O empresário João Carlos Mansur, ex-dono da Reag Investimentos, afirmou em uma delação premiada que fundos administrados pela gestora teriam sido utilizados para ocultar pagamentos de propina atribuídos a Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.
A colaboração foi firmada com a Procuradoria-Geral da República (PGR) e encaminhada ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que deverá analisar o acordo antes de uma eventual homologação. A Polícia Federal participou do início das negociações, mas não continuou nas tratativas.
Segundo pessoas que tiveram conhecimento do conteúdo da colaboração, Mansur descreveu a participação da Reag e de fundos de investimento em operações relacionadas ao grupo de Vorcaro. O empresário também teria apontado pessoas que atuariam como laranjas para ocultar a origem ou o destino dos recursos.
A delação pode fornecer aos investigadores informações sobre movimentações financeiras que já são alvo de apurações, incluindo recursos enviados para empresas offshore no exterior. Mansur teria apresentado detalhes sobre essas operações e sobre a localização de parte do dinheiro investigado.
VEJA TAMBÉM
Quem é Karina Gama, produtora de Dark Horse alvo de operação da PF em SP
Delação pode ajudar na recuperação de dinheiro enviado ao exterior
Um dos pontos considerados relevantes pelos investigadores é a possibilidade de localizar e recuperar recursos que teriam sido enviados para fora do Brasil.
De acordo com as informações sobre a colaboração, parte do dinheiro investigado estaria em estruturas financeiras no exterior. O acordo pode facilitar a repatriação desses valores, dependendo das medidas adotadas pelas autoridades e da homologação da delação.
Mansur também teria se comprometido a pagar uma multa de R$ 40 milhões como parte do acordo firmado com a PGR. O valor seria uma das condições estabelecidas para a colaboração.
As informações, porém, ainda não representam uma confirmação judicial das acusações. A delação precisa ser analisada e homologada pelo STF, e as declarações do colaborador devem ser confrontadas com documentos e outras provas produzidas nas investigações.
Mansur também é investigado no caso
A situação de João Carlos Mansur não se limita à condição de colaborador. O empresário também é investigado em apurações relacionadas ao Banco Master e à própria Reag.
A Polícia Federal suspeita que fundos administrados pela gestora tenham sido utilizados para ocultar pagamentos ilícitos envolvendo imóveis e Paulo Henrique Costa, ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), que também está preso no âmbito das investigações.
Em janeiro de 2026, Mansur foi alvo de busca e apreensão durante uma fase da operação Compliance Zero, que investiga suspeitas relacionadas ao Banco Master. Ele não foi preso naquela ocasião.
A Reag, que chegou a ser uma das maiores gestoras independentes do país, foi liquidada pelo Banco Central em janeiro deste ano. A autoridade monetária apontou comprometimento da situação econômico-financeira e graves violações das normas que regulam as instituições do Sistema Financeiro Nacional.
Outro delator também cita Vorcaro
A colaboração de Mansur ocorre ao mesmo tempo em que outro personagem ligado ao caso Master também fechou acordo com a PGR.
Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro, apresentou informações sobre movimentações financeiras atribuídas a Vorcaro. Segundo as investigações, ele teria atuado em transferências internacionais e na movimentação de dinheiro em espécie.
Freixo Júnior também teria relatado repasses que chegaram ao fundo Havengate, nos Estados Unidos, utilizado para financiar o filme Dark Horse, produção sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. O ministro André Mendonça homologou a colaboração do empresário.
A existência de duas colaborações aumenta a quantidade de informações disponíveis aos investigadores sobre a estrutura financeira atribuída ao grupo de Vorcaro. As autoridades agora podem cruzar os relatos dos dois colaboradores com documentos, movimentações bancárias e outros elementos já obtidos nas operações.
Vorcaro ainda não fechou delação
Daniel Vorcaro, apontado como personagem central das investigações relacionadas ao Banco Master, não firmou até o momento um acordo de colaboração premiada.
Segundo as informações divulgadas sobre o caso, ele teria apresentado propostas de colaboração, mas as negociações não avançaram. Em depoimentos recentes, Vorcaro afirma ser vítima do sistema e nega as acusações feitas contra ele.
A defesa do ex-banqueiro afirmou que não teve acesso aos anexos da colaboração de Mansur e, por isso, não poderia comentar especificamente as acusações apresentadas pelo empresário. A defesa de Mansur também não havia se manifestado sobre o conteúdo da delação.
LEIA TAMBÉM
Flávio tem 47% contra 45% de Lula no 2º turno, aponta PoderData/Aya
Entenda O Contexto
O caso envolve uma série de investigações sobre operações financeiras relacionadas ao Banco Master, à Reag Investimentos e a pessoas que mantinham relações empresariais ou financeiras com Daniel Vorcaro. As apurações buscam esclarecer suspeitas de fraudes, lavagem de dinheiro, ocultação de beneficiários e outras irregularidades. A Reag acabou liquidada pelo Banco Central após a autoridade apontar problemas econômico-financeiros e violações das regras do sistema financeiro.
João Carlos Mansur passou de investigado a colaborador em uma tentativa de apresentar informações às autoridades em troca dos benefícios previstos em um acordo de colaboração premiada. Entretanto, a delação ainda precisa ser homologada pelo STF. Mesmo depois da homologação, as declarações de um colaborador não são suficientes, por si só, para comprovar crimes: elas precisam ser confirmadas por outros elementos de prova.
O acordo também acontece em um momento de avanço das investigações sobre o entorno financeiro de Vorcaro. Além de Mansur, Antônio Carlos Freixo Júnior firmou colaboração e apresentou informações sobre movimentações de dinheiro atribuídas ao ex-banqueiro. Os relatos podem ajudar a Polícia Federal e o Ministério Público a reconstruir o caminho de recursos e identificar eventuais beneficiários, mas as responsabilidades individuais ainda dependem da apuração e das decisões judiciais.
AS MAIS LIDAS DO NC NEWS
Beber chá ou café muito quente pode triplicar risco de câncer de esôfago, aponta estudo