Mensagens, contratos e encontros: o que a PF aponta na relação entre Moraes e Vorcaro

Relatório reúne 52 mensagens, contatos antes da prisão de Daniel Vorcaro, encontros entre o ex-banqueiro e o ministro e contratos milionários envolvendo o escritório da esposa de Alexandre de Moraes
Redação NC News
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A relação entre o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, antigo controlador do Banco Master, passou a ocupar o centro de uma das mais delicadas crises internas da Corte.

Um relatório produzido pela Polícia Federal reúne 52 mensagens trocadas entre dezembro de 2023 e novembro de 2025, além de registros de encontros, contratos e outros contatos que, segundo os investigadores, indicariam uma relação próxima entre Moraes e Vorcaro.

O material será analisado pelo STF nesta terça-feira (15), em uma sessão que poderá definir se existem elementos para abrir uma investigação contra o ministro ou se o caso deverá ser arquivado. A Procuradoria-Geral da República (PGR), por sua vez, defende a anulação do relatório por supostos vícios em sua origem.

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As mensagens que chamaram a atenção da PF

Grande parte do relatório foi construída a partir de mensagens enviadas por Vorcaro a um contato que estava salvo no celular do ex-banqueiro como “Alexandre de Moraes BRASILIA”.

Segundo a PF, foram recuperados conteúdos enviados pelo empresário entre 2023 e 2025. As respostas de Moraes, entretanto, não aparecem integralmente no material divulgado.

A investigação aponta que Vorcaro utilizava mensagens temporárias e, em algumas situações, escrevia textos no aplicativo de notas do iPhone, fazia capturas de tela e posteriormente enviava as imagens pelo WhatsApp. A PF afirma ter recuperado parte desse conteúdo por meio dos arquivos encontrados no aparelho.

Um dos episódios considerados mais relevantes ocorreu em novembro de 2025, pouco antes da prisão do empresário.

Em 15 de novembro, dois dias antes de sua primeira prisão, Vorcaro teria enviado a Moraes uma pergunta direta:

“Acha que segunda já tenho que estar fora?”

Na mesma sequência, o empresário questionou se o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, tinha conhecimento do que estava acontecendo e perguntou:

“Conseguimos fazer algo?”

No dia seguinte, Vorcaro voltou a procurar o contato atribuído ao ministro e perguntou sobre a possibilidade de uma operação ocorrer na manhã seguinte.

Para a PF, as mensagens indicam que o ex-banqueiro buscava informações sobre o avanço da Operação Compliance Zero, que atingiria diretamente o Banco Master.

“Estou online”: mensagem antes da prisão

Outro episódio ocorreu em 17 de novembro de 2025.

Minutos antes de ser preso no Aeroporto Internacional de Guarulhos, Vorcaro enviou uma nova mensagem ao contato salvo como Moraes.

“Estou online”

A mensagem teria sido enviada enquanto o empresário informava que estava a caminho de uma viagem internacional.

Pouco depois, Vorcaro foi preso. Na manhã seguinte, a Polícia Federal deflagrou a primeira fase da Operação Compliance Zero, enquanto o Banco Central determinou a liquidação extrajudicial do Banco Master.

A proximidade temporal entre as mensagens e os acontecimentos posteriores é um dos elementos considerados pela investigação.

“Gratidão da minha vida”

Outro trecho destacado pela PF ocorreu um dia antes de Vorcaro questionar se deveria deixar o país.

Em uma mensagem enviada a Moraes, o empresário escreveu:

“Você sabe que tenho gratidão da minha vida a você.”

Na mesma mensagem, Vorcaro afirmou que sua família, funcionários e parceiros teriam uma “dívida de vida” com o ministro e sua família.

Também agradeceu ao magistrado “por tudo”.

Para os investigadores, o conteúdo, analisado em conjunto com os demais registros, reforçaria a existência de uma relação de proximidade entre Vorcaro e Moraes.

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A relação entre os dois também aparece em outros pontos do relatório. A PF cita encontros presenciais, participação em eventos e situações nas quais Vorcaro teria buscado a aprovação ou orientação de Moraes para determinadas decisões.

O conjunto dos elementos é justamente o que o Supremo terá de avaliar para decidir se existe fundamento para uma investigação formal.

Contrato de R$ 130 milhões

Outro ponto sensível está relacionado ao escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro.

Segundo o relatório da PF, o Banco Master firmou um contrato estimado em R$ 130 milhões com o escritório.

Os investigadores identificaram registros digitais que, segundo a apuração, indicariam que Alexandre de Moraes participou da análise de versões do documento.

O escritório afirma que a participação do ministro ocorreu exclusivamente para verificar se existia algum impedimento jurídico ou conflito de interesses para a contratação.

A banca sustenta que não havia impedimento e que os serviços contratados foram efetivamente prestados.

A questão, entretanto, ganhou peso dentro da investigação justamente porque o ministro do STF teria participado da análise de um contrato milionário celebrado entre uma instituição financeira posteriormente investigada e o escritório de sua própria esposa.

Um segundo contrato de R$ 50 milhões

O relatório ainda menciona um segundo contrato, estimado em R$ 50 milhões, envolvendo o escritório e uma empresa ligada a Daniel Vorcaro.

Segundo a PF, mensagens analisadas durante a investigação indicam que parte da remuneração chegou a ser discutida por meio da entrega de participações em um avião e em um helicóptero.

O episódio acrescenta outra camada à investigação porque envolve diretamente empresas relacionadas ao ex-banqueiro e a banca jurídica ligada à família do ministro.

Ainda segundo as informações reunidas pela PF, a existência desses contratos foi analisada em conjunto com as mensagens e os encontros identificados durante a investigação.

Encontros e eventos também entraram no relatório

A PF também encontrou registros que, segundo a corporação, apontam para uma série de encontros entre Moraes e Vorcaro ao longo de 2023, 2024 e 2025.

Em um dos episódios, Vorcaro teria orientado funcionários a preparar uma recepção “ultra VIP” para uma visita atribuída ao ministro em Campos do Jordão.

O relatório também menciona eventos jurídicos ligados ao Banco Master em Londres.

Segundo a investigação, Vorcaro discutia convidados e mencionava a necessidade de determinados nomes serem submetidos à avaliação do ministro.

Em determinado contexto, aparece a expressão:

“aprovar com Alexandre”

Para a PF, os registros ajudam a compor o quadro de proximidade entre os dois.

Moraes contesta a interpretação da PF

Moraes nega ter cometido irregularidades e contesta a interpretação dada aos registros encontrados no celular de Vorcaro.

Em manifestação apresentada ao STF, o ministro classificou como “farsa” a investigação conduzida contra ele e afirmou que não existiram os supostos diálogos atribuídos ao relacionamento com o ex-banqueiro.

Moraes também afirmou que as mensagens apresentadas como conversas entre os dois seriam, na realidade, registros produzidos no aparelho de Vorcaro.

Em outro trecho de sua defesa, o ministro classificou os supostos diálogos como “fantasiosos” e afirmou que não existe uma única mensagem enviada por ele que comprove a comunicação apresentada no relatório.

A defesa também acusa a condução da investigação de ter sido direcionada contra Moraes.

O que está em jogo no STF

O julgamento desta terça-feira (15) não significa que Alexandre de Moraes esteja sendo julgado por crime.

O primeiro debate envolve a própria validade do relatório produzido pela Polícia Federal.

A PGR sustenta que André Mendonça determinou a elaboração do documento sem uma solicitação prévia do Ministério Público ou da própria PF e sem submeter anteriormente a medida ao plenário do Supremo.

Por isso, a Procuradoria pede que o relatório seja anulado.

Caso o pedido seja acolhido, o STF poderá encerrar a discussão sobre o documento sem avançar para uma investigação contra Moraes.

Existe, porém, a possibilidade de os ministros discutirem se os elementos já conhecidos podem justificar uma nova apuração, independentemente da validade do relatório questionado.

Uma crise que ultrapassa as mensagens

O que torna o episódio particularmente sensível é que a controvérsia não está concentrada em uma única mensagem.

O material reúne comunicações, encontros presenciais, contratos milionários e registros de contatos entre um ministro da Suprema Corte e um empresário que se tornou alvo de uma das maiores investigações financeiras do país.

Nenhum desses elementos, isoladamente, representa uma prova definitiva de crime.

A questão que chegou ao STF é justamente se o conjunto das informações é suficiente para justificar uma investigação formal — e se o relatório que reuniu esses elementos foi produzido dentro das regras jurídicas.

De um lado, a PF aponta uma relação próxima e uma sequência de episódios que considera relevantes.

Do outro, Moraes nega irregularidades e acusa a investigação de ter sido construída de maneira artificial, enquanto a PGR questiona a própria origem do relatório.

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