O presidente Luiz Inácio Lula da Silva pretende procurar nos próximos dias o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Edson Fachin, para discutir saídas que reduzam a crise instalada na Corte depois do julgamento sobre a investigação que envolve o ministro Alexandre de Moraes.
Segundo aliados do petista, Lula também não descarta procurar diretamente o ministro Flávio Dino para pedir que o pedido de vista seja devolvido com rapidez, permitindo a retomada do julgamento.
Interlocutores do Palácio do Planalto afirmam que o presidente avalia que o embate público entre ministros aprofundou o desgaste institucional do Supremo em pleno período eleitoral. O julgamento foi interrompido na terça-feira (15), após o pedido de vista de Dino, e ainda não tem data para voltar à pauta.
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Nos bastidores, segundo auxiliares, o presidente classificou a sessão como um dos momentos mais delicados da história recente da Corte e afirmou que a situação não pode permanecer como está. A partir dessa leitura, decidiu buscar uma conversa direta com Fachin sobre caminhos que ajudem a pacificar o ambiente no Supremo.
Entenda o que aconteceu
A avaliação dentro do governo é que a crise deixou de ser apenas jurídica e passou a produzir reflexos políticos diretos. Por isso, Lula quer ouvir do presidente do STF quais medidas podem ser adotadas para evitar o agravamento do cenário nas próximas semanas, a poucas semanas do primeiro turno.
O cálculo eleitoral aparece de forma clara na conversa de aliados: o receio no Planalto é que a instabilidade no Supremo alimente o crescimento da campanha de Flávio Bolsonaro (PL), que tem explorado o desgaste da Corte como bandeira política. Ao mesmo tempo, a iniciativa permite a Lula se apresentar como um líder preocupado com a estabilidade das instituições.
Lula cobra Fachin publicamente
Nesta quarta-feira (16), o presidente elevou o tom e cobrou publicamente uma atuação do chefe do Supremo para impedir que a crise contamine o processo eleitoral. Em entrevista, Lula afirmou que Fachin tem a responsabilidade de evitar que o impasse institucional alcance a disputa nas urnas.
A fala pública, na prática, antecipa o teor da conversa reservada que o presidente pretende ter com o ministro. É também um recado para os demais integrantes da Corte, num momento em que o Supremo aparece dividido em placar apertado sobre como conduzir os processos que envolvem Moraes e André Mendonça.
Governo reconhece derrota política na sessão
Reservadamente, integrantes do governo admitem que a sessão de terça-feira foi negativa para o Planalto do ponto de vista político. A percepção entre aliados é que a atuação de ministros identificados como próximos ao presidente acabou ampliando o desgaste do governo justamente em um momento de forte tensão entre Judiciário e política.
É esse diagnóstico que explica a mudança de postura de Lula. Em vez de manter o silêncio adotado nas primeiras semanas da crise, o presidente passou a agir para tentar acelerar um desfecho, mesmo que isso signifique procurar diretamente um ministro que acabou de suspender o julgamento.
Não há, até o momento, confirmação oficial de data para as conversas. Nem o Supremo nem o Planalto se manifestaram publicamente sobre os encontros relatados por aliados.
Entenda o contexto
A crise começou quando André Mendonça retirou o sigilo de um relatório da Polícia Federal com mensagens atribuídas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro que fazem referência a Alexandre de Moraes. Moraes reagiu e pediu a Fachin a abertura de investigação contra Mendonça, alegando irregularidades na condução das apurações. Fachin então centralizou os dois procedimentos na Presidência da Corte.
Na sessão de terça-feira, o Supremo discutia se os casos deveriam tramitar juntos ou separados. O placar parcial ficou em 4 a 3 pela separação, antes de Dino pedir vista e suspender tudo. Não há prazo definido para a devolução — é justamente esse ponto que Lula pretende tratar diretamente com o ministro.
Nenhum dos ministros envolvidos foi formalmente acusado ou condenado até o momento. Os procedimentos tratam da abertura ou não de investigações, etapa anterior a qualquer imputação.