Depois da viagem, porém, ele afirma ter perdido o controle sobre os próprios documentos e ter sido obrigado a participar de golpes financeiros. A rota passou pelo Camboja e terminou em Madagascar, onde ele e outros 22 brasileiros conseguiram escapar. Agora, o grupo busca assistência para deixar o país e retornar ao Brasil.

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