Crise no STF vira “ganha-ganha” para Flávio Bolsonaro, avaliam aliados

Campanha do senador aposta que tanto o avanço de uma investigação sobre Alexandre de Moraes quanto o arquivamento do caso podem ser transformados em argumento eleitoral
Redação NC News
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

A crise interna do Supremo Tribunal Federal (STF) passou a ser tratada pela campanha de Flávio Bolsonaro (PL) como uma oportunidade política em qualquer um dos possíveis desfechos do caso envolvendo o ministro Alexandre de Moraes. A avaliação, atribuída a aliados do senador, é que o episódio pode ser explorado eleitoralmente tanto se uma investigação avançar quanto se o procedimento for interrompido.

A leitura ganhou força depois da sessão de terça-feira (15), quando o STF não chegou a uma decisão sobre a forma de tramitação dos processos relacionados a Moraes e ao ministro André Mendonça. O ministro Flávio Dino pediu vista e suspendeu a análise, deixando o caso sem conclusão imediata.

Para integrantes da campanha, um eventual avanço das investigações permitiria a Flávio sustentar que as suspeitas sobre Moraes precisam ser apuradas. Caso o procedimento seja arquivado ou encontre obstáculos dentro do próprio Supremo, a estratégia seria apresentar o resultado como demonstração de que a Corte estaria impedindo o avanço das apurações.

Essa avaliação é atribuída ao entorno eleitoral do candidato e não representa uma conclusão sobre o impacto efetivo da crise na disputa presidencial.

VEJA TAMBÉM

Bate-boca, acusações e pedido de vista: veja o resumo da sessão do STF sobre Moraes e Mendonça

Dois cenários na mira da campanha

A campanha de Flávio acompanhou a sessão do STF de perto e, segundo o Metrópoles, trabalhou com a ideia de que os dois principais desfechos poderiam ser aproveitados politicamente.

No primeiro cenário, uma eventual abertura de investigação contra Moraes daria à campanha espaço para ampliar as cobranças sobre a relação do ministro com Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, e sobre os elementos reunidos durante as apurações.

No segundo, uma decisão que impeça ou encerre a investigação poderia ser usada pela campanha para sustentar críticas à atuação do Supremo.

A Folha também registrou que a campanha considera o cenário uma espécie de “ganha-ganha”: se a investigação avançar, a direita poderia celebrar a abertura do procedimento; se não avançar, a campanha pretende explorar a frustração e o desgaste com a Corte.

Crise coloca Moraes e STF no centro da eleição

O episódio ocorre em um momento no qual a atuação do STF já ocupa espaço relevante no discurso de Flávio Bolsonaro.

O senador vem associando diretamente Alexandre de Moraes ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A estratégia busca transformar o debate sobre o Supremo em uma questão eleitoral e apresentar a disputa presidencial também como uma escolha sobre a relação entre Executivo, Legislativo e Judiciário.

O próprio Flávio passou a atacar publicamente a atuação de ministros da Corte durante sua campanha. Após a sessão, afirmou que haveria uma espécie de “tropa de choque” de Lula atuando para proteger Moraes, segundo relatos sobre sua reação ao julgamento.

A associação entre Lula e Moraes, porém, é uma construção política da campanha de Flávio e não uma conclusão jurídica produzida pelo STF.

Julgamento expôs divisão entre ministros

A sessão de 15 de setembro aumentou a visibilidade das divergências internas do Supremo.

A discussão começou com a análise sobre a forma de tramitação dos casos envolvendo Moraes e Mendonça. Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes e Cristiano Zanin defenderam a reunião dos processos. Edson Fachin, André Mendonça, Luiz Fux e Cármen Lúcia votaram pela tramitação separada.

O placar provisório ficou em 4 a 3 pela separação dos casos. Flávio Dino pediu vista antes da conclusão, interrompendo o julgamento. Kassio Nunes Marques e Dias Toffoli não participaram da votação: o primeiro declarou impedimento e o segundo, suspeição.

O resultado deixou para uma etapa posterior a definição sobre a possibilidade de investigação contra Moraes e a forma como os processos deverão seguir.

Bate-bocas ampliaram repercussão

Além da questão processual, a sessão foi marcada por confrontos entre ministros.

Gilmar Mendes e André Mendonça trocaram acusações durante a discussão. Em outro momento, Moraes rebateu críticas relacionadas às informações extraídas do celular de Vorcaro.

Flávio Dino classificou a condução da sessão como problemática e acabou pedindo vista do processo. Cármen Lúcia também demonstrou desconforto com o ambiente criado durante o julgamento.

A repercussão transformou a sessão em um dos episódios de maior exposição pública das divergências internas da Corte em meio à investigação do caso Banco Master.

Para a campanha de Flávio, a exposição pública desses conflitos reforça a possibilidade de manter o STF no centro do debate eleitoral.

Pesquisa mostra disputa dentro da margem de erro

A movimentação acontece simultaneamente a uma mudança registrada em pesquisas eleitorais.

Levantamento Genial/Quaest divulgado em 14 de setembro mostrou Flávio Bolsonaro com 42% das intenções de voto contra 40% de Lula em uma simulação de segundo turno. Como a margem de erro é de dois pontos percentuais, o resultado está dentro da margem e caracteriza empate técnico.

No primeiro turno, Lula apareceu com 36%, enquanto Flávio registrou 31%. A pesquisa ouviu 2.004 pessoas entre 10 e 13 de setembro e foi registrada sob o protocolo BR-03607/2026.

É importante observar que a coleta terminou antes da sessão do STF de 15 de setembro. Portanto, os números não permitem medir eventual efeito eleitoral dos acontecimentos do julgamento.

Redes sociais também repercutem a crise

A repercussão digital do episódio mostrou críticas distribuídas entre diferentes integrantes da Corte.

Levantamento citado pelo UOL apontou que Alexandre de Moraes continuou sendo um dos ministros mais criticados nas redes, embora a intensidade das menções negativas tenha diminuído após a sessão. Parte das críticas passou a ser direcionada ao STF como instituição, enquanto André Mendonça e Gilmar Mendes também foram alvo de manifestações negativas.

O dado ajuda a dimensionar a repercussão pública do episódio, mas não permite concluir que a crise tenha provocado uma mudança generalizada nas preferências eleitorais.

Caso Banco Master está no centro da disputa

As discussões no STF estão relacionadas a elementos obtidos durante as investigações sobre o Banco Master e Daniel Vorcaro.

Entre os pontos analisados estão mensagens extraídas do celular do empresário e informações relacionadas a contatos com autoridades e pessoas próximas a ministros.

No caso de Moraes, a discussão envolve elementos que a Polícia Federal apresentou e que passaram a ser questionados dentro do próprio Supremo. O ministro nega irregularidades.

A análise judicial ainda não produziu uma conclusão definitiva sobre eventual responsabilidade de Moraes.

O que acontece agora

O pedido de vista de Flávio Dino suspendeu a análise. O ministro poderá permanecer com o processo por até 90 dias antes de devolvê-lo para julgamento, embora o calendário possa ser alterado.

Enquanto isso, a questão sobre a tramitação conjunta ou separada dos casos permanece em aberto. Também não houve decisão definitiva sobre a abertura de uma investigação contra Moraes.

O julgamento relacionado a André Mendonça estava previsto para 23 de setembro, mas o pedido de vista e as discussões internas da Corte podem alterar o cronograma.

LEIA TAMBÉM

Quaest: 49% veem Lula como desonesto; 42% dizem o mesmo sobre Flávio Bolsonaro

Entenda O Contexto

A crise que envolve Alexandre de Moraes se desenvolveu a partir das investigações relacionadas ao Banco Master e ao empresário Daniel Vorcaro. Informações obtidas durante as apurações passaram a envolver relações entre Vorcaro e pessoas próximas a integrantes do Supremo, levando a discussões sobre possíveis conflitos de interesse e sobre a necessidade de investigação.

A sessão de 15 de setembro não decidiu se Moraes deverá ser investigado. O debate acabou concentrado inicialmente na forma como os processos envolvendo Moraes e André Mendonça deveriam tramitar. A proposta de reunião dos casos foi rejeitada por 4 votos a 3, mas a análise foi interrompida pelo pedido de vista de Dino.

Para Flávio Bolsonaro, o episódio oferece espaço para manter as críticas ao Supremo no centro de sua campanha. Seus aliados avaliam que tanto uma eventual investigação contra Moraes quanto uma decisão que impeça seu avanço podem ser utilizadas no discurso eleitoral. Trata-se de uma avaliação estratégica da campanha, e não de uma conclusão independente sobre os efeitos do episódio na eleição.

O cenário eleitoral já apresentava uma disputa apertada antes da sessão. A pesquisa Genial/Quaest divulgada em 14 de setembro mostrou Lula com 40% e Flávio com 42% em um eventual segundo turno, mas dentro da margem de erro de dois pontos. Como as entrevistas foram realizadas até 13 de setembro, o levantamento não mede os efeitos da sessão do STF.

A crise, portanto, permanece aberta em duas frentes. No Supremo, ainda não há decisão definitiva sobre a tramitação dos processos e sobre eventual investigação contra Moraes. Na política, o episódio passou a integrar de forma mais explícita o discurso eleitoral de Flávio e a disputa em torno da relação entre o STF, o governo Lula e o Congresso.

AS MAIS LIDAS DO NC NEWS

Virginia Fonseca surge com visual ousado e web questiona se vale tudo para aparecer

Hospital e funerária são condenados após troca de corpo em sepultamento em SP

Flávio Bolsonaro diz que julgamento de Moraes será “vital” para o Brasil

Carregar Comentários